Apresentação de “Guerras Culturais e Ameaças Woke”, na Sociedade de Geografia, 21 de Maio de 2025.

 

 

A Europa tem sido sucessivamente representada entre uma Aventura Inacabada (2004, segundo Zygmunt Bauman) ou um projecto em construção (2023, segundo Michela Graziani, Annabela Rita1) e uma ideia/ideal (Denis de Rougemont, Denys Hay, George Steiner, Rob Riemen, etc.), entre a materialidade solar do continente e a fluidez metamórfica e lunar dos mitos, ambos “lugares de memória” (Pierre Nora)…

Em O Regresso da Princesa Europa (2016), Rob Riemen encara-a como uma canção de Orfeu, gerada na esperança, na auto-reflexão, na sabedoria e na confiança, resgatando-a dos velhos mitos e imaginando-a como Princesa criadora de um luminoso ideal de civilização contra as trevas da desumanidade, Princesa regressando de uma viagem além de si, além-mar, que não reencontra o seu magnífico legado, traído e esquecido pelos homens… a imagem é belíssima, sintetizando a melancolia ocidental caldeada nos sentimentos de decadência e de impotência, quiçá, de inexorabilidade da morte…

A espiritualidade religiosa dessa Princesa gerou-se no encontro do Ocidente (Grécia e Roma) e do Oriente (Jerusalém) e foi um estabilizador dos sentidos da História até à Era das Revoluções (Eric Hobsbawm, Fareed Zakaria) e às crises que a convulsionaram: a organização das sociedades derivava de um modelo hierárquico do saber e do poder legitimado numa transcendência que excedia o homem e que o conduzia, de um padrão validado nos mitos (Benedict Anderson). Bastará lembrar o mito de Ourique (séc. XII) e o modo como ele actualiza o da visão de Constantino na Ponte Mílvio (séc. IV), na origem de um império romano cristão.

Dissolvido esse padrão modelizante, o désenchantement du monde (Marcel Gauchet, Max Weber) torna-se o tempo de uma Europa desencantada (Eduardo Lourenço), cuja história passou a ser explicada pelo choque de culturas (guerras), por ciclos (natureza), etc., numa tentativa hermenêutica que acompanha os tempos e as mudanças, expandindo-se além-continente, por fim, alegadamente, encaminhando-se para o “fim” (Francis Fukuyama, Hervé Kempf, Jean Gimpel), uma “estranha morte” (Douglas Murray) ou o “suicídio” (James Burnham, Agostino Nobile).

Seja qual for a perspectiva reflexiva, a verdade é que, quando falamos de Europa/Ocidente falamos de uma identidade que se desenvolve a partir de um enigma encenado pelo diálogo entre Édipo e a Esfinge:

1. a pergunta e a resposta propõem a questão central que toda a reflexão e toda a acção dos povos europeus irão actualizando: quem somos, como/o que somos, de onde vimos, para onde vamos…? Dos mitos das origens às profecias do futuro, das histórias colectivas às propostas de mudança e às Declarações Universais…
2. esse diálogo demonstra a linguagem como instância de (des)união (Yuval Noah Harari), de ponte e tensão entre diferentes que gera e conduz comunidades, motivo pelo qual ela constituirá matéria e cenário de confrontos;
3. a continuação desse diálogo promoverá, quer a comunidade Europa, quer a que dela deriva (Ocidente), religando os povos, apesar das clivagens económicas, culturais, etc.

Por isso, a Esfinge pessoana (Mensagem, 1934) retoma a dos velhos mapas antropomórficos da Europa, conversando com a que a observa do norte de África, corporificando tudo “o resto” (Roger Scruton)…

Na sua caminhada, veremos essa encenação unificadora clivar-se.

