A russofobia, o belicismo globalista e a pressão da administração Trump para que os aliados europeus da NATO paguem a sua parte está a produzir resultados, talvez nefastos, já que o chanceler alemão Friedrich Merz prometeu a 14 de Maio transformar o Bundeswehr (Forças de Defesa Federal) no “exército convencional mais forte da Europa”.

Se o leitor sentiu um arrepio na coluna vertebral, é porque tem consciência, assertiva, de que um exército alemão dominador no contexto europeu já levou a duas guerras mundiais nos últimos 100 anos.

Falando ao Bundestag no seu primeiro grande discurso desde que assumiu o cargo, Merz creditou as exigências contundentes de Trump e apelou a que a Alemanha saia da sua “complacência” pós-Guerra Fria.

“Isto é apropriado para o país mais populoso e economicamente poderoso da Europa”, disse Merz aos legisladores, prometendo fornecer “todos os meios financeiros necessários” para reformar a Wehrmacht, perdão, a Bundeswehr, há muito subfinanciada. “Os nossos amigos e parceiros também esperam isso de nós. De facto, eles praticamente exigem-no”. Este aceno a Trump, que questionou o compromisso de Washington com a NATO, a menos que aliados como a Alemanha gastem mais, destaca a influência do Presidente americano em forçar a Europa a enfrentar as suas deficiências de segurança.

As forças armadas alemãs, ridicularizadas por equipamentos defeituosos, como helicópteros que não voam e artilharia que não dispara, padecem de atrofia histórica, por interdições à proficiência militar que resultaram do desenlace da Segunda Guerra Mundial e, posteriormente, por inércia e dependência quase exclusiva e praticamente gratuita da NATO. A promessa de Merz baseia-se na alocação de 100 mil milhões de euros do ex-chanceler Olaf Scholz em 2022 para cumprir a meta de gastos com defesa de 2% do PIB, mas a comissária parlamentar Eva Hoegl alertou recentemente que o Bundeswehr ainda tem “muito pouco de tudo”.

O plano de financiamento “bazuca” de Merz, no valor de centenas de milhares de milhões, visa inverter esta situação, com encomendas de submarinos de fabrico alemão já em curso – embora a entrega demore anos. Será também necessário que o Bundestag aprove uma revisão constitucional que permita um aumento da dívida pública para equipamento militar e infra-estruturas.

É claro que um dos argumentos de Merz para o rearmamento recai sobre alegadas ambições expansionistas da Rússia, que vão, na imaginação do chanceler, para além da Ucrânia:

“Quem acredita seriamente que a Rússia ficaria satisfeita com uma vitória sobre a Ucrânia… está enganado. A força dissuade os agressores, enquanto a fraqueza convida à agressão.”

Reafirmando o seu apoio à Ucrânia, o ex-executivo da BlackRock garantiu que a posição do seu governo será a de não combater directamente os russos:

“Não somos parte da guerra e não queremos ser uma”.

Para reforçar as tropas, Merz anunciou um “novo e atractivo serviço militar voluntário”, embora o ministro da Defesa, Boris Pistorius, tenha dado a entender que o serviço militar obrigatório poderá regressar se o número de voluntários for insuficiente. “Inicialmente, vamos contar com a participação voluntária”, disse Pistorius, sublinhando o “inicialmente” como uma ressalva deliberada.

Em Abril deste ano, o Bundeswehr anunciou que um destacamento militar alemão será em breve colocado na Lituânia para reforçar as defesas orientais da NATO, marcando uma mudança significativa na estratégia militar da Alemanha após a Segunda Guerra Mundial.