As Forças de Defesa de Israel (IDF) lançaram ontem um ataque generalizado contra o Irão após meses de tentativas, aparentemente fracassadas, de negociações entre a administração Trump e Teerão, mas, de acordo com o secretário de Estado Marco Rubio, os EUA não estiveram envolvidos nos ataques.
Em declarações após o ataque, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu afirmou:
“Atacámos os principais cientistas nucleares iranianos que trabalham na bomba iraniana e também atingimos o coração do programa de mísseis balísticos do Irão. A nossa luta não é contra o povo iraniano, a nossa luta é contra a ditadura iraniana.”
Netanyahu just released a video explaining why he’s now bombing Iran. The official language in Israel is Hebrew, so why is he speaking ENGLISH?
My lucky guess is that this video isn’t for Israelis, it’s propaganda for Americans.pic.twitter.com/R5LlFKz3nJ
— George (@BehizyTweets) June 13, 2025
Por seu lado, num comunicado emitido na noite de quinta-feira, Rubio negou o envolvimento dos EUA:
“Esta noite, Israel tomou medidas unilaterais contra o Irão. Não estamos envolvidos em ataques contra o Irão e a nossa principal prioridade é proteger as forças americanas na região. Israel informou-nos que acredita que esta acção foi necessária para sua autodefesa. O Presidente Trump e a Administração tomaram todos os passos para proteger as nossas forças e permanecemos em contacto próximo com os nossos parceiros regionais. Deixem-me ser claro: O Irão não deve alvejar interesses e pessoal dos EUA.”
BREAKING: Statement by Secretary of State Marco Rubio pic.twitter.com/D2ulJ4ZEi3
— The Spectator Index (@spectatorindex) June 13, 2025
De acordo com um porta-voz das Forças de Defesa de Israel, o ataque foi apelidado de ‘Operação Leão Ascendente’ e ocorreu depois de Jerusalém ter recolhido “informações de alta qualidade” que sugeriam que “o Irão está mais perto do que nunca de desenvolver uma bomba nuclear”.
Um porta-voz das IDF disse aos jornalistas:
“Não temos outra escolha senão agir contra estas ameaças existenciais ao Estado de Israel”.
O estado de emergência foi declarado em Israel, enquanto o país se prepara para uma resposta iraniana.
O confronto directo entre Israel e o Irão começou depois das forças sionistas terem bombardeado o consulado do Irão no Líbano, matando o general de brigada Mohammad Reza Zahedi, do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica, em Abril de 2024. Em resposta, Teerão lançou os seus primeiros ataques directos contra o território israelita. Israel retribuiu menos de uma semana depois e destruiu parte do sistema de defesa aérea de longo alcance S-300 do Irão.
A 1 de Outubro, o Irão lançou um ataque com mísseis balísticos contra Israel, ao qual Jerusalém respondeu com uma série de ataques a 26 de Outubro, que tiveram como alvo instalações militares e locais de armazenamento de mísseis.
Um sangrento monte de mentiras.
Benjamin Netanyahu mentiu descaradamente na sua declaração de ontem. O ataque não atingiu apenas “cientistas nucleares iranianos que trabalham na bomba iraniana” e “o coração do programa de mísseis balísticos do Irão”. Há imagens de prédios residenciais a serem bombardeados e relatos de várias chefes militares iranianos a serem terminados pela operação sionista.
And they just targeted the Nuclear Facilities in Iran…pic.twitter.com/zsgfwbtG3h
— Liz Churchill (@liz_churchill10) June 13, 2025
BREAKING: Iranian state media confirms that the chief of the Iranian Revolutionary Guards, Hossein Salami, has been killed in an Israeli strike.
— The Spectator Index (@spectatorindex) June 13, 2025
É também falso, ou no mínimo, está por demonstrar, que o programa nuclear iraniano, na fase em que se encontra, seja uma “ameaça existencial” seja para quem for. Em 1995, “peritos militares” americanos e israelitas mostraram-se preocupados, em declarações ao New York Times, com a hipótese do programa iraniano estar operacional em cinco anos. Trinta anos depois, Tulsi Gabbard, a directora dos serviços de inteligência de Donald Trump, foi ao Congresso afirmar que não tem qualquer informação de que o Irão esteja a construir armas nucleares.
Além disso, a administração Trump estava neste momento em negociações com o Irão, precisamente para que o país não enriquecesse Urânio. O timing deste ataque deriva assim claramente da intenção do regime Netanyahu de interromper essas negociações e atingir o Irão antes que qualquer acordo fosse possível, num momento em que a desculpa do programa nuclear é ainda viável, apesar de muito pouco credível.
O ContraCultura pode garantir à sua audiência de que nunca serão encontradas provas materiais da existência de armas nucleares iranianas, ou até de um programa razoavelmente avençado de construção destas armas, que justifique este ataque.
Marco Rubio mente também com quantos dentes tem. É objectivamente impossível que qualquer ataque israelita dirigido a qualquer outra nação não envolva os EUA, porque as forças militares do estado judaico são armadas e financiadas pela América e os serviços de inteligência dos dois países trabalham muitas vezes em parceria. Há até relatos de que 20.000 mísseis que estavam destinados ao regime Zelensky foram recentemente “desviados para o Médio Oriente.” Estarão neste momento a voar na direcção do Irão.
