Relativamente ao conflito Irão-Israel-EUA, antes do mais, digamos o que temos a dizer sem papas na língua: a diplomacia falhou rotundamente, a bem dizer, nunca existiu. Os casos da Ucrânia e da guerra no Médio Oriente provam-no à saciedade. As relações internacionais pautam-se, hoje, quase em exclusivo, pela razão da força e não pela força da razão. É de uma hipocrisia absoluta dizer que a diplomacia ainda existe e que o direito internacional é aceite e está a ser respeitado. É falso! As armas sobrepõem-se às palavras. Os factos falam por si.

Na guerra não declarada, dita preventiva de Israel ao Irão, primeiro apoiada e depois objecto de uma intervenção maciça pelos EUA, existiam 3 objectivos:

a) terminar com o programa nuclear, designadamente o enriquecimento de urânio e o processamento de plutónio
b) a mudança de regime
c) a rendição incondicional

Estes objectivos estariam interconectados e, de certo modo, confundiam-se. Seriam alcançáveis?

 

Termo do programa nuclear iraniano?

As acções militares podem introduzir uma dilação importante no programa nuclear, mas muito dificilmente lhe porão termo definitivo, na medida em que, a priori, não existem quaisquer certezas quanto à destruição total das centrais nucleares (e as informações a este respeito são muito nebulosas, prevalecendo a especulação). Com efeito, sabe-se muito pouco e nenhuma fonte fiável confirma a tão decantada ‘obliteração’, de que fala Trump. Para já, segundo uma avaliação inicial dos serviços secretos norte-americanos obtida pelo The New York Times e pela CNN, os ataques dos EUA contra três instalações nucleares iranianas, há dias, não destruíram componentes cruciais do programa nuclear do Irão, apenas terão atrasado o seu lançamento em alguns meses. A Agência de Inteligência de Defesa (DIA), ligada ao Pentágono, elaborou a avaliação. As reservas de urânio enriquecido do Irã permaneceram intactas, assim como as centrifugadoras.

Em segundo lugar, num país tão vasto como o Irão, os materiais e os laboratórios podem ter sido transferidos de um lugar para outro (o que pode já ter acontecido com a principal infraestrutura nuclear de Fordow, na expectativa plausível de um ataque).

Finalmente, mesmo perante uma eliminação muito significativa, a possibilidade e a vontade de reconstrução existe sempre e os iranianos são resilientes e perseverantes. É, apenas, uma questão de tempo.
As declarações bombásticas e triunfalistas têm de ser caldeadas com as informações disponíveis e estas são muito escassas. Em suma, tudo aponta para que se está perante uma destruição presumivelmente parcial, mas total, não. Mais: o programa de enriquecimento de urânio será retomado. É expectável.

 

Mudança de regime

A mudança de regime, por vezes objectivo declarado e outras tantas negado, não é facilmente atingível. Antes do mais, dentro e fora do país não existe uma oposição organizada e estruturada capaz de tomar o Poder e consolidar o seu controlo. O Irão, admitindo-se hipoteticamente a queda do regime, pode entrar em colapso, ou, mesmo, no caos total com uma guerra civil incontrolável, agravada ainda por problemas secessionistas. A decapitação da liderança dos ayatollahs não resolve o problema, antes é bem capaz de o agravar consideravelmente. Aliás, a ofensiva israelo-americana, terá levado à unidade nacional iraniana e, mesmo, a um reforço desta.

Apesar dos protestos e do descontentamento popular, o regime islâmico do Irão mantém-se firme graças a um robusto sistema de autodefesa baseado não no apoio eleitoral, mas numa vasta rede paramilitar liderada pelo Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI). Um dos pilares desse sistema é o Basij, fundado em 1979 por Khomeini como milícia popular.

Actualmente, o Basij conta com mais de 13 milhões de membros nominais, dos quais cerca de 1 milhão estão em actividade. Está organizado em células espalhadas por todo o território e actua na repressão a protestos, patrulhamento urbano, vigilância social e controle de áreas periféricas. Recruta sobretudo jovens de famílias rurais pobres em busca de mobilidade social. O CGRI, que controla cerca de um terço da economia iraniana, torna a adesão economicamente vantajosa. Durante a guerra Irão-Iraque, o Basij mobilizou centenas de milhares de voluntários para a frente, consolidando seu papel como instrumento central de controle interno do regime.

Em suma, qualquer vislumbre de possível mudança do regime, neste momento, é puramente especulativa. O regime aparenta ser sólido, dispõe de apoios internos consistentes e de um musculado aparelho repressivo.

 

Rendição incondicional

A rendição incondicional – um objectivo declarado de Trump e afixado nas redes sociais e nos media – foi uma miragem ao gosto de Trump e de Netanyahu que não tem em conta a resiliência da Pérsia e do seu povo, com os seus 4.000 anos de história, a sua cultura e o seu patriotismo, que não se irá submeter de ânimo leve à humilhação da derrota.

 

Finalmente 2 ou 3 perguntas singelas:

No caso da Ucrânia, o Ocidente condenou, à partida, a Rússia pela invasão não declarada do país vizinho: Todavia, no caso do ataque preventivo e não declarado de Israel ao Irão, o Ocidente não o fez. Perante os dois casos em presença está-se ou não perante violações da carta das Nações Unidas, do Direito Internacional e da soberania dos estados? Como é? Dois pesos e duas medidas?

Será que, nas presentes circunstâncias, podemos dizer que esta etapa acabou? Que este processo não está eivado de debilidades imensas? Que a paz e a estabilidade no Médio Oriente foram conseguidas ou que para lá caminhamos?

Enfim: Game Over?

 

 

FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.