Jesus Cristo com Espada . Ícone ortodoxo

 

 

Não penseis que vim para lançar paz sobre a terra. Não vim para lançar a paz, mas sim uma espada: vim para separar uma pessoa do seu pai e uma filha da sua mãe e uma nora da sua sogra, e inimigos de cada um são os que vivem em sua casa. Aquele que ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim. E aquele que não pega na sua cruz e não segue atrás de mim, esse não é digno de mim. Quem encontrou a sua vida irá perdê-la e quem perdeu a sua vida por minha causa irá encontrá-la.

Mateus 10:34-39*

 

 

Esta será, na minha opinião e não só, uma das passagens mais densas, controversas e de exigente exegese dos quatro evangelhos canónicos.

A maior parte das leituras do espectro que vai da posição ortodoxa à gnóstica, ou até à meramente literária, segue a direcção da parábola, ou seja: o que Cristo quer dizer não é o que lá está escrito. O que Ele quer dizer é que a “paz” que traz não é a ausência de conflito, mas a reconciliação com Deus e e que essa “paz” pode, no entanto, ser alcançada após um período de provação e luta interior.

Mas quanto mais leituras faço do Novo Testamento menos tendo a interpretações translatas e mais procuro a sua literalidade. A minha leitura será assim e sempre fiel ao que nos é, preto no branco, transmitido no grego koiné de Mateus, que será uma tradução fiel do aramaico em que Cristo se dirigia às massas.

Até porque, logo à partida, estes problemáticos versículos fazem prova do carácter de reportagem jornalística dos evangelhos: ninguém que fosse ficcionar um Messias neste tempo histórico e neste espaço geográfico iria colocar na boca do profeta palavras tão complicadas e polémicas, não é? Só um repórter com amor aos factos e respeito pela citação poderia reproduzir estas palavras. Não é coisa que se invente para meter na boca do herói da história, principalmente quando o herói vem ao mundo para redenção da humanidade.

Uma coisa seria Aquiles dizer isto. Outra coisa será atribuir ao carpinteiro da Nazaré um discurso que relacionamos facilmente com um líder de uma seita de fanáticos disposto a tudo para fazer cumprir a sua sede de poder, inclusivamente separar os pais dos filhos à força da espada.

Mais a mais, o estilo narrativo do apóstolo / ex-cobrador de impostos, surge, na obsessão com o detalhe e no tom distanciado e objectivo do relato, como o de um verdadeiro repórter. Mas esta é conversa para outra altura. Adiante.

 

 

As Bodas de Caná . Maarten de Vos . 1595

 

 

A questão familiar.

Como sempre que pegamos na Bíblia, devemos ter atenção ao contexto em que lemos certos versículos, mas também à relação que mantêm com outros segmentos dos dois Testamentos. E o primeiro eixo interactivo que salta à vista é este: Jesus Cristo não tinha uma boa relação com a sua família. Nem era querido na sua terra.

Reparem no episódio das bodas de Caná:

No terceiro dia, uma boda realizava-se em Caná da Galileia e a mãe de Jesus estava lá. Tinham sido chamados também Jesus e os discípulos dele para a boda. E, faltando vinho, diz a mãe de Jesus ao próprio: “Não têm vinho.” E diz-lhe Jesus: “O que tem isso a ver contigo e comigo, mulher?” Ainda não chegou a minha hora. A mãe dele diz aos criados: “O que ele vos disser, fazei.”
João 2:1-5*

No Evangelho de João este é o primeiro milagre público que Cristo realiza. E dá-se nitidamente contra a sua vontade e por motivos prosaicos. Não é um cego que passa a ver ou um paralítico que se levanta para andar nem uma criança morta que volta a viver. Toda a gente presente no casamento viveria bem ou mal independentemente do escândalo momentâneo de não haver mais vinho para servir aos convivas. E Jesus não acha que a situação, meramente inconveniente, tenha estatuto para que ali inicie a sua senda de actos sobrenaturais. Talvez por isso, talvez por de qualquer forma não ter com a mãe uma relação “normal”, responde-lhe nos termos ríspidos em que responde: “O que tem isso a ver contigo e comigo, mulher?”