Right, the US just stood powerlessly by as the state that it arms, funds, engages in elaborate intelligence-sharing with, maintains a joint military base with, and mobilizes its regional assets to defend, launched one of the most consequential bombing campaigns in its history pic.twitter.com/sqyR3Hd7K4
— Michael Tracey (@mtracey) June 13, 2025
É claro que não passa pela cabeça de ninguém que uma operação com esta dimensão e gravidade fosse executada sem a complacência e a cumplicidade da Casa Branca, do Pentágono, da CIA e etc.. Até a comunicação social israelita não tem problemas em admitir o óbvio.
JUST IN – The operation in Iran is in coordination with the U.S., says Israeli media N12.
— Disclose.tv (@disclosetv) June 13, 2025
Mas mesmo que, por absurdo, a afirmação de Marco Rubio fosse verdadeira, os americanos (e todos os cidadãos do Ocidente) teriam então razões para ficarem deveras preocupados pela fragilidade da sua administração e pela desconsideração que Benjamin Netanyahu, nesse caso, estaria a manifestar em relação ao seu aliado primeiro. Se Trump não autorizou o ataque, e está de boa fé em relação às negociações com o Irão, como permitiu que os israelitas interrompessem esse processo, brutal e subitamente?
Num caso como noutro, o ‘Presidente da paz’ está muito longe de pacificar seja o que for.
Israel bombing Tehran with US munitions must be the “peace in the Middle East” we were promised
— Michael Tracey (@mtracey) June 13, 2025
Trump two months ago: Netanyahu won’t drag me into a war with Iran, “I may go in very willingly if we can’t get a deal… I’ll be leading the pack”
(Narrator: the prospects of any “deal” were doomed to failure by maximalist US demands that it was known Iran would never accept) https://t.co/jZW3OJfNbB
— Michael Tracey (@mtracey) June 13, 2025
Mais um passo na direcção do apocalipse.
Confrontado com o ataque, que aparente e incrivelmente apanhou de surpresa os seus líderes políticos e militares, o Irão irá por certo retaliar e estará prestes a declarar guerra a Israel. Enquanto isso, os preços do crude já dispararam.
BREAKING: Oil prices up 12%
— The Spectator Index (@spectatorindex) June 13, 2025
JUST IN – Iranian outlets claim that Iran will declare war on Israel and retaliate “soon.”
— Disclose.tv (@disclosetv) June 13, 2025
E enquanto a primeira reacção de Donald Trump foi a de afirmar, risivelmente, que espera continuar as negociações com o Irão e, criminosamente, que irá defender Israel se os iranianos ripostarem (o país, pelos vistos, não tem sequer direito a defender-se), as reacções da Rússia, da China e do bloco BRICS são neste momento imprevisíveis, mas é expectável que boas notícias não surjam daí.
JUST IN – Trump says U.S. will “defend itself and Israel if Iran retaliates.”
— Disclose.tv (@disclosetv) June 13, 2025
Uma coisa é certa. Num momento em que já caminhávamos a passos largos para um conflito de proporções globais, a propósito da guerra na Ucrânia, foi dado ontem uma passo assimétrico e de gravidade incomensurável na direcção apocalíptica.
Donald Trump corre agora o risco, nitidamente mal calculado, de ficar para a história como o ‘Presidente da guerra’. Da Terceira Grande Guerra.
Relacionados
11 Jun 26
O hobby de matar pessoas: Pentágono rouba mais de 200 vidas, na Nigéria.
Missões coordenadas entre o Comando dos EUA para África e o exército nigeriano atacaram supostas forças do Estado Islâmico na África Ocidental, matando mais de 200 alegados jihadistas, incluindo Abu-Bilal al-Minuki, um líder de alto nível do ISIS.
10 Jun 26
Israel ataca o Líbano, ignorando, mais uma vez, o apelo de Trump ao cessar-fogo.
Os ataques aéreos israelitas em Tiro, no Líbano, provocaram a morte a pelo menos três pessoas, aumentando as tensões com o Irão, apesar das exigências da administração Trump para que Israel cesse os ataques no país vizinho.
8 Jun 26
Ninguém diria: Pentágono alerta que a espionagem israelita contra a Casa Branca atingiu um nível “crítico”.
O Pentágono está cada vez mais preocupado com os esforços dos serviços de informação israelitas para espiar altos funcionários dos EUA e elevou o nível de ameaça de contra-espionagem em relação ao seu "aliado" estrangeiro para o alerta máximo.
3 Jun 26
O que é que pode correr mal? Ocidente planeia usar ex-militantes do Estado Islâmico contra o Irão.
As agências de espionagem ocidentais pretendem utilizar militantes radicais sírios como força por procuração contra o Irão, segundo afirmou o chefe do Serviço Federal de Segurança russo, Aleksandr Bortnikov.
2 Jun 26
Invocando as constantes violações ao cessar-fogo de Telavive, Irão suspende negociações de paz com os EUA.
Teerão fechou a porta do processo negocial na cara de Trump e vai voltar a bloquear o Estreito de Ormuz, em resposta aos constantes bombardeamentos e ataques terrestres que as forças israelitas têm desenvolvido no Líbano.
1 Jun 26
Presidente do Parlamento iraniano: “Não obtemos concessões através do diálogo, mas sim através de mísseis.”
O presidente do Parlamento iraniano e principal negociador nas conversações de paz com a Casa Branca, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que Teerão considera a dissuasão militar essencial para qualquer negociação com Washington, rejeitando as “garantias" teóricas dos EUA.






