As grandes ilusões políticas do nosso tempo, sejam elas progressistas, liberais ou “conservadoras”, não fracassam apenas por falta de técnica, gestão ou marketing. Elas fracassam porque perderam o céu. O drama da modernidade não é político, é metafísico.

O mundo grita por ordem, mas rejeita a fonte da ordem. Rejeita o Justo e recusa o Valor absoluto. E é por isso que todo projeto de restauração sem Deus é uma ilusão a longo prazo. E os demais projetos, que sequer demonstram interesse em restaurar algo, senão agravar a situação, são partes que completam o todo do Leviatã, que nada cada vez mais ansioso e desesperado em direção ao abismo de sempre. O que vemos no horizonte não é um novo começo, mas um velho fim encenado com outras máscaras.

A esquerda progressista, embriagada com a fantasia de moldar o homem à imagem de seus caprichos, transformou o Leviatã em engenheiro de almas. O Estado virou terapeuta, tutor, censor, pai e deus. Tudo precisa ser corrigido: o sexo, a linguagem, a história, a memória e, por fim, a própria natureza humana. E isso se faz com mão pesada, mas fala mansa. Com promessas de justiça social que escondem a mais brutal colonização da consciência. O homem, outrora visto como criatura e filho, é agora matéria bruta nas mãos de um poder que não responde a mais nada além de si mesmo.

O liberalismo, por sua vez, que nasceu prometendo limitar o Estado e garantir liberdade ao homem, acabou agravando aquilo que jurava combater. Fez do indivíduo um absoluto e da liberdade um vazio. Sem uma concepção de bem, o “direito de escolher” se converteu em abismo. A liberdade se tornou mera bandeira genérica e despropositada. A ausência de metafísica abriu espaço para a anarquia dos instintos. O Estado liberal, sem freios transcendentes, tornou-se um Leviatã educado, que não impõe valores, mas dissolve todos. E no fim, é ele que, com sua amoralidade refinada, decide não o que se “pode”
dizer, fazer e acreditar, mas o que “convém”. E o juízo entre bem e mal não convém quando o bem absoluto é a pseudoliberdade para tudo.

O neoconservadorismo, essa invenção de gabinete, é o mais trágico dos três. Ele vê que algo está errado, mas não ousa voltar à fonte. Prefere simular resistência com discursos polidos e frases feitas. Trata a fé como patrimônio cultural, não como verdade viva. Curva-se diante das mesmas instituições, dos mesmos tratados, das mesmas ideias que destruíram tudo o que hoje finge querer restaurar.

Diante disso, a resposta não está em mais uma eleição, nem em reformas institucionais, nem em coalizões de ocasião. A resposta está naquilo que foi abandonado: na hierarquia espiritual das coisas, na restauração da ordem como reflexo da verdade, e na fé como fundamento do agir público. Não é possível construir uma civilização sobre areia ideológica. E o que foi construído certamente perecerá se os alicerces apodrecerem. É preciso retornar ao fundamento, retornar à tradição. Não uma tradição de rede social, vaga, travestida, utilizada como pose e arrogância para gente iludida. Mas a autêntica
tradição, a sabedoria dos antigos, os ensinamentos valorosos que a sociedade se esforça para esquecer, a ordem de valores, a hierarquia dos bens. Sem isso, toda liberdade é devassidão, toda ordem é opressão, e toda justiça é só nome de partido.

O novo Leviatã, com sua máscara humanitária, técnica e pluralista, não teme a política. Teme o altar. Teme o sacramento, o dogma, a cruz e o silêncio diante do Eterno. Teme aquilo que nenhuma ideologia pode manipular: a alma penitente. É por isso que todo combate verdadeiro começa com conversão. Sem isso, o que sobra é agitação, indignação e derrota, cuidadosamente organizadas.

Se a civilização quiser sobreviver, precisará reaprender a olhar para cima, para reencontrar o eixo. Pois só quem sabe o que é o céu, sabe onde pisam os pés. E o Leviatã, que se alimenta do esquecimento de Deus, morrerá no mesmo dia em que a fé voltar a ser vivida como o coração do mundo.

 

PAULO H. SANTOS
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Paulo H. Santos é professor de filosofia, bacharel em Filosofia (UCP- Brasil), escritor, católico e colunista desde 2020. Escreve em português do Brasil.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.