Uma nova edição do 75.º aniversário do clássico distópico de George Orwell, inclui uma introdução escrita por uma professora americana que é um elogio à falência da academia contemporânea..

A autora dessa pérola da ironia pós-moderna, Dolen Perkins-Valdez, diz de si própria no seu site que “se estabeleceu como uma cronista proeminente da vida histórica americana” e que “lecciona literatura na American University.”

Às páginas tantas, a autora deste texto preambular, que em má hora foi autorizado pelos herdeiros de Orwell, lamenta-se porque “não há personagens negros” no romance.

É inaceitável que Orwell tenha escrito há 80 anos atrás uma novela distópica sem negros, de facto.

Escapa à exegeta que no final da década de 1940 os negros representavam menos de 1% da população inglesa, e não valerá a pena tentar convencê-la de que introduzir pontos de vista radicais da teoria crítica da raça de 2025 na análise de ‘1984’ é sintoma de grave doença cerebral, porque a “leitora contemporânea” Perkins-Valdez insistirá que o facto faz “parar para pensar”, e que lhe é difícil estabelecer uma “conexão” com um livro que “não fala muito sobre raça e etnia”.

A novela do bom do George, para espanto da académica, não tem nada que dizer sobre “raça e etnia”. Ironicamente, tem por argumento fundamental que a tirania desumaniza a sociedade, pela destruição do livre arbítrio do indivíduo e da sua relação com a realidade. Não é difícil perceber isto, e até uma professora de literatura da American University teria em teoria capacidade cognitiva para entender o livro que prefacia.

Mas não, porque no planeta em que vive esta senhora tudo gira em torno da raça e o passado é inventado todos os dias para servir objectivos de poder. E sem conseguir perceber a ironia de se ter transformado de repente numa personagem de Orwell, Perkins-Valdez sobe meio tom na escala:

“Estou a apreciar o romance nos seus próprios termos, não como um clássico, mas como uma boa história. Isto é, até Winston [Smith] se revelar uma personagem problemática.”

Perdão? Como assim?

“Por exemplo, descobrimos que ele não gosta de quase todas as mulheres. Especialmente as jovens e bonitas.”

O protagonista condenado a uma existência infernal sob o regime IngSoc é problemático porque não gosta de “quase todas as mulheres”, na opinião de Perkins-Valdez, que sugere, estranha e comicamente, que Winston Smith devia ser mais mulherengo e, inversamente, gostar de quase todas as mulheres. A prefaciante parece acreditar que qualquer homem que não goste de um máximo de mulheres possível é um mau carácter, tanto mais que:

“As opiniões de Winston sobre as mulheres são, à primeira vista, desprezíveis para o leitor contemporâneo. Ele é o tipo de personagem que me faz largar o livro.”

Dá a sensação que a professora o largou mesmo, considerando a erudição estrambólica do seu texto, que responsabiliza Orwell por não ter escrito Winston como um liberal inseguro e de tal forma correcto que controlasse os seus próprios pensamentos. Se assim fosse, triunfaria aliás para todo o sempre o Grande Irmão, que poderia enfim reformar-se.

 

 

A idiotia alucinada de tudo isto, principal e precisamente porque o livro é um aviso sobre a erosão da relação entre a verdade e o verbo e o cancelamento da liberdade de pensamento, chega a ser contundente.

‘1984’ deve ser como é. Chocante. Cru. Emocionalmente violento. Esse é o objectivo do livro: alertar para o pesadelo de um regime totalitário ao extremo, que codifica “crimes do pensamento”, reinventa a história e deforma politicamente a linguagem. Colocar uma espécie de avisos de ‘conteúdo sensível’ numa introdução a esta obra ao negro é de tal forma grotesco que faz prova da presciência e assertividade de Orwell.

O facto dos herdeiros do génio britânico terem permitido esta abominação é até orwelliana que se farta.