As minhas posições têm sido sempre claras relativamente ao conflito Rússia-Ucrânia, entendendo que se tem de prosseguir na busca de uma solução de paz através de um processo negocial, naturalmente complexo. Todavia, nas actuais circunstâncias, a guerra de atrito em curso e que vai agravar-se, sobretudo com a próxima ofensiva russa prevista para o Verão e, atenta a situação no terreno, francamente desvantajosa para Kiev, a continuação do conflito e o fracasso rotundo da diplomacia, estamos perante uma derrota estratégica do Ocidente, designadamente dos europeus, porque os americanos estão, muito claramente a sacudir a água do capote e, outrossim, interessados noutras latitudes e noutros conflitos, máxime no Médio Oriente e no Indo-Pacífico. Em rigor, os EUA parecem claramente estar a desvencilhar-se das responsabilidades.

Na minha leitura, nesta guerra não há inocentes e todos são culpados. Condenei, veementemente, logo, na primeira hora, Putin pela invasão, por razões deontológicas e jurídicas, enumerando-as, uma a uma. Publiquei o que sabia e havia reflectido em jornais on-line e nas redes sociais textos, apresentando argumentos nesse sentido, que se podem consultar para quem estiver interessado.

Todavia, em Março-Abril de 2022, ainda na fase inicial da guerra, vi que existia uma janela de oportunidade com o encetar de um processo negocial que poderia conduzir à paz e que foi deliberadamente afundado pelos ocidentais (a começar por Boris Johnson, Biden, Macron, et alia) pretendendo-se a prossecução da guerra, a todo o custo,  com o objectivo de enfraquecer a Rússia.

Tudo isso é já história, como história são também todas as causas da guerra, em que o Ocidente e o regime de Kiev tiveram grandes culpas no cartório (desde o desrespeito dos acordos na sequência da queda da URSS, ao golpe de Estado da praça Maidan, em 2014; à guerra no Donbass, às perseguições à minoria russófona, ao incumprimento de Minsk I e Minsk II, etc., etc.).

Todos os grandes especialistas em relações internacionais, que primam pelo realismo pragmático e de diferentes orientações políticas – nos Estados Unidos; John Mearsheimer (Univ. Chicago), Jeffrey Sachs (Univ. Colúmbia), Andrew J. Bacevich (Univ. Boston), Chris Hedges (prémio Pulitzer), Richard Hass  (Council on Foreign Relations), David Shimer (historiador), Noam Chomsky (professor e activista político); em França, Jean-Luc Mélenchon (líder da France Insoumise – esquerda),  Pierre Levy (filósofo); na Alemanha, os subscritores da Carta aberta pacifista (abril-maio de 2022) e o Manifest für Frieden (fev./mar. 2023); no Reino Unido, Mark Almond (Univ. de Keele) – defenderam o princípio de negociações e um cessar-fogo, mas ninguém os ouviu, ouve ou quer ouvir.

 

O balanço da guerra

A guerra, ou o que lhe quiserem chamar com ou sem eufemismos, arrasta-se sem solução à vista há mais de 3 anos. As estimativas consistentes apontam para vítimas militares e civis em larga escala, com um expressivo número de mortes militares, elevando-se a um total acumulado de mais de um milhão de baixas militares e civis desde 2022 (há quem coloque a fasquia bem mais alto, ou seja, acima dos 1,5 milhões, sem falar de 6,9 milhões de refugiados fora da Ucrânia; de 3,7 milhões de deslocados internos, em suma, estima-se que  10,6 milhões de ucranianos, de uma forma ou de outra, foram transferidos pela guerra). Contudo, existem discrepâncias significativas entre fontes oficiais e independentes, o que reforça a dificuldade de validação em tempo real.

Se na fase inicial da guerra, as baixas russas superavam as baixas ucranianas, hoje, aparentemente, a situação ter-se-á invertido, segundo alguns especialistas militares.

 

A Economia de guerra

A situação não é brilhante para nenhum dos beligerantes em liça.

Apesar das 18 sanções impostas pela UE cujo impacto foi muito mitigado, uma vez que a Rússia, devido à economia de guerra, cresceu 4,1% em 2024 (dados do FMI). Entretanto, o panorama mudou.

Quanto ao impacto real das sanções, estas provocaram contracções em sectores específicos, subida da  inflação, restrições financeiras e fuga de investimento internacional. Contudo, Moscovo evitou um colapso económico total graças a estratégias de evasão: frota sombra, importações paralelas, sistemas financeiros alternativos e realinhamento geopolítico.

