Pouco mais de cem dias depois da tomada de posse, Donald Trump parece agora dominado completamente pelos falcões do seu gabinete, pelo aparelho industrial e militar americano e pelas almas condenadas do pântano de Washington, e dá até a sensação que objectiva um mandato que seja o mais parecido possível com aquele que o seu senil antecessor cumpriu, com os resultados que conhecemos.
Nos últimos dias, ficámos a saber que a Casa Branca, conformada com o insucesso espectacular das suas confusas, trapalhonas e irrealistas iniciativas de paz, cedeu para o lado do regime Zelensky, anunciando a intenção de decretar sanções “esmagadoras” sobre a Rússia e reiniciar a transferência de armas para a Ucrânia, desta vez “vendidas” em vez de entregues gratuitamente, enquanto o neocon Scott Bessent, o secretário do tesouro norte-americano e ex-gestor de fundos de George Soros, assinava um acordo de exploração mineira com Kiev, que só vai complicar ainda mais o cenário geo-político naquela região do mundo.
Depois de aturar a NATO durante 30 anos, Clinton, Bush e Obama durante 24 anos, Biden nos últimos 4 e os globalistas europeus durante 30, parece que Vladimir Putin vai ter também que aturar 4 anos do mais imbecil e desregrado trumpismo que podemos imaginar. Terá certamente que ser considerado para o Prémio Nobel da Máxima Pachorra.
A não ser que perca a paciência claro. Caso em que, talvez e por uma vez, alguém terá os testículos para desafiar a fanfarronice do magnata de Queens e as ilusões de grandeza do estabelecimento norte-americano.
Mas caindo na realidade: não há sanções que levem o Kremlin a abdicar dos seus objectivos militares na Ucrânia. Não há armamento ocidental que trave o avanço de Moscovo. E a única coisa que a Casa Branca vai conseguir com esta abstrusa iniciativa é matar mais ucranianos, protelar um desfecho que será sempre determinado pelos russos e perder a confiança de Putin, encostando a Rússia ainda mais à China.
O que é, para toda a gente com um neurónio a funcionar, o mais infeliz resultado da história universal dos erros geopolíticos.
É difícil ser-se assim tão estúpido. Mas Donald Trump, neste aspecto, nunca desilude.
E se somarmos a este desastre os planos fantasistas (e genocidas) desta administração para a faixa de Gaza, a obediência quase cega à agenda sionista, a fome que tem de fazer a guerra ao Irão e o amadorismo belicista com que está a lidar com a questão dos houthis no Iémen (já para não falar do caos económico que está a criar por todo o mundo), percebemos a escala monumental do descalabro.
Mas não é apenas na política externa que a actual Casa Branca tem falhado redondamente. A nível interno há todo um gordo dossier de fiascos.
Continuamos sem conhecer a lista de clientes de Jeffrey Epstein. Continuamos sem respostas para a montanha de perguntas que recaem sobre as duas tentativas de assassinato de que foi vítima o actual Presidente americano. Continuamos a saber o mesmo que já sabíamos sobre a morte de JFK. Continuamos sem uma justificação decente sobre o que aconteceu nos céus de New Jersey em Dezembro de 2024. Continuamos à espera que os cientistas e os burocratas e os empresários que cometeram crimes contra a humanidade durante a pandemia sejam levados à justiça. Continuamos na expectativa que o Pentágono cumpra efectivamente uma auditoria às suas contas. Continuamos na expectativa que os comissários que instrumentalizaram o Departamento de Justiça para perseguir o candidato republicano às presidenciais de 2024 sejam processados. Continuamos na expectativa que os crimes de corrupção da família Biden sejam procurados. Continuamos na expectativa que os pides do FBI, que perseguiram cristãos, prenderam jornalistas e intimidaram cidadãos dissidentes, sejam, pelo menos, despedidos. Continuamos na expectativa de que os responsáveis pelo infame processo levantado no Congresso e no Departamento de Justiça contra os manifestantes do 6 de Janeiro sejam julgados pelos seus crimes.
O Departamento de Justiça de Donald Trump, liderado por Pam Bondi, depois de Matt Gaetz ter servido de isco para consumo dos populistas e expiação dos neocons, tem sido uma desilusão imensa.
O FBI de Donald Trump, liderado por Kash Patel e Dan Bongino, homens em que eram depositadas legítimas expectativas de decência, integridade e eficiência, tem sido uma decepção de dimensões trágicas.
Depois de prometer mundos e fundos em cortes nas despesas públicas, desperdício e fraude, O DOGE não consegui mais afinal, do que poupar 150 biliões de dólares aos contribuintes norte-americanos (5% do orçamento do estado).
Mais a mais, o Pentágono vai bater todos os recordes de despesismo, com o presidente a pretender gastar um trilião de dólares por ano com as sua forças armadas.
Até o desmantelamento do braço financeiro da CIA, conhecido metaforicamente por USAID, está agora em causa, por pressão do estabelecimento republicano.
Contas feitas, percebemos que é muito provável que, em 2028, este mandato de Donald Trump apresente um saldo catastrófico e os democratas voltem a ter uma boa hipótese de regressar à Sala Oval, por incrível que possa parecer.
É por estas e por outras que mantenho uma afirmação que fiz há um ano – polémica, bem sei – mas que a cada dia se torna mais evidente: Os Estados Unidos da América, com Trump, sem Trump, serão sempre a principal ameaça à paz e à civilização; o verdadeiro ‘eixo do mal’.
E se a gentil audiência percepciona as críticas que faço como injustas e a minha análise como distante da realidade, aconselho a leitura integral deste post de Marjorie Taylor Green, a representante republicana pelo 14º distrito eleitoral do estado da Georgia, que é uma apoiante de Donald Trump de longa data.
I represent the base and when I’m frustrated and upset over the direction of things, you better be clear, the base is not happy.
I campaigned for no more foreign wars.
And now we are supposedly on the verge of going to war with Iran.
I don’t think we should be bombing foreign…
— Rep. Marjorie Taylor Greene🇺🇸 (@RepMTG) May 2, 2025
Paulo Hasse Paixão
Publisher . ContraCultura
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