O neoconservadorismo é, antes de tudo, uma caricatura tardia e debilitada daquilo que deveria ser o verdadeiro espírito tradicional. É uma resposta apressada e superficial à decadência cultural e moral do Ocidente; não com raízes na tradição viva, mas com ferramentas importadas de um liberalismo econômico raso, de um nacionalismo de palanque e de uma fé cega no Estado moderno como instrumento de redenção. Ele fala em valores, mas age por cálculos; fala em princípios, mas obedece a planilhas; fala em ordem, mas alimenta a máquina que a dissolve.

O problema começa quando o neoconservadorismo, travestido de reação, não passa de uma reconfiguração “de direita” do mesmo projeto iluminista que destruiu os fundamentos espirituais da civilização ocidental. Sua estrutura é irmã bastarda da social-democracia, filha renegada da Revolução Francesa e discípula tímida da maçonaria liberal que colocou o homem no centro de tudo e Deus às margens. Não é um movimento de restauração da ordem, mas um verniz moral sobre as ruínas do mundo moderno.

O liberalismo, cuja lógica o neoconservadorismo tenta preservar, já não é, se é que um dia foi, uma doutrina neutra da liberdade. Ele se mostrou, ao longo do século XX, um corrosivo meticuloso da autoridade legítima, da moral objetiva e da tradição. Seu conceito de “liberdade” é negativo, não porque defende a ausência de coerção, mas porque carece de uma direção ontológica: o homem livre do liberalismo é livre de tudo, inclusive da verdade, da responsabilidade e da transcendência.

Ao tentar usar as armas do liberalismo para enfrentar o caos contemporâneo, torna-se refém da mesma lógica que gerou esse caos. Defende a família, mas aceita os pressupostos antropológicos do individualismo moderno. Fala em hierarquia, mas só conhece o mercado. Exalta a tradição, mas não ousa confrontar os ídolos modernos do progresso, da tolerância abstrata e da democracia como valor absoluto. Pior: ao se aproximar dos centros de poder global, tende a justificar alianças com instituições comprometidas com a dissolução da cristandade, como a ONU, a OTAN e não raro a própria maçonaria internacional, que desde o século XVIII trabalha pela substituição da ordem sagrada por um humanismo inócuo, sentimental e relativista.

E quando tenta reagir à esquerda revolucionária, o faz falando a língua do inimigo. Propõe reformas administrativas, melhora a gestão estatal, faz “escola sem partido” e “estatuto do nascituro”, mas não toca no nervo da coisa: a perda do senso do sagrado, o rompimento entre natureza e graça, a substituição da verdade pela opinião pública. Querem curar a doença com paliativos, quando o mal é espiritual, e requer penitência, não marketing.

É por isso que todo projeto neoconservador, por mais bem-intencionado que seja, termina servindo de fiador à modernidade em sua etapa mais cínica. Ele não reconstrói: adapta. Não combate: negocia. Em vez de restaurar a realeza do Logos, tenta acomodá-lo ao palco rotativo da política de ocasião.

O verdadeiro conservadorismo, se quiser ter algum valor, precisa ser teologicamente informado, culturalmente enraizado e politicamente marginal, no sentido mais nobre da palavra: como os profetas, que falavam de fora do sistema, com autoridade e verdade. Sem isso, qualquer tentativa de restaurar a ordem será apenas mais um tipo de gestão do colapso. E nesse caso, o neoconservador não é o médico, é o enfermeiro do doente terminal chamado Ocidente.

O drama da modernidade não é político, é metafísico.

 

 

PAULO H. SANTOS
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Paulo H. Santos é professor de filosofia, bacharel em Filosofia (UCP- Brasil), escritor, católico e colunista desde 2020. Escreve em português do Brasil.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.