O tratamento da mãe por “mulher”, a recusa em enunciar o seu nome (o próprio evangelista só a traz à narrativa por duas vezes mas nomeando-a sempre como “mãe”), são eloquentes de um certo distanciamento formal entre Maria e o seu filho. Mais a mais, a tensão entre o desejo de Maria e as reticências de Jesus fica por resolver. Se lermos estes versículos apenas entre o 2:1 e o 2:4, ninguém diria que Cristo teria anuído à solicitação de sua mãe. Mas o versículo imediato informa que o milagre vai de facto ocorrer. Nada sabemos sobre os argumentos trocados entre os dois para que a mãe do redentor levasse a melhor sobre a primeira recusa do seu filho.

Neste caso, como noutros que podemos identificar nos evangelhos (Marcos 3:31-35, por exemplo), percebemos que Jesus e Maria têm uma relação distante e – a creditar os quatro evangelhos, onde ela surge apenas por doze breves momentos e mais como figurante do que como parte activa da acção – muito pouco afectuosa.

A relação de Cristo com os seus irmãos é também deveras problemática. O nazareno tinha pelo menos quatro irmãos e duas irmãs. Sendo que José não é pai biológico de Jesus, são todos meios irmãos. E nem um tem nos evangelhos qualquer papel digno de nota.

Mateus relata inclusivamente que Jesus foi mal recebido por seus conterrâneos em Nazaré, incluindo os seus próprios irmãos, que questionaram a sua sabedoria e poder, dizendo:

Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?
Mateus 13:55-56*

Estes dois versículos manifestam incredulidade, cepticismo e mordácia. Os irmãos do redentor tratam-no como sempre o trataram: um carpinteiro que é tanto como eles. Essa incredulidade e essa rejeição do carácter divino de Cristo constituíram até um obstáculo para que Jesus professasse a sua verdade e realizasse milagres na sua própria terra.

Há também aqui que notar que José, o seu pai adoptivo, digamos assim, morre antes de Jesus iniciar a vida pública, pelo que sabemos na verdade zero sobre o relacionamento que tiveram, mas que se pode adivinhar tenso, dado o contexto em que foi concebido e nascido.

Em resumo: Jesus Cristo não tinha uma relação próxima ou afectuosa com a mãe, que poucas vezes esteve presente nos últimos anos da sua existência. Tinha uma relação conflituosa com os (meios) irmãos e nada sabemos da interacção com José, que está morto quando o Messias inicia a sua saga.

É assim natural que a opinião de Jesus sobre a família não seja propriamente aquela que a igreja católica, por exemplo – e bem – tem difundido sobre as eras. E percebe-se melhor, à luz deste contexto, a predisposição para subvalorizar a unidade familiar, em função de valores mais altos.

 

Amar a Deus sobre todas as coisas.

Para além de ser o Primeiro Mandamento da Igreja católica, o dever de amar a Deus sobre todas as coisas é destacado frequentemente nas escrituras sagradas e encontramos esse mandado no Antigo Testamento, por exemplo, no Deuteronômio:

Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças.
Deuteronômio 6:5

Como também e inevitavelmente no Novo Testamento, em Mateus:

Tendo os fariseus ouvido que Jesus calara os saduceus, juntaram-se para o mesmo, e um deles, um legalista, para pôr Jesus à prova, perguntou: “Mestre, qual é o maior mandamento na lei?” Jesus disse-lhe: “Amarás o Senhor teu Deus em todo o teu coração e em toda a tua alma e em todo o teu entendimento. Este é o grande, o primeiro mandamento.”
Mateus 22:34-40*

Ora, se creditarmos os fundamentos teológicos do evangelho de João – em que Cristo é representado tão divino como o seu Pai – e os transportámos para a passagem de Mateus que dá justa causa a este texto, percebemos o que o nazareno quer dizer. Amem-me a mim, que sou Deus, mais do que amam os vossos familiares, mesmo os directos. E se não conseguem fazer isso, não me sigam que não vale a pena.

Temos sempre que ter em mente que Jesus Cristo é extremamente exigente com os seus seguidores. E que se mostra constantemente frustrado e irritado com os lapsos de fé que até os apóstolos, recorrentemente, manifestam.

Assim sendo, se aqueles que o querem seguir não demonstram que acreditam nas suas palavras como verdadeiras a cem por cento, se não conseguem respeitar o primeiro e mais sagrado mandamento do seu ministério, que poupem as solas e voltem para a perdição das suas vidas.