O Ocidente pensou ingénua e erradamente que o suposto garrote de penalizações iria conduzir a Federação Russa a uma subordinação financeira à City de Londres e a Wall Street. Nada disto aconteceu

Mas, no momento actual, existem alterações conjunturais que levam a um menor optimismo. Com efeito, o ministro da Economia, Maxim Reshetnikov, afirmou, recentemente,  no Fórum Económico de São Petersburgo que o país está “à beira de entrar em recessão”. Destacou o arrefecimento nos indicadores de negócios, inflação persistente e elevado endividamento fiscal como sinais preocupantes, acrescentando que o destino da economia depende agora das decisões de política económica que o governo tomar .

O crescimento do PIB abrandou bruscamente no 1.º trimestre de 2025, situando‑se entre 1,4 % e 1,7 %, o nível mais baixo em dois anos .A inflação mantém‑se elevada — cerca de 9–10 %, muito acima da meta do banco central (~4 %) . Os juros estão em níveis recorde — cerca de 20 %, após subirem para 21 % em outubro de 2024 — para controlar a inflação, mas isso está a asfixiar os sectores civis e a dar origem a sinais de estagflação. A Rússia está efectivamente muito próxima de uma recessão ou queda numa fase de estagnação prolongada.

Por seu turno, a Ucrânia enfrenta um cenário económico desafiador em 2025, com crescimento modesto (entre 2 a 3,3%), inflação elevada (9 a 10%) e a enorme dependência de ajuda externa. A resiliência do setor privado e o apoio internacional são cruciais, mas a continuidade da guerra e as incertezas globais representam riscos significativos. A reconstrução e a integração com a UE são para Kiev prioridades de longo prazo, mas exigem estabilidade e reformas estruturais, o que, neste momento, está longe de acontecer.

Em resumo, a  capacidade de resiliência, em termos económicos, da Rússia e da Ucrânia é diferente, uma vez  que aquela dispõe de nítidas vantagens: uma economia baseada nos hidrocrabonetos que continuam a vender-se a quem os quiser comprar, directamente ou por portas e travessas.

 

A Guerra de Atrição: A Estratégia Russa de Vencer pelo Tempo

Recentemente, uma figura de alto escalão do Kremlin (não me recordo exactamente qual), ao ser questionada sobre a duração do conflito na Ucrânia, respondeu evocando um exemplo histórico: a Grande Guerra do Norte, entre a Suécia e a Rússia, que durou 21 anos (1700–1721) e envolveu potências como a Dinamarca-Noruega, Saxónia e a Comunidade Polaco-Lituana, ao tempo de Pedro o Grande. A mensagem implícita era clara: para a Rússia, o tempo não é um factor limitativo – é um recurso estratégico.

Trata-se, pois, de vencer pelo tempo e não pelo espaço.

Assim, a  visão russa da guerra vai além da política. Para Moscovo, o conflito é uma expressão prolongada da história, da geografia e da resiliência coletiva. O objetivo na Ucrânia não é a conquista territorial rápida, mas o desgaste continuado do inimigo e do sistema de apoio que o sustenta. A Rússia não quer apenas terra; quer enfraquecer a capacidade ocidental de manter um esforço de guerra prolongado.

Essa abordagem encontra eco em Aleksandr Svechin, teórico militar soviético de 1927, que distinguia entre “guerra de aniquilação” e “guerra de exaustão”. Diante de um adversário superior em tecnologia e recursos – como a NATO – a Rússia opta por forçar o inimigo a lutar num contexto onde o tempo e o atrito jogam contra ele.

Frequentemente mal compreendido, a chamada  doutrina ou “Modelo Gerasimov” combina instrumentos convencionais e não convencionais – operações militares, desinformação, sabotagem energética e guerra psicológica. O seu objetivo não é vencer com força bruta, mas desorganizar e paralisar o inimigo, desgastando a sua vontade de lutar.

A ofensiva russa é intermitente, ambígua e assimétrica, tornando o campo de batalha um pântano estratégico, onde não há avanços decisivos, apenas desgaste cumulativo.

Campanhas como Bakhmut ou as “Linhas Surovikin” – defesas fortificadas, profundas e altamente minadas – ilustram essa estratégia: obrigar a Ucrânia a consumir homens, tempo e munições por cada metro conquistado. Não se trata apenas de defender, mas de transformar cada avanço inimigo numa derrota disfarçada.

É uma reinterpretação moderna da doutrina da defesa em profundidade, herdada da Segunda Guerra Mundial.

 

Mas o alvo real de Moscovo é quebrar a coesão Ocidental

Mais do que vencer no terreno, Moscovo quer fragilizar a Europa como força geopolítica coesa. Ao prolongar o conflito, a Rússia:

  • Desvia orçamentos europeus para a defesa;
  • Exacerba divisões políticas internas;
  • Pressiona cadeias logísticas e energéticas;
  • Expõe a dependência estratégica europeia dos EUA.

