
Salomão e seu Eclesiastes me perseguiram ao longo da vida, desde juventude. Primeiramente impressionei-me com seu conteúdo, o tom seco e aparentemente cético, que combinava perfeitamente com minha própria personalidade mas, ao longo dos anos descobri que todo o mais sinistro mostrado nos escritos continham grandes verdades. E isso fez do mesmo meu companheiro de cabeceira, utilizando diversas passagens em alguns livros que escrevi, artigos e demais produções.
Custou-me tragédias em minha vida pessoal a compreensão da profundidade do mesmo, somente enxergada após já calejado nos estudos filosóficos e, por isso, apresento brevemente algo do que concluí neste pequeno ensaio. Vamos ao que interessa, pois.
Introdução.
A maior parte dos homens busca sentido onde há ruído. Procuram respostas entre os vícios, conforto nas distrações, identidade nos espelhos dos outros, mas poucos ousam fazer o que Salomão fez: sentar-se no trono da experiência humana total e, de lá, declarar que tudo é fumaça.
Não há exagero em dizer que o Eclesiastes é uma das obras mais ousadas da tradição bíblica. Não por subverter dogmas, mas por ter a coragem de expor a alma humana diante da verdade cruel da existência, quando esta é contemplada sem a luz de Deus. Um livro que começa com “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” e termina com “Teme a Deus e guarda os seus mandamentos” não é um tratado de niilismo, mas uma anatomia do desespero sem fé.
Parte I – Eclesiastes ou o desencanto como pedagogia do absoluto
I – Salomão, o filósofo realista
Quando pensamos em um filósofo, a imagem usual é de um homem barbudo, solitário, cercado de pergaminhos, divagando sobre essências e acidentes. Mas Salomão foi um rei – e isso muda tudo. Sua filosofia não nasce da abstração, mas da experiência bruta e concreta: palácios, mulheres, vinho, sabedoria, domínio sobre povos, projetos monumentais, contemplação da morte. Ele viveu o que todos querem viver… e encontrou o tédio.
“Tudo o que meus olhos desejaram, não os neguei; não privei meu coração de alegria alguma… e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento.”
(Ec 2,10-11)
Salomão não filosofa como quem especula – ele testa a vida como quem disseca um cadáver. É, portanto, um filósofo empírico do espírito. O homem que teve acesso à totalidade dos bens terrenos e voltou de lá dizendo que nada disso sustenta a alma.
II – “Debaixo do Sol”: o método do abismo
O termo-chave para entender o Eclesiastes é a expressão “debaixo do sol”, repetida como um sino fúnebre ao longo do livro. Essa frase não é poética à toa. Ela marca o limite. “Debaixo do sol” é a existência terrena, horizontal, sem a vertical do sagrado. É o que o homem pode ver, tocar, medir, gozar – mas sem transcendência.
Salomão faz um experimento radical: tenta viver como se Deus não existisse, ou como se Deus fosse irrelevante para o sentido último da existência. E o que encontra?
- O trabalho cansa, e no fim o que você construiu vai parar na mão de um tolo.
- O sábio morre como o tolo.
- A justiça é muitas vezes vencida pela iniquidade.
- O prazer termina em vazio.
- A juventude passa num sopro (vaidade).
- A velhice chega como humilhação.
Se isso não parece com a doutrina do absurdo em Camus, então estamos todos cegos. Mas há uma diferença fundamental: Salomão está simulando essa visão do mundo para desmascará-la. Ele quer mostrar ao leitor que sem Deus, a vida é, de fato, absurda. Mas isso não quer dizer que o absurdo seja a verdade – quer dizer que a ausência de Deus é a mentira.
III – Niilismo ou pedagogia sagrada?
E aqui entra o ponto central de minha tese: o Eclesiastes não é um texto niilista no sentido existencialista moderno. Sartre e Camus abraçam o absurdo, transformam em sua subsistência e tentam nele viver como se fosse possível fabricar sentido humano numa realidade sem telos. Salomão, ao contrário, não se resigna ao vazio – ele o denuncia.
