Bohemian Rhapsody. Por que esse nome?
Por que exatamente cinco minutos e cinquenta e cinco segundos?
Por que a estreia do filme em 31 de outubro?
E afinal – do que trata Bohemian Rhapsody?

A superficialidade moderna consome essa canção como um amontoado de trechos excêntricos – um delírio estético de um homem extravagante; mas há método no delírio e doutrina no caos.

Comecemos pela data: 31 de outubro: foi neste dia, em 1975, que a música foi ao ar pela primeira vez¹. A maioria ignora, mas essa é também a noite de Samhain, festividade celta que marcava o fim do verão e a abertura simbólica dos portais entre vivos e mortos. Nada ali foi, portanto, acidental.

O título também é uma senha. Rhapsody, no grego antigo, era o canto composto por partes soltas, um mosaico épico entoado pelos rapsodos; fragmentos unidos pela voz. Já Bohemian remete tanto à Boêmia – região da atual República Tcheca, terra natal do Fausto histórico² – quanto a um estilo de vida errante, niilista, autodestrutivo. É a rapsódia de um marginal existencial, no caso, Mercury.

Na versão imortalizada por Goethe, Fausto é um velho sábio que sabe tudo, exceto o que interessa: o mistério da vida. Em desespero, recorre ao veneno, mas é impedido pelos sinos da Páscoa. Surge então Mefistófeles, o diabo, oferecendo prazer, juventude e poder em troca da alma. Fausto aceita. Seduz, engana, colhe cadáveres. Ao fim, os anjos disputarão sua alma.

Agora, ouçamos a música. Bohemian Rhapsody é, em essência, a dramatização mitopoética de Freddie Mercury – a encenação de seu próprio pacto, sua culpa, sua fuga. É um libelo operístico dividido em sete atos³.

1. A capella – a dúvida: “Is this the real life? Is this just fantasy?”
2. Balada – o pecado: “Mama, I just killed a man…”
3. Solo de guitarra – o lamento.
4. Ópera – o confronto espiritual.
5. Rock – a revolta e o desespero.
6. Coda – a resignação.
7. Silêncio (o gongo) – o exorcismo final.

 

 

O “homem” que Freddie “mata” na primeira estrofe é ele mesmo. Ao dizer que puxou o gatilho, está dizendo que abandonou algo essencial, talvez a própria alma, e o pacto já está em curso.

A sequência operística é uma psicomaquia em estéreo. Scaramouche, Figaro, Beelzebu, Bismillah – personagens e citações se atropelam, em um teatro espiritual. “Bismillah!” clama o coro celeste: “Em nome de Deus!”. O diabo reage: “Você acha que pode me amar e depois me abandonar?” Há luta, relâmpagos, súplica da mãe, desespero do filho. Há Jó, há Bach, há Mozart, há Alcorão. É um purgatório cantado pelo próprio penitente.

Freddie implora: “Let me go!” – e o pedido não é só de liberdade, mas de morte, ou talvez de salvação. O diabo ruge: “Achas que podes me insultar desta maneira?” – e, espantosamente, parece ofendido. É a fúria do maligno, ante o arrependimento. Mas a batalha é perdida e o diabo parte.

Resta o gongo, um som ritual. Na tradição oriental, é usado para dissipar más influências espirituais. Não apenas fecha a música – sela o exorcismo.

Quanto ao tempo exato da música – 5 minutos e 55 segundos –, é outro enigma. Em numerologia ocultista, 555 é símbolo de transição, ruptura espiritual, fim de ciclo. Não é a morte física: é o juízo, a travessia.

Bohemian Rhapsody não é só uma canção, mas confissão, rito, epifania. É a Missa Negra de um homem dividido entre o palco e o abismo e que, como toda grande arte, transcende seu autor. Mercury talvez não tenha sido um teólogo, mas foi – como tantos pecadores lúcidos – um profeta sem batina.

 

 

WALTER BIANCARDINE

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¹ O single foi lançado em 31 de outubro de 1975 pela EMI. O filme Bohemian Rhapsody estreou no mesmo dia, em 2018.
² A região da Boêmia foi o berço de Johannes Faustus, figura histórica que inspirou os relatos literários posteriores.
³ A divisão em sete partes é reconhecida por diversos musicólogos; a estrutura é atípica e deliberadamente teatral.
Scaramouche é personagem da commedia dell’arte, associado a engano e teatralidade; aqui é símbolo da disputa interior.
A menção a “Bismillah” (“Em nome de Deus”) abre tradicionalmente capítulos do Alcorão. Mercury era filho de zoroastrianos, mas educado em ambiente britânico.
O uso ritual do gongo está presente em tradições tibetanas, chinesas e japonesas como meio de purificação espiritual.

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Walter Biancardine foi aluno de Olavo de Carvalho, é analista político, jornalista (Diário Cabofriense, Rede Lagos TV, Rádio Ondas Fm) e blogger; foi funcionário da OEA – Organização dos Estados Americanos.

As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.