O presidente Donald Trump expressou a sua frustração com Israel e o Irão na madrugada desta terça-feira, afirmando que os dois países “não sabem a merda que estão a fazer” (para não levar a tradução a um palavrão mais literal). As declarações profanas foram feitas quando Trump deixava a Casa Branca para uma cimeira da NATO, e após ter decretado unilateralmente um frágil acordo de cessar-fogo entre os dois países.

Trump criticou Israel pelas suas acções logo após o início do cessar-fogo.

“Não estou feliz com Israel. Quando digo, ok, agora vocês têm 12 horas, não é para  disparamrem tudo o que têm sobre eles na primeira hora. Também não estou feliz com o Irão, mas estou realmente insatisfeito com Israel.”

 

 

Na sua conta no Truth Social, Trump instou, em capitulares, Israel a suspender o ataque planeado.

“ISRAEL. NÃO LANCEM ESSAS BOMBAS. SE O FIZEREM, SERÁ UMA VIOLAÇÃO GRAVE. TRAGAM OS VOSSOS PILOTOS PARA CASA, AGORA!”

O cessar-fogo para o que Trump chamou de “guerra dos 12 dias” foi negociado com a ajuda do primeiro-ministro do Catar, depois de o Irão ter lançado ataques limitados contra uma base aérea dos EUA na região. Apesar do acordo, as tensões continuam altas, já que um alto funcionário israelita disse à Fox News que o Irão disparou mísseis adicionais contra Israel, com mais mísseis potencialmente a caminho.

“Infelizmente, os iranianos decidiram continuar a disparar contra Israel. Agora teremos que retaliar, isso acontecerá, é claro. Pode acabar em poucas horas, mas eles [os iranianos] precisam tomar uma decisão.”

Seja como for, a acusação de Donald Trump aos líderes israelitas e iranianos, de que não sabem o que estão a fazer, não deixa de ser dúbia, porque ele próprio será, provavelmente, o líder que mais pobre consciência terá sobre as suas acções.

Porque se tivesse um mínimo de lucidez não se tinha enfiado neste pesadelo nem tinha bombardeado o Irão (desastrosamente e para consequência nenhuma) nem apoiado o ataque de Israel, nem permitido o genocídio em Gaza.

Já para não falar na sua também catastrófica – e igualmente inútil – interferência na guerra da Ucrânia.

 

Trump posiciona-se contra o “caos” de uma mudança de regime no Irão.

Donald Trump afirmou também na terça-feira que não deseja uma “mudança de regime” no Irão, após um fim de semana de acções militares contra instalações nucleares iranianas e subsequentes negociações de cessar-fogo. Quando questionado a bordo do Air Force One se a mudança de regime no Irão era um objetivo, Trump respondeu:

“Não. Eu não quero isso”.

O presidente destacou o potencial de reconstrução do Irão, dizendo:

“A mudança de regime traz caos e, idealmente, não queremos ver tanto caos… Os iranianos são muito bons comerciantes, muito bons empresários e têm muito petróleo. Eles devem ficar bem. Eles devem ser capazes de se reconstruir e fazer um bom trabalho. Eles nunca terão armas nucleares, mas, fora isso, devem fazer um ótimo trabalho”.

 


Isto depois de, na segunda-feira, ter afirmado, no Truth Social, exactamente o contrário:

“Não é politicamente correcto usar o termo ‘mudança de regime’, mas se o actual regime iraniano é incapaz de TORNAR O IRÃO GRANDE NOVAMENTE, por que não uma mudança de regime?”

 

 

Ainda assim, os comentários públicos de Trump contra a mudança de regime em Teerão talvez sirvam para tranquilizar os mais proeminentes activistas anti-guerra da coligação America First, pelo menos por enquanto e tanto quanto é possível, nesta altura do campeonato, acreditar numa frase que seja dita pelo inquilino da Casa Branca.

 

Enquanto viola o acordo, Netanyahu diz que concorda em parar os ataques.

O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu respondeu às críticas do presidente Donald J. Trump às forças israelitas por lançarem um ataque massivo ao Irão pouco antes da entrada em vigor do cessar-fogo, resultando em violações subsequentes por ambas as partes.

De acordo com um comunicado do gabinete de Netanyahu, a Força Aérea Israelita “atacou com força o centro de Teerão, atingiu alvos do regime e eliminou centenas de membros das forças de segurança iranianas e da Basij” às 03h00, poucas horas antes do início do cessar-fogo previsto para as 07h00.

“Pouco antes da entrada em vigor do cessar-fogo, o Irão lançou uma série de mísseis, um dos quais tirou a vida a quatro dos nossos cidadãos em Be’er Sheva», continua o comunicado, afirmando que seis minutos após a entrada em vigor do cessar-fogo às 7h00, “o Irão lançou um míssil contra o território israelita e dois mísseis adicionais às 10h25”.

Apesar de reconhecer que os mísseis “foram interceptados ou caíram em áreas abertas, não causando vítimas nem danos”, o comunicado israelita defende os ataques subsequentes ao Irão como uma resposta às “violações” da República Islâmica.

Apesar de defender os seus ataques antes do cessar-fogo entrar oficialmente em vigor, o gabinete de Netanyahu reconheceu que, “de acordo com a conversa entre o presidente Trump e o primeiro-ministro Netanyahu, Israel absteve-se de realizar ataques adicionais”.

A declaração israelita acrescentou que,

“na conversa, o presidente Trump expressou o seu grande apreço por Israel, que alcançou todos os seus objectivos de guerra, bem como a sua confiança na estabilidade do cessar-fogo”.

Resta-nos esperar que o primeiro-ministro israelita cumpra com este compromisso. Sendo certo que a questão do urânio enriquecido iraniano e da sua infraestrutura nuclear ficou longe de ser resolvida.