Considerado o maior poeta escocês, Robert Burns (1759-1796) escrevia poemas no dialecto nacional, muitas vezes temperados pelo humor, mas sempre marcados por uma métrica musical, abordando temas idílicos e patrióticos. Escreveu extensos poemas tanto como centenas de breves canções e a sua utilização de formas dialectais trouxe frescura sonora e rítmica à poesia anglosaxónica, que ultrapassou as fronteiras de um aparente regionalismo. À semelhança de Chaucer e Byron, Burns utilizou com mestria a cadência da oralidade, escrevendo frequentemente em função de uma velha melodia e para ela procurando o léxico adequado.
Neste sentido, a variação que propomos é mais focada no ritmo do que na literalidade, procurando verter para português a canção, mais do que o poema. Por esta liberdade, que nos perdoem os escoceses, e que Robert Burns permaneça tranquilo, no seu túmulo de poeta imortal.
Original
A RED, RED ROSE
O my Luve is like a red, red rose
That’s newly sprung in June;
O my Luve is like the melody
That’s sweetly played in tune.So fair art thou, my bonnie lass,
So deep in luve am I;
And I will luve thee still, my dear,
Till a’ the seas gang dry.Till a’ the seas gang dry, my dear,
And the rocks melt wi’ the sun;
I will love thee still, my dear,
While the sands o’ life shall run.And fare thee weel, my only luve!
And fare thee weel awhile!
And I will come again, my luve,
Though it were ten thousand mile.
Versão do Contra
VERMELHA ROSA RUBRA
Ah, o meu amor é rosa vermelha
Em Junho rubra e despontada;
Ah, o meu amor é melodia
Que soa doce e afinada.Como tu és bela, minha linda,
Sou eu namorado veterano;
Hei-de amar-te, querida,
Até que seque o oceano.Até que seque o oceano
E o sol derreta as rochas, querida,
Hei-de amar-te ainda
p’lo correr das areias da vida.Adeus, adeus, meu raro amor!
E adeus por tempo certo!
Que eu voltarei, meu amor,
Mesmo que nos separe o deserto.
___________
Mais Variações do Contra:
A repetida recomendação de Charles Baudelaire, em português de tasca.
Elisabeth Bishop perde coisas e pessoas numa língua alienígena.
Li Bai e a poesia intraduzível.
O bardo era um compositor pop.
Blake, Byron, o Tigre e a Lua, ou dois poemas na língua de Camões.
A Carga da Brigada Ligeira, em versão livre.
Joana Trama ou uma variação de Billie Jean.
Relacionados
7 Jul 26
Tucídides e a Realpolitik.
A Universidade de Michael Sugrue #02: uma prelecção sobre o iniciático realismo de Tucídides, na "História da Guerra do Peloponeso".
6 Jun 26
A rainha das teorias da conspiração: Será Francis Bacon o verdadeiro autor da obra de Shakespeare?
A questão da autoria da obra de William Shakespeare tem intrigado estudiosos durante os últimos três séculos. E a tese de que terá sido Sir Francis Bacon o autor do legado primeiro da literatura de língua inglesa tem sólidos argumentos a seu favor. Um ensaio que os sistematiza.
8 Mar 26
Lobo Antunes morreu, mas vive no espelho da alma do país que deixou.
Com a morte de António Lobo Antunes, Portugal perde mais do que um escritor. Portugal perde o seu mais arguto intérprete. E a sua obra permanece como um aviso: a memória não se apaga e recalcamento não é solução. Uma elegia de António Justo.
16 Fev 26
Os Nus e os Mortos, de Norman Mailer: a desumanidade e a vulnerabilidade do homem-soldado.
Biblioteca do Contra: retrato graficamente contundente e perturbador da situação do homem comum quando submetido aos rigores do combate militar, este é o romance que pôs a América a pensar duas vezes sobre o entusiasmo com que entregava os seus filhos aos horrores da guerra.
7 Fev 26
Antes e depois da Ilíada:
a tragédia de Agamemnon
A figura mítica de Agamemnon chegou até nós principalmente através da tradição homérica. Mas para além da epopeia, há uma tragédia inerente ao Rei dos Aqueus, que o liberta da condição de vilão unidimensional e que explica muito do seu comportamento na Guerra de Troia.
8 Dez 25
Cândido no melhor dos mundos ou o erro de Voltaire.
A odisseia de Cândido tenta demonstrar que a realidade está longe de constituir um ideal arquitectado pela providência divina. Mas o que sabemos hoje sobre o cosmos favorece mais a filosofia de Leibniz do que a prosápia de Voltaire.






