Entre os escombros diplomáticos do Oriente Médio, uma pergunta persiste como zumbido incômodo nas salas de situação do Ocidente: Netanyahu ainda está no comando? Ou virou peça coadjuvante em um jogo maior, pilotado por agendas globalistas, lobbies de guerra e interesses não tão secretos assim?

A recente escalada militar com o Irã, longe de parecer uma reação calculada, mais se assemelha a uma coreografia ensaiada para agradar certos setores da máquina bélica e sacramentar o caos como política externa. Enquanto a Casa Branca gagueja comunicados vagos, e o Pentágono joga pôquer estratégico com uma potência nuclear, resta a dúvida: Bibi está agindo por si, ou virou pretexto para guerras terceirizadas?

A deputada Marjorie Taylor Greene e Steve Bannon levantaram, com a sutileza de um trator em porcelana, o que muitos cochicham mas não ousam escrever: será que o Estado judeu — outrora símbolo de soberania e sobrevivência — tornou-se agora instrumento de um establishment sem rosto, que lucra com cada bomba lançada e cada sanção imposta?

A coalizão Netanyahu não esconde sua vocação belicista, nem sua dependência estrutural do apoio americano — não apenas financeiro, mas narrativo. Mas o que começa a incomodar setores da direita norte-americana (ironicamente, os mesmos que sempre defenderam Israel incondicionalmente) é o uso recorrente do “direito à defesa” como cheque em branco para arrastar os EUA para conflitos que não são seus — e que, cada vez mais, servem menos à segurança de Tel Aviv e mais à sobrevivência de um complexo de guerra global permanente.

Bannon, como sempre, cravou sem cerimônia: “Estamos sendo usados”. Greene foi além: questionou o papel de Netanyahu como suposto “aliado” quando decisões com impacto direto sobre soldados americanos são tomadas sem qualquer debate no Capitólio — e com aplauso garantido nos salões de Davos.

O sionismo político, ao se alinhar irrestritamente ao intervencionismo ocidental, pode estar cavando sua própria crise de legitimidade. Porque apoio aliado não é servidão cega. E uma aliança real não teme perguntas incômodas.

Não se trata de negar a ameaça iraniana, nem de romantizar aiatolás genocidas. Trata-se de algo mais básico: soberania nacional — americana e israelense. E de um alerta: o mesmo sistema que manipula eleições, censura dissidência e promove engenharia social, agora tenta manipular também o sentido de “autodefesa” para transformar guerras alheias em destino inevitável.

A pergunta não é se Israel tem o direito de reagir. A pergunta é: quem, de fato, está puxando o gatilho — e quem está pagando a conta?

 

 

MARCOS PAULO CANDELORO

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Marcos Paulo Candeloro  é graduado em História (USP – Brasil), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR – Brasil). Aluno do professor Olavo de Carvalho desde 2011. É professor, jornalista e analista político. Escreve em português do Brasil.

As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.