Tudo começou com a desfaçatez da geológica deriva que separou os continentes de vez na era primitiva. Para inventar a danada longitude dos meridianos, a Pangeia de vasta virtude acabou por separar os oceanos, como quem corta a direito. Mesmo depois de Magalhães passar pelo seu estreito, ninguém se deu por satisfeito e três anos passados, o primeiro Carlos de Espanha encomendou aos soldados a manha de uma passagem pelo istmo mais ao meio, de cá para lá; e assim nasce, segundo creio, a história do Canal do Panamá.
Por muito que pusesse e dispusesse o Rei espanhol, não havia quem rompesse a terra por debaixo do sol e até ao Século XIX foram defeituosos os esforços forçados: Pacífico e Atlântico permaneceram teimosos e separados. Houve entrementes um senhor que inventou a máquina a vapor para o desterro – e com ela a ideia de rachar o continente com o chiar estridente de um caminho de ferro. A coisa não foi para a frente, talvez por parecer demente resolver a geológica deriva com os trabalhos de uma locomotiva. Fosse como fosse, aqui e acolá, andava meio mundo na perspectiva de abrir um Canal no Panamá.
Em 1878 chegaram os franceses, esse povo ilustre de aristocratas e burgueses, sob a batuta de um tal Lesseps Ferdinand, homem virtuoso e grande que já tinha aberto, como Moisés, as águas no Suez. Começaram os trabalhos e, concorrentes, a mortandade e a desgraça: a chuva corria em torrentes e as enchentes em devassa. Se a morte não era esta era aquela, morriam de malária ou de febre amarela o operário e o pária, o capataz e o engenheiro; e até o cangalheiro acabava na pilha funerária dos vinte mil supliciados que por lá ficaram sepultados. Oito anos depois de serem chegados, os franceses que ainda estavam vivos retiraram, ateus, necessitados de anti-depressivos e do vinho de Bordéus. E assim continuou ao deus dará o sonho de abrir um Canal no Panamá.
Rompe o Século XX, e com ele os americanos iniciam a sua interminável rábula de enganos. Theodore Roosevelt, que era um estratega, queria por viva força retomar o escorrega que entre os dois mares faria a união. A Colômbia, que era na altura quem mandava na região, não estava porém na quadratura dessa ambição. Perante a colombiana nega, Theodore, que era um estratega, convenceu os palermas panamianos a fazerem a revolução. E porque a Colômbia quase não ofereceu resistência (talvez porque a americana armada no Golfo do México se fez estacionada), o Panamá teve a sua independência e os Estados Unidos a sua concessão. Assim sendo, deu-se início em 1904 à remoção dos primeiros calhaus para benefício das futuras naus em trânsito comercial, e do turismo humano à escala global. O primeiro engenheiro-chefe desertou passado um ano, porque estava a morrer desta vez tanto americano como tinha morrido o francês. O segundo engenheiro-chefe demitiu-se passados dois, porque o danado do mosquito mordia homens e bois, num esvoaçar aflito de mortes e mais mortes e depois sem receio veio o terceiro, que acabou com o conflito, ao drenar as águas e o atrito da melga fatal, que infestava de insucessos o maldito canal. No entretanto, já tinham falecido mais uns milhares de desgraçados, trabalhadores honestos e bandidos condenados ao pesadelo tropical. Ao quarto engenheiro-chefe estava a obra em conclusão de manobra: eclusas e comportas, elevadores e represas contornavam as incertezas de relevos e correntes, se exceptuarmos os acidentes que mataram cinco mil nativos, mais dez mil cativos que chegaram dos cinco continentes. Ao rebentar das últimas cargas de dinamite ainda morria gente de diarreias e hepatite, aos contingentes caiam de febre má – mais do que a história admite – no Canal do Panamá.
A 15 de Agosto de 1914 foi enfim inaugurado o famoso tubo ousado, triunfo da engenharia humana sobre a continental tapobrana, fenda fluvial rasgada sobre a terra e mesmo a tempo da grande guerra! Para fazer passar a civilização e a sua glória, para reduzir o tamanho do mundo e da memória, foi preciso escavar fundo, até à escuridão da história. Deste então têm passado aos milhões contratorpedeiros, cruzeiros, paquetes e galeões; traineiras, escunas, petroleiros, submarinos, fragatas, cargueiros e porta-aviões. É uma maravilha do mundo moderno, é uma artéria no frémito eterno da passagem de cá para lá; o Canal do Panamá.
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