Se há tédio, morte, injustiça e ilusão, isso não é porque a vida é vazia por essência, mas porque o homem abandonou o centro que a sustentava.
A estrutura do livro é reveladora:
- O início é brutal — “vaidade das vaidades”.
- O meio é um desfile lúgubre de frustrações e paradoxos.
- Mas o fim é claro:
“Teme a Deus e guarda os seus mandamentos, porque isso é o dever de todo o homem. Pois Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer más.”
(Ec 12,13-14)
Ou seja, há um sentido. Mas ele está acima do sol.
O niilismo moderno se desespera diante da morte de Deus. Salomão simula esse mundo sem Deus para provar que ele é uma armadilha mental. Um beco sem saída onde o tédio é rei, o prazer é vaidade, e a história é um moinho de repetição sem alma.
IV – A alma moderna e o Eclesiastes
Por que, então, o Eclesiastes fala tão diretamente ao homem moderno?
Porque o homem moderno é Salomão sem sabedoria. Ele tem os prazeres, os bens, a liberdade, as conquistas – mas não tem a lucidez que distingue entre o que é vapor (vaidade) e o que é eterno.
O Eclesiastes funciona como um exorcismo contra o materialismo existencial. Ele não oferece respostas fáceis. Ao contrário: ele mergulha o leitor na inquietação – mas com uma saída ao fundo da caverna. O livro não promete que tudo ficará bem. Ele promete que fora de Deus, tudo ficará definitivamente mal.
V – Eclesiastes, espelho escuro da alma
O Eclesiastes é um espelho – e ele não embeleza. Mostra o homem em sua nudez, em sua fadiga, em sua ilusão de eternidade. Mas ao fazer isso, prepara o coração para desejar algo que dure mais que o fôlego.
Salomão não escreve como Camus: ele não propõe que abracemos o absurdo. Ele escreve como um profeta disfarçado de cético: leva o leitor ao ponto de ruptura, para que ali clame pelo Verbo.
Na grande sinfonia das Escrituras, o Eclesiastes é o som do silêncio antes do Logos. É o vazio necessário para que a plenitude não seja desperdiçada.

Parte II – Eclesiastes e a pedagogia da fumaça
I – “Vaidade das vaidades”: o que realmente está sendo dito
A frase que abre o Eclesiastes é uma das mais citadas — e uma das mais mal compreendidas — de toda a Escritura:
“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.”
(Ec 1,2)
Mas o termo hebraico aqui usado – הֶבֶל (hevel) – não significa “vaidade” no sentido moderno de narcisismo, orgulho fútil ou frivolidade. Esse é um anacronismo. “Hevel” significa literalmente:
- vapor,
- sopro,
- névoa,
- fumaça que escapa entre os dedos.
Trata-se de uma imagem de impermanência, intangibilidade e ilusão aparente. Algo que parece substancial, mas se esvai ao ser tocado.
Logo, o que Salomão está dizendo não é que “tudo é fútil”, mas que tudo o que se vê “debaixo do sol” é transitório, inconsistente, incapaz de saciar a alma humana. Ele não nega que existam coisas belas, prazerosas ou até justas; ele afirma que nenhuma delas tem o poder de dar sentido ao todo da existência se forem tomadas como fins em si mesmas.
Essa distinção muda tudo. Hevel não é desprezo pelas coisas – é denúncia do seu engano como absolutos. E nesse ponto, Salomão se revela um mestre da crítica existencial antes de Kierkegaard, um teólogo do desespero antes de Pascal.
II – O Eclesiastes como literatura de sabedoria negativa
O Eclesiastes pertence ao chamado corpus sapiencial do Antigo Testamento. Mas se os Provérbios falam como um mestre gentil e o Livro da Sabedoria como um sacerdote, o Eclesiastes fala como um velho rei cansado, de olhar turvo, que fuma um cigarro no terraço do palácio e diz: “Você ainda quer ser feliz? Boa sorte.”