Esta é uma “guerra total parcial”: mobiliza o suficiente para manter o inimigo permanentemente sob tensão, sem se esgotar por completo. O teatro de operações estende-se de Kharkiv a Bruxelas, com ataques cibernéticos, sabotagem, guerra informativa e apoio a movimentos desestabilizadores.

Diferentemente do Ocidente, que privilegia manobras rápidas e tecnologia, a estratégia russa abraça a fricção e o desgaste. O tempo, não a velocidade, é a sua principal arma. As linhas defensivas não são sinais de fraqueza – são trampolins estratégicos.

A lógica é clara: não é necessário vencer rapidamente – basta tornar impossível a vitória do adversário.

Para o Kremlin, a vitória não se mede em conquistas territoriais, mas em impor ao inimigo um custo insustentável, esgotando a sua vontade política, recursos logísticos e coesão social. Como sintetizou um general russo:

“Esta não é uma guerra de choque. É uma guerra de tempo. E o tempo está do nosso lado.”

 

O desejável fim da guerra: do realismo pragmático ao problema moral e jurídico. A Lógica da Força e o Imperativo da Responsabilidade.

Recorro a uma experiência pessoal vivida durante a guerra civil na Guiné-Bissau (de 7 de junho de 1998 a 7 de maio de 1999), da qual fui não apenas testemunha, mas também interveniente, tendo posteriormente registado esse percurso num livro. Permito-me citar uma passagem da obra:

“Lembro-me que uns dias antes de Abuja [ou seja, o acordo subscrito entre o presidente “Nino” Vieira e a Junta Militar, sob os auspícios da CEDEAO, que mais não era senão um quadro frágil e mal delineado em prol de uma paz possível] , mais precisamente em 21 de Outubro de 1998, num dos muitos encontros que com ele mantive, o Presidente da República tentou, por várias vezes, invocar o facto de ser o “Presidente eleito e legítimo” da Guiné-Bissau. Tive de lhe responder de uma forma muito directa, talvez com uma franqueza brutal: “O Senhor Presidente pode ter a legitimidade, mas eles têm a força. A equação é simples.”1

Assisti durante todo o conflito às posições das partes em liça. Assim,

“os beligerantes, indiferentes ao sofrimento das populações, continuavam nos seus labores de guerra sem se importarem muito, ou, mesmo, nada, com o drama humano que tinham entre mãos.”2

Em suma, a tragédia, aparentemente, não lhes dizia respeito

Este cenário permite refletir sobre três dimensões essenciais do conflito — que, com as devidas diferenças, também se aplicam à guerra na Ucrânia:

  1. A dimensão jurídica: No caso ucraniano, estamos perante uma invasão que viola flagrantemente o direito internacional. Na Guiné-Bissau, tratou-se de uma tentativa de golpe contra um governo legítimo. Em ambos os casos, as razões de um dos lados encontram respaldo jurídico.
  2. A dimensão ética: Tanto a invasão da Ucrânia quanto a insurgência na Guiné-Bissau são moralmente condenáveis à luz dos princípios e valores que devem orientar a convivência internacional e o respeito pelos povos.
  3. A dimensão pragmática: Independentemente da legitimidade invocada, é imperativo encontrar uma solução realista, pragmática e eficaz para pôr fim ao conflito, travando a escalada de morte e destruição. Isto aplica-se tanto à Ucrânia como à Guiné-Bissau.

A primeira obrigação de qualquer dirigente é para com o seu povo e o seu país. Mesmo quando lhe assiste toda a razão — legal e moral —, um dirigente político não pode, em consciência, arrastar o seu povo para o abismo da guerra indefinidamente. Se não detém vantagens tangíveis no terreno, persistir na recusa em negociar não é apenas imprudente — é irresponsável, quando não criminoso.

Mais grave ainda é quando os actores externos pressionam ou condicionam essa decisão soberana. Nenhuma potência estrangeira tem o direito de impedir que um país, em nome da sua sobrevivência, procure uma saída negociada. Contudo, tanto na Guiné-Bissau como na Ucrânia, isso foi ignorado — com consequências devastadoras.

 

Conclusão:

Ainda não é amplamente reconhecida a estratégia russa de guerra de desgaste, caracterizada por obter ganhos pequenos e contínuos ao longo do tempo. Actualmente, há uma avaliação de que Kiev e os países ocidentais podem estar cometendo um erro significativo ao continuar sacrificando vidas, recursos materiais e financeiros, quando uma solução negociada para o conflito poderia ser buscada. Além disso, nota-se uma percepção de falta de visão e pragmatismo por parte dos líderes europeus, que, de maneira particularmente preocupante, parecem não demonstrar preocupações humanitárias adequadas.

 

 

FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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1Crónicas dos (des)feitos da Guiné’, Almedina, Coimbra, 2012,  – p. 353
2 Op. cit., p. 375.
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
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