Em Fevereiro dreste ano, o ContraCultura alertou para a hipótese, esquizofrénica mas provável, de que poderíamos chegar ao ponto de ter saudades de Olaf Scholz, considerando o sinistro perfil de Friedrich Merz. Confirmando a plausibilidade desse palpite, o recém-empossado chanceler alemão autorizou aquilo que o seu antecessor recusou licenciar, permitindo que a Ucrânia use armas alemãs em alvos localizados em todo o território russo.
Algo que, num mundo normal, seria uma declaração de guerra, pura e dura.
Numa iniciativa que assinala uma escalada dramática contra Moscovo, Merz também sinalizou que a autorização não se aplicará apenas às armas alemãs, mas também a outros sistemas de armas de países como a França e os Estados Unidos, embora Donald Trump ainda não se tenha pronunciado sobre essa possibilidade.
Numa publicação no X, Merz escreveu:
“Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para continuar a apoiar a Ucrânia. Isto também significa deixar de ter quaisquer restrições de alcance nas armas que fornecemos. A Ucrânia pode agora também defender-se atacando posições militares na Rússia”.
Anteriormente, Kiev só estava autorizada a utilizar estas armas contra as forças russas nos territórios ucranianos ocupados.
No “WDR Europaforum 2025”, em Berlim, Merz afirmou também:
“Já não existem restrições de alcance para as armas que foram entregues à Ucrânia, nem pelos britânicos, nem pelos franceses, nem por nós, nem pelos americanos”.
Há dois anos, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, descreveu como o envolvimento do Ocidente começou com o envio de capacetes e depois de tanques, para ilustrar como a Europa e os EUA estavam progressivamente a transformar um conflito regional num cenário apocalíptico de guerra total. As tensões nunca pararam de aumentar desde que Orbán lançou o seu aviso.
À medida que a guerra foi avançando, países como a Grã-Bretanha e a França forneceram sistemas de armamento avançados, incluindo mísseis de cruzeiro Storm Shadow e Scalp. A Alemanha tem vindo a debater a entrega dos seus mísseis de cruzeiro Taurus, que têm um alcance de 500 quilómetros, uma medida que Moscovo advertiu que tornaria a Alemanha parte directa do conflito.
Merz não mencionou explicitamente os mísseis Taurus na sua declaração, mas o seu antecessor, Olaf Scholz, recusou-se a fornecer à Ucrânia esse tipo de armas, receando uma forte escalada da guerra.
Esta mudança de política tem como pano de fundo os contínuos ataques russos a cidades ucranianas e a estagnação dos esforços de paz. Embora Merz tenha sublinhado que a Ucrânia não tem como alvo áreas civis – e deve manter essa distinção – salientou que um país incapaz de retaliar dentro do território do agressor não pode defender-se adequadamente.
A maioria dos alemães rejeita o envio de mísseis Taurus para a Ucrânia. No entanto, parece que os países ocidentais já estão a atacar activamente as forças russas. Relatórios de Novembro indicavam que a Ucrânia já tinha utilizado mísseis ATACMS de longo alcance dos EUA e mísseis de cruzeiro britânicos Storm Shadow contra alvos militares na Rússia.
Depois de ter declarado que quer transformar o Bundeswehr no “exército convencional mais forte da Europa”, Merz adverte agora que o Ocidente deve preparar-se para uma guerra prolongada, mesmo que os canais diplomáticos permaneçam abertos. Sugeriu que o Presidente russo vê as ofertas ocidentais de diálogo como um sinal de fraqueza, afirmando, risivelmente, que “ninguém pode agora culpar-nos seriamente por não termos esgotado todos os meios diplomáticos existentes”.
Ao mesmo tempo, o Presidente Donald Trump, no seu característico registo de espalha-brasas, tem-se mostrado cada vez mais irritado com Vladimir Putin, lançando recentemente uma crítica invulgarmente forte ao Presidente russo na sua plataforma Truth Social, descrevendo o chefe do Kremlin como “absolutamente louco”.
Isto embora Merz, que está a arriscar uma guerra com a Rússia, Starmer, que quer enviar tropas para o conflito, Macron, que se julga Napoleão, e o próprio Zelensky, que ainda na semana passada tentou assassinar Vladimir Putin, também não pareçam pessoas particularmente saudáveis do cérebro.
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