A estrutura do livro se desenvolve em forma de anti-sabedoria pedagógica: ele começa não com promessas, mas com desilusões. O trabalho é vão. O estudo é cansativo. O vinho enjoa. As mulheres não bastam. A velhice humilha. A morte nivela.
Mas essa não é uma filosofia da desesperança. É a exposição radical da miséria da criatura sem o Criador. A tradição cristã sempre soube disso.
Santo Agostinho, nos Comentários sobre os Salmos, interpreta o Eclesiastes como um convite à humildade espiritual:
“Deus permitiu que os homens sentissem o vazio das coisas para que desejassem o que não passa.”
Santo Tomás de Aquino, na Exposição sobre o Eclesiastes, afirma:
“Este livro pretende mostrar que todos os bens deste mundo são instáveis e insuficientes, a fim de que o homem busque os bens eternos.”
Ou seja: Salomão não está sendo cínico. Está sendo pedagogo.
Ele conduz o leitor como Sócrates conduz seus discípulos: por via da refutação. Derruba uma a uma as ilusões, para que reste apenas o essencial – o temor de Deus.
III – O tempo, a morte e a derrota da autossuficiência
O tema do tempo domina o Eclesiastes. Não é o tempo da história gloriosa, mas o tempo que consome:
“Há tempo de nascer e tempo de morrer… tempo de plantar e tempo de colher… tempo de chorar e tempo de rir.”
(Ec 3,1-8)
O tempo aqui não é redentor, mas um moinho, uma sequência mecânica que nivela tudo. Mesmo o sábio morre como o tolo. Mesmo o rei é esquecido. Essa meditação sobre o tempo e a morte antecipa, em chave hebraica, o drama trágico da modernidade: o sujeito que descobre que (atenção) a morte engole até os significados.
Mas ao contrário do existencialismo moderno, Salomão não sucumbe a essa constatação. Ele não a idolatra. Ele a ultrapassa.
Ele vê que a morte torna tudo “hevel”, sim – mas por isso mesmo, o homem deve buscar aquilo que a morte não pode devorar. E isso só existe acima do sol.
IV – Juízo, temor, eternidade
Depois de trinta páginas de desencanto, o autor finaliza com um corte cirúrgico:
“De tudo o que se ouviu, a conclusão é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos, porque isto é o dever de todo o homem. Pois Deus trará a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer boas, quer más.”
(Ec 12,13-14)
Aqui a fumaça se dissipa. O “hevel” que reinava como névoa é finalmente vencido pela luz do juízo divino.
Esse desfecho é crucial. Ele mostra que:
- A justiça existe, mas é escatológica, não terrena.
- O sentido existe, mas é transcendente, não imanente.
- A vida tem valor, mas só quando referida a Deus.
Portanto, o Eclesiastes não é niilismo, mas antídoto do niilismo. Não é revolta contra o absurdo, mas iluminação do absurdo pela esperança teológica. Como diria São Paulo:
“Se esperarmos em Cristo apenas nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens.”
(1Cor 15,19)
V – Conclusão: o rei, o sábio, o profeta
Salomão é uma figura trágica: teve sabedoria, mas também se desviou. Talvez por isso mesmo seu livro seja tão honesto, tão humano, tão implacável. Não é um tratado teórico, é um espelho. E ao contrário do espelho moderno, que adultera a imagem com filtros e luzes falsas, o espelho do Eclesiastes mostra o homem como ele é: frágil, cansado, mortal.
Mas também mostra onde está o escape.
Em última instância, Salomão prepara o terreno para o Logos: aquele que viria “acima do sol”, o Verbo eterno que dá sentido à vida, à morte, à história, ao tempo, à carne.
O Eclesiastes é o suspiro do mundo antes da Encarnação.
WALTER BIANCARDINE
___________
Walter Biancardine foi aluno de Olavo de Carvalho, é analista político, jornalista (Diário Cabofriense, Rede Lagos TV, Rádio Ondas Fm) e blogger; foi funcionário da OEA – Organização dos Estados Americanos.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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