Um problema antigo com roupa moderna.
A suposta oposição entre determinismo e livre-arbítrio tem sido apresentada como um campo de batalha, quando talvez seja apenas um palco de marionetes: de um lado, os titereiros iluministas e seus herdeiros progressistas; do outro, a figura quase sempre caricaturada do homem religioso, agarrado a uma liberdade sem âncoras. Mas será verossímil que a tradição filosófica sustente esse dualismo raso? Ou fomos enganados por uma falsa premissa, como se estivéssemos debatendo se a alma tem peso, enquanto ignoramos que ela não ocupa espaço?
Há aqui um truque: forjar uma oposição, onde pode haver complementaridade.
Os acusadores do livre-arbítrio.
Deterministas de todas as escolas, uni-vos…
O determinismo se apresenta com um verniz científico e histórico que o faz parecer irresistível aos olhos do moderno: desde os estoicos, passando pelo calvinismo reformado, até chegar ao positivismo de Auguste Comte, ao behaviorismo de Skinner, à psicanálise freudiana e ao neurodeterminismo contemporâneo, o argumento central é que todo ato humano é consequência direta de causas anteriores – físicas, biológicas, sociais ou psíquicas. Não há escolha verdadeira, apenas o desdobrar inevitável de uma cadeia causal.
Os pontos fortes do determinismo:
- Observabilidade: parece se ajustar bem à experiência empírica – há traumas, hábitos, condicionamentos que modelam comportamentos.
- Consistência lógica: dentro de um sistema fechado, o determinismo não se contradiz. É redondo como uma bola de bilhar.
- Explicação de padrões: o comportamento humano pode, em alguma medida, ser previsto.
Mas, eis os calcanhares de Aquiles:
- Contradição performativa: se ninguém é livre, então nem o próprio determinista pode afirmar que escolheu acreditar no determinismo – ele está apenas repetindo um script.
- Anulação da responsabilidade moral: se tudo está determinado, então Hitler foi só uma engrenagem. Deste modo, perdoaremos o diabo por ser previsível?
Os defensores da liberdade humana.
Dos padres aos pensadores
O livre-arbítrio tem em seus defensores a flor do pensamento clássico. Santo Agostinho, Boécio, Tomás de Aquino, Descartes, Kant e até C.S. Lewis defendem a ideia de que o homem, embora influenciado por forças internas e externas, pode decidir – e, sobretudo, é responsável por suas decisões.
Pontos fortes do livre-arbítrio:
- Fundamento da moralidade: sem liberdade, não há mérito, nem culpa, nem justiça.
- Experiência imediata: sentimos que escolhemos. Esse dado fenomenológico é mais real que mil teorias.
- Viabilidade da conversão: na tradição cristã, ninguém é irremediável — o pecador pode se levantar. Isso pressupõe liberdade.
E as fragilidades:
- O problema da influência: como distinguir escolha de condicionamento?
- O mistério do mal: por que alguém, sendo livre, escolhe o mal? Isso não comprometeria a racionalidade da liberdade?
A falsa dicotomia e o oportunismo filosófico.
Agora, ao que interessa: temos uma tese não apenas válida, como necessária. O que aqui tratamos não é um embate real, mas uma encenação moderna, alimentada por ideólogos que desejam abolir a responsabilidade, relativizar o pecado, e destruir o juízo moral objetivo.
A grande tradição nunca excluiu a presença de fatores determinantes na vida humana – seja o temperamento (como diria Aristóteles), seja o pecado original (como ensinaram os Padres), seja a estrutura social. Mas essa tradição sempre afirmou, com solenidade e firmeza, que o homem possui razão e vontade livre, ainda que ferida.
O que o progressista faz é o seguinte: explora a realidade do condicionamento para negar a liberdade. E isso não é filosofia, é engenharia social disfarçada de pensamento.
Afirmo: nós temos o livre-arbítrio, mas ele opera dentro de um cenário condicionado, assim como o piloto governa o leme dentro do mar agitado. Não podemos controlar o mar – mas decidimos se enfrentamos a tempestade ou nos entregamos à deriva. Isso não é contradição. Isso é o drama da vida humana.
E se há drama, há escolha. E se há escolha, há juízo. E se há juízo… cuidado, progressista.
Conclusão: o homem entre o céu e a terra.
O debate entre determinismo e livre-arbítrio não passa de uma armadilha intelectual, uma cilada inventada para solapar a doutrina da liberdade responsável. O conservador, com os pés fincados na terra e os olhos voltados para o alto, sabe que a vida não é fruto do acaso nem escrava do destino – mas campo de batalha, onde o livre-arbítrio, mesmo limitado, é a espada com que lutamos.
Negar isso é negar o heroísmo, preferindo a gaiola dourada do cientificismo à cruz gloriosa da liberdade.
E como dizia Agostinho:
“Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti.”
WALTER BIANCARDINE
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Walter Biancardine foi aluno de Olavo de Carvalho, é analista político, jornalista (Diário Cabofriense, Rede Lagos TV, Rádio Ondas Fm) e blogger; foi funcionário da OEA – Organização dos Estados Americanos.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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