Com a Revolução Francesa e as que se lhe seguiram, iniciou-se a fragmentação e a suspeita na comunidade Ocidente, arrastando consigo a imprevisibilidade e o progressivamente sistemático ataque ao instituído/aceite… o “mal estar” e a melancolia (Nietzsche, Marx e Freud) são as duas faces mais eruditas do sentimento de decadência e de impotência que “envelhecem” esse Prometeu de outrora (Eduardo Lourenço), dominado agora pelas sombras de Fausto (Vasco Graça Moura)…

Os sécs. XIX e XX serão os da tentativa das comunidades de se (re)conhecerem sem a mediação transcendental que repousava na Igreja (que atacam), por isso, os da mais plena Crise da Consciência Europeia (1680 – 1715) (1935), cuja génese Paul Hazard observa, que alguns expandem à Humanidade (Husserl) e tantos assinalam no Mundo Moderno (René Guénon).

De facto, o séc. XIX afirma os nacionalismos com o ideal de um povo, uma história, um lugar e uma língua, com as suas origens mitificadas e/ou caldeadas na coexistência, um cenário em que Renan e os universalismos espreitam como serpentes edénicas, com as suas “religiões laicas” (Positivismo) emergindo da desorientação mimetizando as deificadoras que as precederam. E o séc. XX vai ser o tempo de, por um lado, atentar às clivagens e às diferenças, promovendo a fragmentação do fenómeno a conhecer e do conhecimento (a especialização), e, por outro, de iniciar o processo da quantificação (O Reino da Qualidade cede ao da Quantidade, 1945 – René Guénon) esvaziando-a da dimensão ética, ideológica…ou seja, da Humanidade, do Humanismo…

Após as Grandes Guerras do séc. XX, em trauma, o intelectual ocidental busca, alegadamente, o Homem real na sua individualidade socialmente inscrita: entre o indivíduo e a comunidade, vai tentar definir manchas populacionais distintas na grande mancha nacional: as minorias económicas, profissionais, éticas, religiosas, de género… é a ciência em busca do micro, em amplia, em detrimento do macro englobante.

E, como na Varanda (1952) de Escher, o centro compositivo amplificado atrai e monopoliza a nossa atenção fazendo perder a referência da relação entre o micro e o macro, fundamental para inteligir o fenómeno.

Eis-nos na génese do império das minorias e das Guerras Culturais (James Davison Hunter, Roger Chapman e James Ciment, Andrew Hartman, João Ferreira Dias), na subversora Revolução Silenciosa (Carlos Szlak e Christopher F. Rufo), quando e onde, na expressão de Julien Benda, ocorre A traição dos Intelectuais (1927):

“A religião do particular e o desprezo do universal é uma inversão dos valores que caracteriza o ensinamento do intelectual moderno de uma maneira inteiramente geral.”2

A Cultura é a representação do mundo connosco e de nós no mundo: a que nos orienta e estrutura, que torna inteligível um real heterogéneo, sem sentido e em função do que nos vemos e agimos. Ora, como tantos reconhecem,

“A guerra cultural não se resume a um embate de ideias; ela é um método projetado para desarticular o debate público. Seu objetivo não é persuadir pelo argumento, mas transformar discordâncias em ameaças existenciais. Nesse contexto, a identidade ocupa o lugar do pensamento crítico, e o ódio substitui a argumentação. Nada disso ocorre por acaso: trata-se de uma estratégia deliberada, que prospera na radicalização e na simplificação dos problemas, inviabilizando qualquer possibilidade de mediação.”
(Ricardo Queiroz Pinheiro)3

E é por isso que os seus protagonistas querem alterar a linguagem recorrendo ao neutro inexistente e reescrever anacronicamente a História e a Literatura, contrariando a estabelecida e reconhecida noção de autoria marcada pelo tempo e circunstâncias…

Mais: aqui e agora, em Portugal, estamos a receber o tsunami das Guerras Culturais que vem do espaço anglo-saxónico, que víamos como algo estranho, alheio, que nada tinha a ver connosco…
Se, lá fora, quem se levantou e tentou enfrentá-lo sentiu a fúria dos ventos (e chegou a ser destruído por eles), aqui, a perplexidade impera e a reacção foi impedida pela ditadura do “politicamente correcto” com que se manietou antes a sociedade…

Guerras Culturais e as Ameaças Woke, de Francisco Henriques da Silva, autor de várias obras já4, é, pois, um empenhado estudo desse tsunami e um corajoso libelo de defesa da nossa identidade ocidental europeia, de nações feita, que tem na União Europeia um caso/aventura, não a sua imagem completa… um guia de estratégia que transfere A Arte da Guerra, de Sun Tzu (V a. C.) e de Maquiavel (séc. XVI), do cenário militar para o das ideias, analisando caso a caso as estrelas dessa constelação que o movimento woke protagoniza.

