As Forças de Defesa de Israel (IDF) lançaram ontem um ataque generalizado contra o Irão após meses de tentativas, aparentemente fracassadas, de negociações entre a administração Trump e Teerão, mas, de acordo com o secretário de Estado Marco Rubio, os EUA não estiveram envolvidos nos ataques.

Em declarações após o ataque, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu afirmou:

“Atacámos os principais cientistas nucleares iranianos que trabalham na bomba iraniana e também atingimos o coração do programa de mísseis balísticos do Irão. A nossa luta não é contra o povo iraniano, a nossa luta é contra a ditadura iraniana.”

 

 

Por seu lado, num comunicado emitido na noite de quinta-feira, Rubio negou o envolvimento dos EUA:

“Esta noite, Israel tomou medidas unilaterais contra o Irão. Não estamos envolvidos em ataques contra o Irão e a nossa principal prioridade é proteger as forças americanas na região. Israel informou-nos que acredita que esta acção foi necessária para sua autodefesa. O Presidente Trump e a Administração tomaram todos os passos para proteger as nossas forças e permanecemos em contacto próximo com os nossos parceiros regionais. Deixem-me ser claro: O Irão não deve alvejar interesses e pessoal dos EUA.”

 

 

De acordo com um porta-voz das Forças de Defesa de Israel, o ataque foi apelidado de ‘Operação Leão Ascendente’ e ocorreu depois de Jerusalém ter recolhido “informações de alta qualidade” que sugeriam que “o Irão está mais perto do que nunca de desenvolver uma bomba nuclear”.

Um porta-voz das IDF disse aos jornalistas:

“Não temos outra escolha senão agir contra estas ameaças existenciais ao Estado de Israel”.

O estado de emergência foi declarado em Israel, enquanto o país se prepara para uma resposta iraniana.

O confronto directo entre Israel e o Irão começou depois das forças sionistas terem bombardeado o consulado do Irão no Líbano, matando o general de brigada Mohammad Reza Zahedi, do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica, em Abril de 2024. Em resposta, Teerão lançou os seus primeiros ataques directos contra o território israelita. Israel retribuiu menos de uma semana depois e destruiu parte do sistema de defesa aérea de longo alcance S-300 do Irão.

A 1 de Outubro, o Irão lançou um ataque com mísseis balísticos contra Israel, ao qual Jerusalém respondeu com uma série de ataques a 26 de Outubro, que tiveram como alvo instalações militares e locais de armazenamento de mísseis.

 

Um sangrento monte de mentiras.

Benjamin Netanyahu mentiu descaradamente na sua declaração de ontem. O ataque não atingiu apenas “cientistas nucleares iranianos que trabalham na bomba iraniana” e “o coração do programa de mísseis balísticos do Irão”. Há imagens de prédios residenciais a serem bombardeados e relatos de várias chefes militares iranianos a serem terminados pela operação sionista.

 

 

É também falso, ou no mínimo, está por demonstrar, que o programa nuclear iraniano, na fase em que se encontra, seja uma “ameaça existencial” seja para quem for. Em 1995, “peritos militares” americanos e israelitas mostraram-se preocupados, em declarações ao New York Times, com a hipótese do programa iraniano estar operacional em cinco anos. Trinta anos depois, Tulsi Gabbard, a directora dos serviços de inteligência de Donald Trump, foi ao Congresso afirmar que não tem qualquer informação de que o Irão esteja a construir armas nucleares.

Além disso, a administração Trump estava neste momento em negociações com o Irão, precisamente para que o país não enriquecesse Urânio. O timing deste ataque deriva assim claramente da intenção do regime Netanyahu de interromper essas negociações e atingir o Irão antes que qualquer acordo fosse possível, num momento em que a desculpa do programa nuclear é ainda viável, apesar de muito pouco credível.

O ContraCultura pode garantir à sua audiência de que nunca serão encontradas provas materiais da existência de armas nucleares iranianas, ou até de um programa razoavelmente avençado de construção destas armas, que justifique este ataque.

Marco Rubio mente também com quantos dentes tem. É objectivamente impossível que qualquer ataque israelita dirigido a qualquer outra nação não envolva os EUA, porque as forças militares do estado judaico são armadas e financiadas pela América e os serviços de inteligência dos dois países trabalham muitas vezes em parceria. Há até relatos de que 20.000 mísseis que estavam destinados ao regime Zelensky foram recentemente “desviados para o Médio Oriente.” Estarão neste momento a voar na direcção do Irão.

 

 

É claro que não passa pela cabeça de ninguém que uma operação com esta dimensão e gravidade fosse executada sem a complacência e a cumplicidade da Casa Branca, do Pentágono, da CIA e etc.. Até a comunicação social israelita não tem problemas em admitir o óbvio.

 

 

Mas mesmo que, por absurdo, a afirmação de Marco Rubio fosse verdadeira, os americanos (e todos os cidadãos do Ocidente) teriam então razões para ficarem deveras preocupados pela fragilidade da sua administração e pela desconsideração que Benjamin Netanyahu, nesse caso, estaria a manifestar em relação ao seu aliado primeiro. Se Trump não autorizou o ataque, e está de boa fé em relação às negociações com o Irão, como permitiu que os israelitas interrompessem esse processo, brutal e subitamente?

Num caso como noutro, o ‘Presidente da paz’ está muito longe de pacificar seja o que for.

 

 

 

Mais um passo na direcção do apocalipse.

Confrontado com o ataque, que aparente e incrivelmente apanhou de surpresa os seus líderes políticos e militares, o Irão irá por certo retaliar e estará prestes a declarar guerra a Israel. Enquanto isso, os preços do crude já dispararam.

 

 

E enquanto a primeira reacção de Donald Trump foi a de afirmar, risivelmente, que espera continuar as negociações com o Irão e, criminosamente, que irá defender Israel se os iranianos ripostarem (o país, pelos vistos, não tem sequer direito a defender-se), as reacções da Rússia, da China e do bloco BRICS são neste momento imprevisíveis, mas é expectável que boas notícias não surjam daí.

 

 

Uma coisa é certa. Num momento em que já caminhávamos a passos largos para um conflito de proporções globais, a propósito da guerra na Ucrânia, foi dado ontem uma passo assimétrico e de gravidade incomensurável na direcção apocalíptica.

Donald Trump corre agora o risco, nitidamente mal calculado, de ficar para a história como o ‘Presidente da guerra’. Da Terceira Grande Guerra.