O enorme corte de energia que causou prejuízos incalculáveis, materiais e humanos, na Europa está a ser atribuído a um par de avarias em centrais solares no sudoeste de Espanha.
A Red Eléctrica de España disse que identificou dois incidentes de perda de produção de energia no sudoeste de Espanha – envolvendo centrais solares – que causaram instabilidade no sistema de dsitribuição e contribuíram para uma quebra na sua interligação com França e Portugal.
O custo económico do apagão de segunda-feira em toda a Península Ibérica poderá variar entre 2,5 mil milhões e mais de 5 mil milhões de euros, segundo o banco de investimento RBC.
“Nunca tivemos um colapso total do sistema”, admitiu o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez num discurso televisivo na noite de segunda-feira.
As equipas de emergência em Espanha resgataram cerca de 35.000 passageiros na segunda-feira, que ficaram retidos nos caminhos-de-ferro e nos túneis subterrâneos dos metropolitanos.
Em Portugal, várias carruagens do metro de Lisboa foram evacuadas, os tribunais deixaram de funcionar e os ATM e os sistemas de pagamento eletrónico foram afectados. Os semáforos de Lisboa também deixaram de funcionar durante o corte de energia.
A polícia da Galiza, no noroeste de Espanha, está a investigar a morte de três pessoas na localidade de Taboadela, alegadamente após terem inalado monóxido de carbono. Trata-se, segundo uma porta-voz, “de um casal e do seu filho”, cujos corpos foram encontrados ontem de manhã no interior da sua casa. Os agentes da autoridade e os peritos forenses estão a investigar se a família morreu devido ao mau funcionamento de um gerador doméstico ou de um aparelho a combustível, mas é certo que o incidente está a ser associado ao colapso da rede eléctrica.
Uma mulher também morreu durante o apagão num incêndio provocado por uma vela, em Madrid.
Espanhola AEMET nega justificação da portuguesa REN.
Mais papista que o papa, A REN, a operadora da rede eléctrica em Portugal, decidiu inventar e descreveu o incidente de segunda-feira como um “fenómeno atmosférico raro”.
“Devido a variações extremas de temperatura no interior de Espanha, verificaram-se oscilações anómalas nas linhas de muito alta tensão, um fenómeno conhecido como vibração atmosférica induzida”, referiu a empresa. “Estas oscilações provocaram falhas de sincronização entre os sistemas eléctricos, levando a perturbações sucessivas em toda a rede europeia interligada”.
No entanto, na terça-feira, a agência meteorológica espanhola AEMET afirmou que não tinha detectado qualquer “fenómeno meteorológico ou atmosférico invulgar” na segunda-feira e que não foram registadas flutuações bruscas de temperatura nas suas estações meteorológicas.
Por seu lado o chefe de operações da Red Eléctrica, Eduardo Prieto, disse que a instabilidade no sistema causou a separação da interconexão eléctrica espanhola e francesa através das montanhas dos Pirenéus, levando a uma falha no lado espanhol. A própria empresa que gere a rede eléctrica em Espanha contrariou a sua congénere portuguesa, adiantando que essa instabilidade decorreu de falhas nas centrais de energia solar.
A estratégia de Sánchez para ganhar tempo e evitar a responsabilidade pelo apagão.
Em 2022, Pedro Sánchez defendeu o fecho das centrais nucleares espanholas e afirmou que não haveria apagões em Espanha, acusando a “direita” e a “extrema-direita” de alimentarem essa possibilidade. Mais de 24 horas após o início do apagão, o primeiro-ministro leninista-globalista ainda não explicou as causas, não quis descartar a teoria da conspiração de um ciberataque e apontou o dedo aos “operadores privados”, o que é indicador da estratégia do governo para evitar a sua responsabilidade neste grave acontecimento.
Apesar das declarações de Sánchez, ontem de manhã, a Red Eléctrica, descartou a possibilidade de um ciberataque, pela voz do director dos Serviços de Exploração, Eduardo Prieto:
“Desde ontem, contamos com a colaboração do Incibe [Instituto Nacional de Cibersegurança], do CNI [Centro Nacional de Inteligência] e, esta manhã, pudemos concluir que não houve, de facto, qualquer tipo de intrusão nos sistemas de controlo da Red Eléctrica que pudesse ter provocado o incidente.”