 

 

Cristo Carrega a Cruz . Benvenuto Tisi . 1528-31

 

 

A cruz que devemos carregar.

Aqui há uns anos atrás, quando ainda não tinha sido completamente corrompido pela doença, pela fama e pelo dinheiro dos sionistas, Jordan B. Peterson recomendava com frequência, nas suas célebres palestras sobre a Bíblia, o seguinte preceito:

“Nunca renuncies à tua cruz”.

De facto, todos temos uma. Um desgosto de amor. Uma falência material. Um filho que nos morre. Uma mãe doente. Um defeito de carácter. Um drama. Uma tragédia. Mas não devemos fugir dessa cruz. Porque – é inevitável – se fugirmos dessa, outras surgirão. Somos todos fustigados pelas vicissitudes da vida, sem excepção. O destino, neste contexto, reduz as pessoas a uma espécie de comunismo ontológico.

Acresce que, ao rejeitarmos a cruz que nos é dada, só aumentamos o sofrimento e não só o sofrimento que advém do remorso e do arrependimento, como aquele, talvez mais agudo, de sabermos que não somos fortes para enfrentar as dificuldades da vida.

E isto já para não falar de que essa cruz pode relacionar-se com os outros e que ao ignorarmos esse fardo estamos objectivamente a abandonar quem precisa de nós, e as pessoas que mais de nós precisam são, regra geral, aquelas que mais amamos.

No versículo 10:38, Mateus informa-nos que Jesus pensa exactamente desta forma: pega na tua cruz e segue-me. Esse peso de que padeces, é um essencial vector da tua redenção. É o teu cartão de sócio deste clube de acesso deveras exclusivo. Carrega-o e acredita que serás salvo. Evita-o e nada poderá ser feito pela tua alma.

 

Um certo desprezo pela vida.

O versículo 39 que fecha o excerto de Mateus sobre o qual se debruça este texto é também duro de roer. Quem encontrou a vida vai perdê-la? E quem a perder, por Cristo, vai encontrá-la? Isto parece, de novo, um discurso niilista próprio de um líder fanático, que não deve ser seguido.

Mas mais à frente no Evangelho de Mateus, Jesus repete, sublinha e na verdade explica esta draconiana senha:

Então disse Jesus aos seus discípulos: “Se alguém quer seguir atrás de mim, que se negue a si próprio e levante a sua cruz e me siga. Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á. Mas quem perder a sua vida por minha causa, encontrá-la-á. Pois no que ficará beneficiada uma pessoa se ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? Que coisa dará o ser humano em troca da sua vida?”
Mateus 16:24-26*

Para entender tudo isto, é preciso compreender que o cristianismo é eminentemente apocalíptico. E, assim sendo, as almas terão duas vidas, uma antes e outra depois do Juízo Final. A “vida” a que Jesus se refere é assim dual: há a vida material, que se perde, e a vida pós-apocalíptica, que se ganha (ou não). E não vale de nada a vida efémera que se ganha agora se a vamos perder depois, para toda a eternidade.

Este é na verdade um ponto central da mensagem de Cristo, e que é até, de certa forma, consistente com o pensamento dos estoicos helenísticos, tanto como com a sabedoria do Eclisiastes: a glória terrena é irrelevante e de nada vale lutar por riquezas e prestígio, de nada vale o orgulho e a auto-estima, de nada vale o engrandecimento individual e o culto personalístico, porque esta etapa ontológica é mero preâmbulo que serve apenas um desígnio maior, que é o da salvação. Se sacrificarmos esta vida em função da outra, sairemos ganhadores. Caso contrário, tudo se perderá.

Esta é uma das circunstâncias em que o Cristianismo se revela deveras exigente. Da mesma forma que ninguém se pode afirmar Cristão se não acreditar na ressurreição de Cristo (porque se Ele não ressuscitou dos mortos, não passa de um charlatão), também é impossível ser um fiel seguidor do Messias se não partilharmos da sua cosmovisão dual, que implica um certo desprezo por esta vida que vivemos aqui, em função das promessas que nos são feitas sobre a outra vida, que vamos experimentar ali, na companhia Dele e do seu Pai.

