A elite global descobriu que, mais lucrativo do que acumular capital, é acumular prestígio moral — desde que seja às custas dos outros. Nesse novo teatro da virtude, bilionários progressistas desfilam como salvadores do mundo, exigindo sacrifícios do padeiro, do motorista de aplicativo e do balconista, enquanto eles próprios seguem imunes em seus jatinhos com discurso engomado e zero renúncia. Bono é só o emblema mais caricato dessa farsa — um ex-músico milionário que não lança um disco decente há décadas, mas ainda se arvora em oráculo humanitário.

Em recente entrevista ao podcast de Joe Rogan, Bono lamentou profundamente o corte de US\$ 600 milhões da USAID para projetos de saúde na África, estimando, com a segurança dos falsos profetas, que a medida custaria a vida de “300 mil pessoas”. Um número convenientemente redondo, suficientemente alarmista, e absolutamente impossível de verificar — como toda retórica de chantagem emocional bem-sucedida.

O detalhe que escapa ao delírio demagógico de Bono é o mais elementar: sua fortuna pessoal ultrapassa os US\$ 700 milhões. O messias de jaqueta de couro poderia bancar sozinho o programa “salva-vidas” africano, ficar ainda com cem milhões no bolso, e seguir nos jantares da elite global com a consciência reluzente. Mas isso não passa pela cabeça de um bilionário moralista. A lógica é outra: a salvação do mundo deve ser financiada pelos pagadores de impostos — o padeiro espanhol, o balconista brasileiro, o caminhoneiro texano —, enquanto os virtuosos de Davos seguem poluindo o planeta em jatinhos particulares a caminho da próxima conferência sobre clima.

Esse é o cerne da nova hegemonia woke: transformar culpa em capital simbólico, e capital simbólico em poder político. Cada criança desnutrida serve como ornamento ético para bilionários entediados, que vivem da simulação de empatia enquanto blindam seus patrimônios em paraísos fiscais. A caridade, nesse teatro de sombras, é sempre compulsória — mas só para os outros.

O progressismo pop-global vive de sustos morais, não de sacrifícios reais. Sua ética é performática, sua indignação seletiva, seu compromisso com a justiça profundamente cínico. No fim, o que importa não é salvar vidas, mas manter o monopólio do discurso de salvação. E nisso, Bono é apenas mais um latifundiário da virtude, cultivando miséria alheia para colher aplausos fáceis — sempre com dinheiro dos outros.

 


 

MARCOS PAULO CANDELORO

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Marcos Paulo Candeloro  é graduado em História (USP – Brasil), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR – Brasil). Aluno do professor Olavo de Carvalho desde 2011. É professor, jornalista e analista político. Escreve em português do Brasil.

As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.