Esta é uma rubrica muito pessoal, que introduz a banda sonora de uma vida. Não há grandes regras a não ser a de seguir uma sequência (mais ou menos) cronológica, escolher não mais que um disco por banda ou autor e inserir não mais que um videoclipe por álbum, para que a coisa mantenha um tom adequadamente telegráfico.

 

Purple Rain – Prince and the Revolution

Tinha que ser, não é? Nunca simpatizei muito com ele, como estrelinha rock, para ser sincero, mas isso não quer dizer que o senhor Prince, ou lá como é que ele gostava de ser chamado, não mereça um lugar no inferno dos grandes artistas, porque merece completamente. “Purple Rain” é uma demonstração assombrosa de talento criativo e virtuosismo técnico que deixa qualquer um meio bêbado com meio vodka. O homem deve ter feito aqui um pacto com o diabo, ou assim. Canções eternas como “When Doves Cry”, “I Would Die 4 You” ou “Purple Rain” não se produzem como máscaras cirúrgicas e não se encontram por isso com abundância estatística na história universal das pedras rolantes. É preciso ter muito poder e balanço e vontade de seguir um caminho próprio. É preciso não ter medo de correr riscos e fazer dos riscos, profissão de fé. E depois é preciso, claro, génio. E este disco, é de génio. Next.

 

Fugazi – Marillion

Where are the prophets, where are the visionaries, where are the poets
To breach the dawn of the sentimental mercenary
– Fish –

38 anos passados, fico todo fritado só de pensar que “Purple Rain”, o anterior disco desta lista sem fim, foi editado exactamente no mesmo ano que “Fugazi”. São objectos antagónicos. Diacrónicos. Némesis um do outro como anti-fotocópias.
Os anos oitenta não existem.
Este disco é, antes de ser música, poesia. Fish escrevia como um profeta ensandecido e o que realmente sempre me pasmou é como é que a banda conseguia fazer música sobre estes versos enormes e caóticos, quase alexandrinos, grandiloquentes e pesadíssimas peças de mobiliário existencial; uma espécie de rap ao contrário.
Depois, claro, este disco é a sua própria progressão desenfreada e grandiosa. Nunca fui um doido por rock sinfónico, mas sou um doido pelo rock filarmónico dos Marillion, que é incapaz de dar seca seja a quem for, como uma banda militar sob o efeito de um cocktail de speed e LSD. Os temas de “Fugazi” desenrolam-se no sentido do triunfo e o triunfo está lá, sempre. Num apogeu de sintetizadores analógicos e guitarras heroicas.
A coisa toda é uma epopeia romana, decadente e ensopada em ácidos, que eu, muito simplesmente, amo de morrer. E digam o que disserem.

 

Heartbeat City – The Cars

Esta banda é tão de companhia da minha juventude que até é difícil escrever sobre o assunto. Neste disco especificamente, de 1984 (que escolho apenas por ser o mais sofisticado e aprazível, já que podia com a mesma paixão eleger outro álbum anterior), Os Cars conseguem fazer música electrónica sem se encostarem aos futurismos e às manias underground que estavam em voga do outro lado do Atântico, por esta altura. E conseguem fazer hard-rock sem serem confundidos com a miríade dos seus compatriotas que concomitantemente preenchiam as ondas radiofónicas da América. Se há banda que gostava de seguir o seu próprio trajecto, esta, liderada por um dos gandes heróis da história do pop rock – Rick Ocasek – é uma delas.
Para além de tudo o mais, os Cars e este prodigioso “Heartbeat City” são testemunho de um fenómeno típico desta era, também presente nos dois discos anteriores: Até os músicos que perseguiam um ideal independente e alternativo, acabavam nos topos de vendas, entrando no maistream da indústria discográfica enquanto faziam tudo para fugir dos seus cânones.
Mas o melhor é largar a prosa e deixar que os The Cars façam a sua coisa maravilhosa.

 

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