Esta é uma rubrica muito pessoal, que introduz a banda sonora de uma vida. Não há grandes regras a não ser a de seguir uma sequência (mais ou menos) cronológica, escolher não mais que um disco por banda ou autor e inserir não mais que um videoclipe por álbum, para que a coisa mantenha um tom adequadamente telegráfico.
Purple Rain – Prince and the Revolution

Fugazi – Marillion

To breach the dawn of the sentimental mercenary
– Fish –
38 anos passados, fico todo fritado só de pensar que “Purple Rain”, o anterior disco desta lista sem fim, foi editado exactamente no mesmo ano que “Fugazi”. São objectos antagónicos. Diacrónicos. Némesis um do outro como anti-fotocópias.
Os anos oitenta não existem.
Este disco é, antes de ser música, poesia. Fish escrevia como um profeta ensandecido e o que realmente sempre me pasmou é como é que a banda conseguia fazer música sobre estes versos enormes e caóticos, quase alexandrinos, grandiloquentes e pesadíssimas peças de mobiliário existencial; uma espécie de rap ao contrário.
Depois, claro, este disco é a sua própria progressão desenfreada e grandiosa. Nunca fui um doido por rock sinfónico, mas sou um doido pelo rock filarmónico dos Marillion, que é incapaz de dar seca seja a quem for, como uma banda militar sob o efeito de um cocktail de speed e LSD. Os temas de “Fugazi” desenrolam-se no sentido do triunfo e o triunfo está lá, sempre. Num apogeu de sintetizadores analógicos e guitarras heroicas.
A coisa toda é uma epopeia romana, decadente e ensopada em ácidos, que eu, muito simplesmente, amo de morrer. E digam o que disserem.
Heartbeat City – The Cars

Para além de tudo o mais, os Cars e este prodigioso “Heartbeat City” são testemunho de um fenómeno típico desta era, também presente nos dois discos anteriores: Até os músicos que perseguiam um ideal independente e alternativo, acabavam nos topos de vendas, entrando no maistream da indústria discográfica enquanto faziam tudo para fugir dos seus cânones.
Mas o melhor é largar a prosa e deixar que os The Cars façam a sua coisa maravilhosa.
____________
Mais discos desta discoteca.
Relacionados
15 Mai 26
Novas aventuras no GT7
ContraCorridas: Três corridas giras com finais felizes, em Nurburgring (à chuva e sob pressão) e em Tóquio (onde deves mostrar o samurai que há em ti); e um contra-relógio menos mau em La Sarthe (às escuras).
14 Abr 26
Músicas que ficam: a playlist provável.
Não há critério. Não há intenção. Não há aquela preocupação meio ridícula de parecer interessante. São só músicas que ficaram com a Silvana Lagoas.
10 Abr 26
Grunge ma non troppo: Pearl Jam, Bush e Red Hot Chili Peppers.
A Discoteca da Minha Vida #19: entre Seattle, Londres e Los Angeles, três bandas perigosas para a saúde mental, mas que rasgavam guitarras sem destruir a harmonia.
11 Mar 26
Louvor e Celebração d’Ofélia
Caminhas comigo pelos interstícios da noite com solene e fraterna alegria. E somos os dois, cadela e homem, apenas um bicho no fim da caminhada.
6 Mar 26
A dança do pó, no sobe e desce da Austrália.
ContraCorridas: Se é verdade que enquanto estás a andar de lado não andas para a frente, a gravilha do rali da Austrália aconselha a que se dê alguma liberdade à inércia. Mas nesta virtual dança do pó, é bom que saibas identificar os teus próprios limites.
28 Fev 26
Porque é que o tempo acelera, à medida que envelhecemos?
À medida que somamos primaveras, notamos que o tempo corre cada vez mais depressa. Richard Feynman, o Prémio Nobel da Física de 1965, explicou porquê, e deixou bons conselhos para combater esse vertiginoso processo.






