Esta é uma rubrica muito pessoal, que introduz a banda sonora de uma vida. Não há grandes regras a não ser a de seguir uma sequência (mais ou menos) cronológica, escolher não mais que um disco por banda ou autor e inserir não mais que um videoclipe por álbum, para que a coisa mantenha um tom adequadamente telegráfico.

 

Love – The Cult

1985, estação das chuvas e chegaram os índios. Vestem-se como renegados de um spaghetti western, transpiram cool por todos os poros (Ian Astbury deve ser o vocalista rock com mais pinta da história universal da coisa) e apresentam à audiência mundial um palco sonoro místico e tremendamente poderoso.
Este disco aqui são tardes e tardes com amigos de liceu, a fumar cigarrinhos para rir e a ser feliz só por causa dos The Cult existirem. São noites e noites no Dois Mil, a abanar a cabeça numa variação suburbana de êxtase tribal. “Love” é uma pedra preciosa na calçada da minha vida. Um ritual oculto, performado sob uma tempestade eléctrica no deserto dos desertos. Um altar de riffs implacáveis e olímpicos, que trazem notícias dos Deuses. E os deuses estão irados como o raio.
Dez estrelas em cinco possíveis.

 

Head On The Door  – The Cure

Ainda em 1985. Na minha modesta e, bem sei, polémica opinião foi esta banda que inventou o movimento alternativo que vai rebentar nos próximos cinco anos desta década. Não me venham com Joy Division ou coisa que o valha: o arame farpado sobre o cimento cru nas paredes do Incógnito foi inventado pelos The Cure. O género deprimido de adolescente vestido de preto que não gosta dele nem de ninguém foi inventado pelos The Cure. O dedo do meio mostrado aos futuristas e aos punks e aos metaleiros e à popalhada toda dos charts de vendas e aos parvos da MTV e a toda a gente que pudesse achar piada à bela vidinha burguesa ou problemático o complicado penteado de Robert Smith, esse dedo explícito foi mostrado de forma mais exuberante e felina, desconcertante e corajosa, por estes senhores.
E o disco que gosto mais deles é este. “Head On The Door”. São grandes canções atrás de grandes canções, completamente novas, completamente fora dos cânones da altura e quase invariavelmente donas de um balanço fabuloso, intrincadamente tricotado por riquíssimas harmonias melódicas e um impecável trato estético.
Next.

 

Love Hysteria – Peter Murphy

Já bem dentro da segunda meia década dos anos 80, esta figurinha torna-se incontornável. Mais uma vez, ponho-me muito a jeito para ser criticado por esquecer os subterrâneos, góticos e deprimidos Bauhaus enquanto elogio o posterior reportório do seu vocalista, um pouco mais comprometido com a indústria discográfica, mas a verdade é que Peter Murphy ocupou muito mais espaço acústico na sala de concertos da minha vida. Até vi ao vivo o senhor, naquelas posições impossíveis que ele assumia em palco, por duas vezes. Devo ser um fã.
O Disco que escolho é o segundo, “Love Hysteria”, pela razão descomplicada do costume: é o que gera mais hits por minuto.

 

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