João Almeida venceu ontem a Volta à Suíça. Isto assim a seco pode não dizer muito, mas depois de já ter ganho este ano a Volta à Romandia e a Volta ao País Basco, é agora um de apenas três atletas na história do ciclismo profissional (uma linha temporal de mais de 60 anos) que ganharam na mesma temporada três das sete voltas de uma semana do circuito de elites (até agora só o tinham conseguido Sean Kelly e Bradley Wiggins, ambos lendários atletas da modalidade, com vitórias na Vuelta e no Tour, respectivamente). E ninguém conseguiu fazer melhor que isso, nunca.
O ciclista de A-dos-Francos venceu três etapas desta montanhosa e difícil prova, incluindo a última, uma crono-escalada extremamente exigente, em que deu uma abada brutal a toda concorrência. Acresce que na primeira das oito etapas desta volta alpina a sua equipa adormeceu em serviço, deixando que uma fuga carregada de excelentes ciclistas ganhasse mais de três minutos de vantagem, e perdendo mais de um minuto para directos concorrentes do João na classificação geral, como por exemplo Ben O’Connor, que ainda no ano passado foi segundo na Vuelta.
O português foi paulatinamente reduzindo essa desvantagem com exibições incríveis na terceira, na quarta, na sexta, na sétima e na oitava etapas (somando três vitórias e um segundo lugar), dominando completa e eloquentemente a competição. De tal forma que, apesar da desvantagem inicial, sobrou-lhe no fim das contas ainda um minuto de vantagem sobre o segundo classificado e dois minutos sobre o terceiro.
João Almeida é agora, claramente, o segundo atleta do melhor plantel ciclista do mundo – a UAE – e parte para o Tour de France com a missão de ajudar Pogacar a conquistar mais um título (será o quarto), sem perder de vista um posição no pódio, já que no ano transacto, em que não se encontrava neste transcendente pico de forma, fez quarto.
O atleta português, que eu sinceramente nem sei se está a ter a projecção mediática que merece, nesta altura do campeonato, é agora um dos cinco mais fortes ciclistas do circuito internacional, está a ser treinado pelo mesmo técnico que toma conta de Pogacar e parece ter encontrado o seu ideal registo performativo. Com 26 anos, tem ainda à sua frente mais seis ou sete de apogeu atlético.
Se a UAE continuar a investir nele como aparentemente está a fazer, João Almeida pode perfeitamente cumprir uma carreira que transcenda até a de Joaquim Agostinho, mantendo o nível performativo que tem apresentado até aqui e principalmente neste ano de 2025.
Mais: se entretanto uma outra equipa de topo – como a INEOS ou a Bora ou a Bahrain – puxar da carteira para o contratar (o ciclista tem contrato com a UAE até 2027, altura em que terá apenas 28 anos), não sei até que ponto não poderá sonhar com títulos nas grandes voltas em que, por uma razão ou por outra, Pogacar não participar ou em que não estiver ao seu melhor nível. Até porque o João já mostrou que aquele que é considerado o segundo melhor voltista mundial, Jonas Vingegaard, pode estar ao alcance do seu pedal.
Nos dois últimos anos, o português melhorou em tudo aquilo em que já era bom: na montanha, no contra-relógio e no sprint. E melhorou também, ainda que estas continuem a ser fragilidades no seu portfólio de virtudes, no posicionamento e na capacidade de explosão.
Seja como for, e para aqueles que são adeptos da modalidade, dá gosto ver o João correr. Porque sabe sofrer como ninguém, porque tem aquele jeito, sempre emocionante, de surgir de trás para a frente nos momentos decisivos, e porque tem uma alma competitiva que nunca mais acaba, mesmo que o motor funcione, a mais das vezes, alimentado a gasóleo.
É muito provável que nos dê muitas alegrias, daqui para a frente, sem prejuízo das que já nos deu até aqui. E que não foram poucas.
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