Pavel Durov foi pela segunda vez entrevistado por Tucker Carlson e se a primeira conversa já tinha sido deveras esclarecedora sobre o ponto crítico em que está a liberdade de expressão no Ocidente, este segundo diálogo deixou até Tucker com o queixo no chão. Porque esta não é apenas uma história sobre o Telegram. É um alerta sobre os poderes ocultos que estão a lapidar o livre discurso, a livre iniciativa e a privacidade dos cidadãos.

O fundador do Telegram, Pavel Durov, continua retido em França, de onde não pode sair, tendo sido preso por crimes que não cometeu, alegadamente cometidos por utilizadores da sua plataforma.

Quando aterrou em Paris em Agosto passado, ele não esperava ser preso. Mas foi exactamente isso que aconteceu. O fundador do Telegram foi detido pela polícia alfandegária francesa e colocado em confinamento solitário sem qualquer explicação. Durov disse que as condições eram terríveis, a cama da exígua cela não tinha lençóis nem uma almofada e a luz era intermitente.

“Passei quatro dias sob custódia policial, no prédio ao sul de Paris que acho que é administrado pelos policiais da alfândega. (…) Era um quarto de 7 metros quadrados, sem janelas, com paredes de concreto, uma cama estreita, sem lençóis, sem almofada, um colchão fino, como um tapete de ioga, talvez de um centímetro, meia polegada.”

Uma luz piscava constantemente no tecto, “O que era um pouco irritante.”

 

 

À medida que os dias se arrastavam, a grande questão que intrigava Durov era esta: por que raio tinha sido preso?

Carlson perguntou-lhe isso directamente.

“Por que foi detido contra a sua vontade pelo governo francês? Nos primeiros quatro dias, eles deixaram isso claro?”

Durov disse que lhe disseram que tinha algo a ver com uma alegada falha do Telegram em responder a solicitações legais da França.

“Então, entendi que eles estavam preocupados com a suposta falta de resposta do Telegram às solicitações judiciais vindas da França.”

Mas o bilionário da tecnologia insiste que a acusação assentava sobre falsos pressupostos:

“O que acabou por não ser verdade, porque nunca recebemos um único pedido legalmente vinculativo proveniente da França.”

Confuso, ele pressionou as autoridades francesas sobre o motivo pelo qual não tinham seguido os canais legais adequados.

“Perguntei ao polícia francês: por que não seguiram a lei europeia e não cumpriram os vossos pedidos legais da forma prescrita por esta lei? Não responderam.” 

Até porque, de acordo com Durov, o Telegram não estava a resistir à cooperação:

“Isso era algo que já tínhamos em vigor há um ano, então não é nada que os franceses nos obrigaram a fazer, é algo que já tínhamos em vigor. De alguma forma, os franceses ignoraram isso completamente.”

 

 

Durov já não está numa cela, mas ainda está retido em França – impedido de deixar o país sob uma restrição legal conhecida como «controlo judicial». Carlson inquiriu sobre esse mandado:

“Há essa limitação aos meus movimentos, à minha capacidade de viajar, por assim dizer, que é chamada de controlo judicial. (…) Controlo judicial é quando não se pode sair do país livremente porque ainda há uma investigação em andamento e tu és um dos suspeitos ou o suspeito.”

A parte estranha? Ele não está realmente a ser interrogado — pelo menos não regularmente.

“Sou obrigado a responder a algumas perguntas relacionadas com o Telegram a cada 4, 5 meses. Nos outros 3 ou 4 meses, só tenho que ficar aqui por motivos que são muito difíceis de entender.”

Seja qual for o caso que o governo francês achava que tinha, o processo arrasta-se sem uma resolução clara — e sem transparência. Em vez disso, parece mais um processo jurídico politizado e usado como arma contra o homem que dirige uma plataforma pró-privacidade e pró-liberdade de expressão, que está além do controle do governo globalista francês..

 

 

Isso levou Carlson a insistir nm na questão central: de que crime, exactamente, é acusado Durov?

“Apesar das manchetes que inundaram o mundo em Agosto, não estás envolvido em pornografia infantil, venda de drogas, crime organizado, venda de armas… Nem me consigo lembrar bem, mas eram os piores crimes do mundo. Ninguém está realmente a alegar que estás envolvido nesses crimes, certo?”

Durov anuiu.

“Então, qual é a verdadeira acusação? Que alguém usou o Telegram para actividades ilegais e tu não percebeste a tempo?”

O entrevistado anuiu novamente e Carlson fez a pergunta óbvia:

“Então, por que é que ainda aqui estás?”

Durov não tinha uma resposta concreta:

“Hmmm… Ainda estou a tentar descobrir, para ser sincero. Ainda estou confuso. Primeiro, eles disseram: ‘Oh, você não respondeu às nossas solicitações legais e é por isso que é cúmplice’. Em primeiro lugar, não é verdade que não respondemos a solicitações legais vinculativas. Em segundo lugar, é uma interpretação muito ampla de cumplicidade. Mesmo para o sistema jurídico e judicial francês. O que ouvi dos meus advogados é que isto é algo sem precedentes.”

O fundador de uma plataforma com mil milhões de utilizadores foi detido por tempo indeterminado, porque alguém, algures, pode ter usado a aplicação para algo ilegal.

 

 

Mas o que Durov revelou a seguir ampliou ainda mais o cenário sombrio.

O que aconteceu em França, disse ele, faz parte de um padrão mais amplo: governos a explorar os sistemas jurídicos para enfraquecer as protecções de privacidade, e isso é ainda mais extremo nos Estados Unidos.

“Sabe o que é interessante? Nos EUA, existe um processo que permite ao governo obrigar qualquer engenheiro de qualquer empresa de tecnologia a implementar uma backdoor e não contar a ninguém sobre isso. Usando esse processo chamado ordem de silêncio [gag order], existem certos procedimentos legais nesse sentido.”

Carlson ficou visivelmente chocado.

“Não contar ao seu próprio empregador sobre isso?”

“Sim, exactamente. Se contar ao seu próprio chefe, pode acabar na prisão. Tipo, ordem de silêncio.”

O entrevistador não queria acreditar.

“A sério?! (…) Então os teus funcionários têm a obrigação legal de agir como espiões da quinta coluna? Sabotadores contra ti, os teus funcionários?”

Durov não hesitou.

“Sim. Essa é uma das razões pelas quais não me mudei para os EUA com a minha equipa.”

Para Durov, não se trata apenas de uma batalha legal, mas de uma séria advertência. O que aconteceu com ele pode acontecer com qualquer pessoa que desenvolva tecnologia que valorize a privacidade em detrimento do poder.

A França pode ter dado o pontapé inicial, mas a verdadeira luta, segundo ele, é global.

 

 

Vale a pena ver o podcast na sua completude.