Este artigo merece um preâmbulo que o articule no contexto da desconfiança que o ContraCultura tem manifestado em relação à actual administração norte-americana.

Até à semana passada, a presidência de Donald Trump não mostrou tendência para cumprir a política externa que lhe foi mandatada eleitoralmente, que era a da paz e da não intervenção em acções de mudança de regime por esse mundo fora.

Seguindo tácticas duais, muitas vezes impensadas, em relação à guerra na Ucrânia, que expressam o conflito latente entre neocoms e populistas no seu executivo, Donald Trump tem adoptado também uma confusa e contraditória filosofia para o Médio Oriente, falando constantemente de paz enquanto cumpre a agenda sionista, chegando ao ponto de bombardear os Houthis, no Iémen, um dos países mais pobres do mundo, sem que esse ataque tenha trazido qualquer tipo de vantagem geo-estratégica para os Estados Unidos.

No que respeita ao Irão, o discurso tem sido também de tom imperialista, com veladas ameaças de intervenção militar, que seria catastrófica para a região e para a economia global, já nem especulando sobre a forma como a Rússia e a China reagiriam a um ataque americano ao seu aliado.

Na semana passada, porém, o registo da Casa Branca parece ter sofrido uma súbita viragem. Depois de despromover Mike Waltz, um dos falcões do seu gabinete, expedindo-o da posição de conselheiro de segurança para a diplomacia irrelevante das Nações Unidas, Donald Trump parece ter perdido a paciência com Benjamin Netanyahu e foi a Riade criar pontes que se podem manifestar realmente significativas no sentido da paz no Médio Oriente, enquanto deixou uma série de recados bem explícitos para o estabelecimento de Washington (e também para o seu próprio eleitorado, que se tem mostrado inquieto). Aparentemente, a era das guerras sem fim acabou, e o Presidente americano está a propor um negócio, como ele gosta: em vez de da guerra, a prosperidade.

Vamos consumir esta intenção confessada com um grão de sal.

Ainda assim, no palco da capital saudita, Trump abriu o The Saudi-US Investment Forum com um tributo ao seu amigo de longa data, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. O tom foi claro desde o início: não se tratava de diplomacia de rotina, mas antes do reforço de uma aliança profícua, que proporciona biliões em investimentos, acordos de paz históricos e uma posição unida contra o terrorismo.

 

 

Mas Trump não se ficou pela celebração de alianças, atacando sem subterfúgios as políticas globalistas que falharam na região durante décadas. Ao mesmo tempo que elogiou a transformação histórica da Arábia Saudita, emitiu uma repreensão contundente à mentalidade intervencionista que definiu a política dos EUA durante anos:

“É crucial que o mundo em geral saiba que esta grande transformação não veio de intervencionistas ocidentais ou de pessoas em belos aviões que vos dão lições sobre como viver e como governar os vossos próprios assuntos. Não, as maravilhas reluzentes de Riade e Abu Dhabi não foram criadas pelos chamados construtores de nações, pelos neoconservadores ou por organizações liberais sem fins lucrativos como as que gastaram triliões e triliões de dólares para não desenvolver Cabul, Bagdade e tantas outras cidades.”

Em vez disso, o magnata de Queens deu crédito às pessoas que construíram os seus países sem intervenção alheia:

“Foram as pessoas que estão aqui. As pessoas que viveram aqui toda a sua vida, desenvolvendo os seus próprios países soberanos, perseguindo as suas próprias visões únicas e traçando os seus próprios destinos à sua maneira.”

E garantiu que ninguém ficasse por entender o que pretendia dizer:

“No final, os chamados construtores de nações destruíram muito mais nações do que as que construíram e os intervencionistas estavam a intervir em sociedades complexas que eles próprios não compreendiam. Diziam como fazer, mas eles próprios não faziam ideia de como fazer.”

E a chave para o verdadeiro progresso?

“A paz, a prosperidade e o progresso não resultam de uma rejeição radical da vossa herança, mas sim de abraçarem as vossas tradições nacionais e abraçarem essa mesma herança que tanto amam”.

 

 

Depois veio o que é mais substantivo: Trump estendeu um inesperado ramo de oliveira a um dos mais antigos adversários dos Estados Unidos – o Irão.

“Estou aqui hoje não apenas para condenar o caos passado dos líderes iranianos, mas para lhes oferecer um novo caminho para um futuro muito melhor e mais esperançoso.”

Trump deixou claro que não guardava rancores. Tratava-se de dar ao Irão uma oportunidade de virar a página.

“Nunca acreditei em ter inimigos permanentes. Sou diferente do que muita gente pensa. Não gosto de inimigos permanentes. Como tenho demonstrado repetidamente, votei a favor do fim dos conflitos passados e da formação de novas parcerias para um mundo mais estável, mesmo que as nossas diferenças possam ser muito profundas, como é o caso do Irão.”

De seguida, a frase que fez a sala ficar em polvorosa:

“Quero fazer um acordo com o Irão.”

Mas e se o Irão escolher o terror em vez da paz? O inquilino da Casa Branca deixou bem claro o que estava em jogo e que preferia as ferramentas económicas aos argumentos militares:

“Não teremos outra escolha senão exercer uma pressão máxima, levar as exportações iranianas a zero, como fiz antes. Eles foram um país praticamente falido por causa do que eu fiz. Não tinham dinheiro para o terror, não tinham dinheiro para o Hamas ou para o Hezbollah.”

Seguiu-se uma garantia:

“O Irão nunca terá uma arma nuclear.”

A escolha que Donald Trump dá aos aiatolás é simples (e não implica bombardear casamentos e baptizados): Paz ou colapso económico.

 

 

Concluindo, Trump professou a sua vocação de pacificador:

“Como disse no meu discurso de tomada de posse, a minha maior esperança é ser um pacificador, um unificador. Não gosto de guerra.”

Dando o exemplo mais recente dos seus esforços em favor da paz, o presidente americano enfatizou o seu papel no acordo entre a Índia e o Paquistão que congelou as tensões da semana passada:

“Há poucos dias, a minha administração conseguiu mediar um cessar-fogo histórico para travar a escalada de violência entre a Índia e o Paquistão. Eu disse-lhes: ‘Amigos, vamos lá. Vamos fazer um acordo. Vamos fazer algumas trocas. Não vamos trocar mísseis nucleares, vamos trocar as coisas que vocês fazem tão bem’. Ambos têm líderes muito poderosos e fortes, bons líderes, líderes inteligentes. Tudo parou. Esperemos que continue a ser assim”.

 

 

A guerra é fácil. A paz requer coragem. Se estas palavras de facto compaginarem com actos, Donald Trump será lembrado no futuro como um estadista de referência. Caso contrário, será apenas mais um impostor.

A ver vamos.