Neste sentido, os versículos 10:39 e 16:24-26 de Mateus devem ser entendidos acima de tudo como uma advertência: na medida em que há mais vida para além desta, acautela-te com a forma como vives o momento presente, para que te seja reservada na posteridade a plenitude que agora em vão procuras.

 

 

Cristo expulsa os cambistas do Templo . Salvator Rosa . 1660

 

 

Entre a espada e a parede.

Como já afirmei no princípio deste texto, as leituras alegóricas dos evangelhos deixam-me sempre desconfiado e no caso do versículo 10:34 de Mateus, há que ter a coragem de fazer uma interpretação literal: Jesus não traz a paz, mas antes o conflito da espada. Ponto final.

E dizer que esse conflito é meramente espiritual, é dizer pouco.

Porque se a paz de Cristo é celestial, ou seja, pós-apocalíptica, o caminho tem que ser aberto aqui e agora, pela espada, se necessário for. Ninguém ouve o Messias dizer em nenhum dos evangelhos que vem trazer a paz à Terra ou até e apenas ao Médio-Oriente, sempre atormentado, hoje como ontem.

Mais uma vez, as promessas de Jesus não dizem respeito a este mundo, a esta vida, mas sim ao cosmos divino, posterior ao Juízo. O problema é que, de forma a preparar a humanidade para essa salvação, há que partir a porcelana que decora a ilusão da vida terrena e o equívoco de que deve ser valorizada porque é a única que nos é dada. E é precisamente com o fito dessa destruição que Cristo está armado da espada que separa pais de filhos e os povos uns dos outros, se for preciso.

Da mesma forma que subiu ao Templo para submeter os vendilhões à brutalidade do seu chicote e as bancas comerciais à imoderação do seu temperamento, Cristo não vem fazer a guerra aos césares ou aos fariseus, mas a toda a humanidade. Os escravos não são poupados, por serem escravos. Os clérigos não são poupados, por serem clérigos. Os escribas não são poupados, por fazerem ofício das palavras de Deus. A espada serve para essa violência: a de separar os que vão ser salvos dos que vão ser condenados, independentemente do seu estatuto na terra, que nada tem que ver com o seu estatuto no céu e até porque nenhum condenado seguirá de boa vontade rumo ao fogo eterno.

Jesus encosta a humanidade à parede, com a sua derradeira excalibur. Não está interessado na moeda que César cunha, nem vai distribui-la pelos pobres. A verdadeira riqueza será atribuída a posteriori. Não teme o poder de sacerdotes, centuriões e governadores, que nada mandam no supremo lar a que quer conduzir os justos. Não quer saber se o poço de água salobra é samaritano ou saduceu, porque a fonte de água pura e fresca brota das suas palavras e da promessa de redenção que traz a este mundo. Quem as aceitar, será poupado à espada, quem as recusar, pela espada será trespassado, no fim.

Qualquer leitura que possa ser feita para além desta, será, no contexto de todo o seu Ministério, especulativa – no mínimo, e herege – no limite.

 

Conclusão: Não há revoluções sem sangue.

Depois de tudo isto, falta dizer que Jesus Cristo não é um soldado. Nem um general. Nem um rei. Mas é completamente um revolucionário.

Os versículos 10:34-39 de Mateus são surpreendentes, sim, e de certo modo brutais. Por um momento, Jesus encontra virtudes na violência. Uns dirão que essas virtudes serão apenas retóricas, este texto defende que vão além da sua verbalidade. Cristo sabe que não há revoluções sem sangue, mas sabe sobretudo que o sangue que vai ser derramado no desenlace da história que interpreta é o seu.

Na verdade, as palavras que analisámos neste texto são sobretudo o anúncio da violência final a que ele próprio será submetido. A espada será formalmente a cruz. A paz que Ele não traz será o sofrimento excruciante que vai experimentar. Os irmãos que separa são os seus próprios irmãos. As famílias que desintegra serão a sua estranha e conflituosa família. A cruz que nos recomenda carregar, carrega ele também, no Calvário. Aquilo que Jesus exige dos seus seguidores é exactamente aquilo que ele próprio oferece. O sacrifício inerente às suas palavras é o sacrifício da sua própria vida.

E a redenção que anuncia, plasma-se na sua ressurreição e ascensão ao reino dos céus.

O ciclo fecha-se assim, com uma lógica poderosa e inviolável.

 

 

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*Tradução do grego original de Frederico Lourenço