Esta é a hora do grande bardo. Direitinho das ruelas de Stratford-upon-Avon para a avenida da eternidade, o falecido senhor Shakespeare rebentou com a escala da glória e estes versos, algo reaccionários para a era actual (e por isso ainda mais gratos ao ContraCultura), retirados de “Much Ado About Nothing”, são uma delícia para os sentidos, até porque têm muita música pop lá dentro.
É claro que a versão proposta é livre como as musas, até porque o vernáculo de Shakespeare é, propositadamente, substituído por um registo contemporâneo, dado que o transformismo para a língua portuguesa foi pensado para se adaptar, como merece, à letra de uma canção.
Que William nos perdoe.
Original:
Sigh no more, ladies, sigh nor more;
Men were deceivers ever;
One foot in sea and one on shore,
To one thing constant never;
Then sigh not so,
But let them go,
And be you blithe and bonny;
Converting all your sounds of woe
Into “Hey nonny, nonny”.Sing no more ditties, sing no mo,
Or dumps so dull and heavy;
The fraud of men was ever so,
Since summer first was leavy.
Then sigh not so,
But let them go,
And be you blithe and bonny,
Converting all your sounds of woe
Into “Hey, nonny, nonny”.
Versão do Contra
Não, senhoras, não suspirem mais;
Os homens sempre foram diletantes;
Um pé no mar, outro no cais,
Nunca por coisa alguma constantes.
Chega enfim de suspirar,
É deixá-los andar
E com isso viver bem,
Trocando esses sons d’arrepiar
Por um “sim querido, tudo bem”.Não mais cantem esse lamento,
Tão deprimente e aborrecido;
O homem sempre foi fraudulento
Desde que o Verão primou florido.
Chega enfim de suspirar,
É deixá-los andar
E manter a graça no vai e vem;
Trocando esses sons d’arrepiar
Por um “sim querido, tudo bem”.
___________
Mais Variações do Contra:
A repetida recomendação de Charles Baudelaire, em português de tasca.
Elisabeth Bishop perde coisas e pessoas numa língua alienígena.
Li Bai e a poesia intraduzível.
Blake, Byron, o Tigre e a Lua, ou dois poemas na língua de Camões.
A Carga da Brigada Ligeira, em versão livre.
Joana Trama ou uma variação de Billie Jean.
Relacionados
25 Jul 26
A Odisseia Transformada em Manual de Instruções da Cultura Ocidental
É chegada a hora da civilização ocidental escapar à corrente da propaganda e ao pantanal das ideologias moralistas e ler Homero e a Bíblia como antropologias do conflito e não como cartilhas da submissão. Um ensaio de António Justo.
17 Jul 26
“Três Oito e Setenta e Cinco”: José Ricardo Nunes e a poesia de bolso.
Poetas Clandestinos da Literatura Portuguesa: “Três Oito e Setenta e Cinco” é um polaroide sensacionista, porque José Ricardo Nunes é um verdadeiro perito do instante. Mas a sua poesia, volátil como um livro de bolso, é um bom tratamento para as dores da comédia humana.
7 Jul 26
Tucídides e a Realpolitik.
A Universidade de Michael Sugrue #02: uma prelecção sobre o iniciático realismo de Tucídides, na "História da Guerra do Peloponeso".
6 Jun 26
A rainha das teorias da conspiração: Será Francis Bacon o verdadeiro autor da obra de Shakespeare?
A questão da autoria da obra de William Shakespeare tem intrigado estudiosos durante os últimos três séculos. E a tese de que terá sido Sir Francis Bacon o autor do legado primeiro da literatura de língua inglesa tem sólidos argumentos a seu favor. Um ensaio que os sistematiza.
8 Mar 26
Lobo Antunes morreu, mas vive no espelho da alma do país que deixou.
Com a morte de António Lobo Antunes, Portugal perde mais do que um escritor. Portugal perde o seu mais arguto intérprete. E a sua obra permanece como um aviso: a memória não se apaga e recalcamento não é solução. Uma elegia de António Justo.
16 Fev 26
Os Nus e os Mortos, de Norman Mailer: a desumanidade e a vulnerabilidade do homem-soldado.
Biblioteca do Contra: retrato graficamente contundente e perturbador da situação do homem comum quando submetido aos rigores do combate militar, este é o romance que pôs a América a pensar duas vezes sobre o entusiasmo com que entregava os seus filhos aos horrores da guerra.






