Dois agentes da polícia britânica estão a ser julgados por terem usado força excessiva contra um homem deficiente motor, de 92 anos, num lar de idosos em East Sussex. O incidente, que ocorreu a 21 de Junho de 2022, envolveu Donald Burgess, um reformado e amputado de uma perna, que na altura de encontrava sentado numa cadeira de rodas, e que ainda assim foi ameaçado com um bastão e agredido selvaticamente com gás pimenta e taser eléctrico, segundos depois de os agentes terem entrado no seu quarto.

O Tribunal da Coroa de Southwark registou que o agente Stephen Smith e a agente Rachel Comotto estavam a responder a uma chamada de emergência depois de os funcionários do lar terem informado que Burgess tinha espetado uma faca num prestador de cuidados. Os funcionários passaram 30 minutos a tentar acalmar o idoso, depois de este ter atirado comida e brandido uma pequena faca de manteiga, antes de chamarem a polícia.

Porque um tipo com uma perna só e mais de nove décadas de existência, condenado a uma cadeira de rodas e mergulhado em evidente demência senil, é o inimigo público número um.

A procuradoria, num ataque raro de lucidez, considerando a distopia britânica, alegou que os agentes usaram de força “injustificada e ilegal”. De acordo com as imagens da câmara de vigilância apresentadas em tribunal, o agente Smith lançou spray de pimenta directamente na cara de Burgess, tendo alegadamente esvaziado a lata. Momentos depois, Smith atingiu-o na mão com um bastão e Comotto accionou o seu taser, fazendo com que Burgess gritasse de dor.

O promotor Paul Jarvis  disse aos jurados que Burgess estava sentado na sua cadeira de rodas, segurando a faca, mas não representava uma ameaça imediata.

“Deveria ter sido óbvio, pelo facto de não ter uma perna, que se tratava de um homem que não ia ter mobilidade. Era um homem idoso e vulnerável que talvez não compreendesse o que se estava a passar. Em vez de ser recebido com compreensão e simpatia, foi confrontado com irritação e violência por parte dos arguidos”.

O tribunal foi informado de que os agentes não consultaram os funcionários do lar nem explicaram as suas acções a Burgess antes de darem as ordens. O agente Smith limitou-se a esta advertência:

“Quer pousar a faca, ou vai levar com um spray ou com um taser? São essas as opções.”

Burgess, que sofria de vários problemas de saúde, incluindo diabetes e doença da artéria carótida, foi levado para o hospital após o incidente. Mais tarde, terá contraído Covid no hospital e faleceu 22 dias depois. Ainda assim, o Ministério Público afirma que os agentes não estão a ser responsabilizados pela sua morte.

O chocante caso surge no meio de acusações de policiamento de dois níveis por parte da polícia britânica, com os cristãos, os conservadores e os brancos a receberem um tratamento menos complacente.