Por que razão Sánchez não exclui a hipótese de um ataque informático? Porque a outra possibilidade deixaria o Governo numa péssima posição. De facto, embora o primeiro-ministro aponte para os “operadores privados” e afirme que os responsabilizará, a gestão do fornecimento de electricidade em Espanha depende da Red Eléctrica de España, na qual o Estado detém uma participação de 20% através da SEPI (Sociedade Estatal de Participações Industriais).
O presidente da Red Eléctrica foi nomeado pelo governo de Sánchez em Fevereiro de 2020. Para o cargo, foi escolhida Beatriz Corredor, membro do executivo do PSOE na altura da sua nomeação e que foi Ministra da Habitação durante o governo socialista de Zapatero. A Red Eléctrica é uma das muitas empresas colonizadas pelo PSOE, que se tornou uma verdadeira agência de colocação de dirigentes socialistas em instituições e empresas controladas pelo Estado.
É de salientar que a Red Eléctrica foi avisada de que isto poderia acontecer. Em Fevereiro de 2025, a Ernst & Young auditou esta empresa, alertando que o processo de encerramento de centrais nucleares e transição para energias renováveis por decisão política do governo de Sánchez traria
“Maior dificuldade na operação do sistema: redução da potência firme e das capacidades de compensação e maior risco de incidentes operacionais que podem afectar o fornecimento.”
Perante a controvérsia em torno deste relatório, a Red Eléctrica publicou uma mensagem no Twitter, a 9 de Abril, afirmando:
“Não há risco de apagão. A Red Eléctrica garante o fornecimento”.
Como agora sabemos, a empresa não estava em condições de garantir coisa nenhuma.
El informe anual financiero de @RedElectricaREE, realizado por Ernst & Young, reconoce riesgo de apagones en España tras el cierre nuclear.
«Mayor dificultad en la operación del sistema: reducción de potencia firme y capacidades de balance y mayor riesgo de incidentes la… pic.twitter.com/13WGJf74va
— Operador Nuclear (@OperadorNuclear) April 10, 2025
Pressionado pela opinião pública interna e pelos governos franceses e portugueses, Sánchez tenta agora ganhar tempo até que o assunto deixe de ser discutido, prometendo uma comissão de inquérito “independente” (mas controlada pelo governo) e apontando o dedo aos “operadores privados” para que a responsabilidade pela Red Eléctrica não recaia sobre o actual executivo, que foi quem colocou uma activista socialista à frente da empresa e quem decidiu fechar centrais nucleares e deixar a rede entregue à produção por centrais de energias renováveis, instáveis e deficitárias. A estratégia pode servir para evitar problemas a Sánchez, mas não para impedir que o apagão se repita, uma possibilidade que já não pode ser excluída depois do que aconteceu na segunda-feira e da falta de explicações do Governo espanhol a este respeito.
Mais a mais, Sánchez voltou ontem a criticar as centrais nucleares, afirmando que “são um problema”, mas este apagão não foi sofrido pela França, que tem 56 centrais nucleares, nem pela Coreia do Sul (25), nem pelos EUA (93), nem pelo Canadá (19), mas sim pela Espanha, que tem 7 e está em vias de as encerrar. De facto, a falta de resposta das poucas centrais nucleares espanholas ao apagão de ontem deve-se ao próprio governo. A energia nuclear representa apenas 7% da produção, quando o normal seria cerca de 20%.
Temos, portanto, o ingrediente essencial para que o apagão se repita: um governo que coloca a sua ideologia acima da realidade e que se recusa a resolver os problemas de abastecimento de eletricidade com um mínimo de sanidade, obcecado em encerrar centrais nucleares, mesmo depois da mais grave das ocorrências.
O professor Miguel de Simón Martín, da Universidade de León, salientou que a passagem para as fontes renováveis está a “transformar radicalmente o perfil da produção em Espanha”. No final de 2024, as energias renováveis já representavam 66% da capacidade instalada e produziam 59% da electricidade produzida. A energia eólica e solar são as principais fontes.
A este propósito, Martín afirmou:
“Ao contrário dos geradores hidroeléctricos ou térmicos, os sistemas eólicos e fotovoltaicos não têm inércia, uma vez que estão ligados à rede através de electrónica de potência (inversores). Esta caraterística significa que quanto maior for a penetração das renováveis, menor será a robustez da rede. Consequentemente, com uma baixa capacidade de interligação e uma elevada percentagem de produção renovável baseada em inversores, a nossa rede é hoje mais vulnerável e tem menos espaço para reagir a perturbações.”
Mas a voz do professor clama no deserto. A ideologia é muito mais poderosa que a razão, na Europa dos tempos que correm.
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