E é, também, um longamente reflectido exercício ensaístico, generoso no acolhimento de sugestões, realista na incorporação de novas informações, atento à actualização das leituras… uma investigação desenvolvida em jeito de escrevivência…

A ocasião, como confessa o autor, é a que se perfila no final de 2024 e no posfaciado de 5/maio/2025:

“A batalha ainda não está perdida, mas as ameaças são imensas e desconhecem-se as nossas vontade e capacidade real de resiliência.”
(p. 316)

“O pêndulo pode, pois, movimentar-se no sentido oposto e nada nos diz que as conquistas wokistas, nalguns casos fortemente implantadas, posam ser revertidas. Não existe, nem é por ora detectável, qualquer ponto de equilíbrio.
O optimismo não é a palavra de ordem.”
(p. 320)

A obra apresenta uma estrutura dividida entre um prefácio (de João Maurício Brás), uma introdução de enquadramento da problemática e 14 capítulos constituindo um percurso conducente a “uma estratégica concertada de combate ao wokismo”, itinerário retoricamente organizado, e um posfácio actualizando a informação com notícias até 5/5/2025, já no prelo.

No conjunto da obra, cumpre destacar três aspectos:

• uma arqueologia do fenómeno das Guerras Culturais, da(s) sua(s) história(s) até ao pós-modernismo e à mais próxima actualidade (com hipóteses de operadores da sua génese), assinalando os seus exemplos mais representativos;
• uma análise (distinção, enumeração e sistemática avaliação e desconstrução) do seu decálogo/10 linhas de força (p. 45 ss.), fornecendo os instrumentos para a resistência ao tsunami que nos varre as referências tradicionais, buscando eliminar a rosa dos ventos que nos orienta em benefício, não de um “relativismo cultural” (1ª etapa do processo), mas de uma inversão de valores, de poderes e da ordem… conduzindo-nos para uma “nova ordem”, “buraco negro” cujas forças gravitacionais serão outras, insuspeitadas ainda da maioria…
• por fim, um apelo à comunidade para a resistência com as armas assim elaboradas, lembrando o “Valete Fratres” pessoano ou o nobriano “Moços do meu País” (soneto 1 de Só)…

Com este guia da autoria de Francisco Henriques da Silva, doravante incontornável na bibliografia portuguesa e, por extensão, europeia, poderemos assistir à segunda parte da aventura do Regresso da Princesa Europa (2016), que Rob Riemen assim descreve:

“Depois de limpar as lágrimas /…/, a Europa assumirá de novo a batalha para que se torne realidade o seu sonho – uma civilização em que cada ser humano possa ser capaz de viver com dignidade e sentir orgulho em dizer: «Eu sou europeu!»”6

Felicitações renovadas por este corajoso livro, Embaixador Francisco Henriques da Silva, extensivas à Âncora Editora! E, a todos: BOA LEITURA e BOA LUTA… in hoc signo!

 

 

Annabela Rita
Universidade de Lisboa / Universidade Aberta

Texto da apresentação lido na sessão de lançamento realizada na Sociedade de Geografia de Lisboa em 21/5/2025.

 

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1 Michela Graziani e Annabela Rita (coord.). Europa: um projecto em construção. Homenagem a David Sassoli, Firenze : Firenze University Press, 2023.
2 Julien Benda. A traição dos Intelectuais [1927], S. Paulo, Ed. Peixoto Neto, 2007, pp. 181
3 Cf. https://outraspalavras.net/direita-assanhada/guerras-culturais-e-a-ilusao-de-politica-sem-cultura/
4 A saber: Guerra na Bolanha – De Estudante, a Militar e Diplomata (2015), Memórias Diplomaticamente Incorrectas (2 vols. 2020-22), Goa, a Índia e Portugal (2023),
5 Do texto de apresentação da obra. Cf., p. ex., https://www.bookmaniacs.pt/rob-riemen-o-regresso-da-princesa-europa