O recente embate entre Irã e Israel não é apenas mais um capítulo do conflito no Oriente Médio — é a exibição crua de uma engrenagem geopolítica onde a guerra é tanto instrumento quanto fim. Netanyahu e os aiatolás não estão apenas em lados opostos de um tabuleiro; são, a seu modo, cúmplices de uma lógica que transforma a ameaça existencial em ativo político permanente.

Durante algum tempo, a dupla Trump-Netanyahu encenou uma variação de “policial bom e policial mau” com o regime iraniano. Funcionou, até certo ponto. Mas agora, o premiê israelense recorre a uma tática mais primitiva: a guerra como método de sobrevivência política.

A ofensiva contra o Irã, ainda que pontual, não visa resolver nada — e Netanyahu sabe disso. Seu objetivo é prolongar a tensão indefinidamente. O inimigo externo é a desculpa perfeita para silenciar dissidências internas, justificar o expansionismo militar e blindar sua coalizão cada vez mais extremada. O Irã, por sua vez, também precisa do confronto. Um regime desacreditado, economicamente falido e moralmente corroído precisa manter vivo o fantasma sionista para legitimar sua repressão.

No fundo, Israel e Irã são reféns de suas próprias narrativas — e beneficiários delas. O conflito é necessário para que Netanyahu siga como “guardião da nação” e para que os aiatolás mantenham o controle sobre um povo exausto. A paz seria um risco, não uma solução.

Eis a verdade incômoda: o Oriente Médio não vive em guerra porque não há solução — vive em guerra porque a guerra é útil. Ela sustenta contratos, alimenta carreiras diplomáticas, lubrifica think tanks, alinha interesses entre oligarquias em Washington, Tel Aviv, Bruxelas e Doha. É um ecossistema inteiro que desmoronaria se o “inimigo” deixasse de existir.

Nesse teatro repetitivo, o cidadão comum é o figurante descartável. Os mortos são contados como estatísticas, os deslocados como “externalidades”. Nenhum chanceler europeu, nenhum democrata californiano, nenhum apresentador da CNN chora por eles. Importa apenas a manutenção do script — o de um mundo onde a exceção virou regra, e onde a retórica de paz serve apenas para justificar mais bombas.

Enquanto os ideólogos do “Ocidente iluminado” posam de paladinos contra o “terror islâmico” e os clérigos iranianos vociferam contra o “grande Satã”, a engrenagem segue girando, imune ao cansaço moral. E qualquer um que ouse romper com essa liturgia — seja Trump com sua realpolitik, seja um dissidente israelense ou iraniano — é prontamente rotulado como traidor, populista ou lunático.

A guerra infinita é, hoje, o único consenso verdadeiro entre elites que fingem antagonismo, mas partilham a mesma obsessão: o controle perpétuo. Netanyahu e os aiatolás apenas interpretam seus papéis. O palco é antigo. A plateia, cada vez mais cética. Mas o espetáculo continua — regido por cinismo, sustentado por sangue, legitimado por manchetes.

 

 

MARCOS PAULO CANDELORO

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Marcos Paulo Candeloro  é graduado em História (USP – Brasil), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR – Brasil). Aluno do professor Olavo de Carvalho desde 2011. É professor, jornalista e analista político. Escreve em português do Brasil.

As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.