“A guerra não é mais do que uma continuação da política por outros meios.”
Carl von Clausewitz

 

No Livro I da sua obra intemporal Da Guerra, Carl von Clausewitz procura definir o que é a guerra. O general prussiano aborda o problema da definição de duas maneiras distintas: de baixo para cima, centrando-se na actividade prática da guerra, nomeadamente combater e matar; e de cima para baixo, começando por imaginar a guerra na sua forma mais teórica e abstrata.

Este artigo não é uma recensão sobre a totalidade da obra de Clausewitz, mas apenas sobre este esforço de classificar, definir e limitar aquilo que parece uma questão básica – o que é a guerra? – mas que, como veremos, está longe de ter uma resposta simples.

 

A guerra como combate.

Clausewitz vai directamente ao cerne da questão, afirmando que “a guerra não é mais do que um duelo numa escala maior” – uma disputa física entre pessoas, cada uma utilizando a força “para obrigar o nosso inimigo a fazer a nossa vontade”. E “só há um meio na guerra: o combate” (das Gefecht). Na sua essência, “a guerra é lutar”, é o derramamento de sangue que faz da guerra “uma actividade especial, diferente e separada de qualquer outra exercida pelo homem”.

O foco no combate é sustentado. Da Guerra tem mais de 600 referências à batalha (Schlacht – que também significa massacre em alemão). Clausewitz não foi um teórico de poltrona, já que esteve activamente envolvido em combate em pelo menos 20 ocasiões entre 1793 e 1815, e recebeu um ferimento de baioneta na cabeça em Maio de 1813. Nem outra coisa seria de esperar de um oficial da Prússia, espécie de Esparta do século XIX.

Obviamente, Clausewitz não equipara todos os combates à guerra. A luta livre pode ser “um tipo de luta” mas não é guerra. Ele também não inclui na sua definição os assassínios, as lutas de gangs, os motins, os massacres de civis e outros actos semelhantes. Os seres humanos lutam e matam-se uns aos outros de muitas maneiras e por muitas razões, sem que isso constitua necessariamente uma “guerra”. A guerra, insiste Clausewitz, deve ser “um meio sério para um fim sério.” E implica dois requisitos.

Primeiro, a guerra implica “um choque entre interesses importantes”. Para Clausewitz, são os interesses dos estados que constituem esse “fim sério”. Os indivíduos e os grupos que não são Estados normalmente não fazem a guerra. Em segundo lugar, os “meios sérios” referem-se à luta travada por soldados como parte da organização militar de um estado. O combate, diz Clausewitz, “não é uma disputa entre indivíduos”, mas entre soldados que são “recrutados, vestidos, armados e treinados” para serem capazes de “lutar no sítio certo e no momento certo”. A maior parte das referências a combates em Da Guerra são sobre confrontos entre exércitos nacionais sob o comando de um estado.

Mas Clausewitz reconhecia que a guerra podia ser mais complexa. Ele tinha conhecimento das particularidades da Guerra da Independência Americana, quando forças irregulares desempenharam um papel significativo na derrota dos britânicos, embora não mencione o conflito na sua obra. Conhecia melhor a revolta da Vendeia, em que camponeses armados com ferramentas agrícolas lutaram contra o regime revolucionário francês de 1793-96. E estava muito familiarizado com as guerras napoleónicas da Península Ibérica, onde o exército de Napoleão lutou contra uma combinação de milícias, tropas irregulares e os exércitos de Inglaterra, Portugal e Espanha. Claramente, a guerra podia abranger outros combatentes para além dos soldados regulares devidamente uniformizados e equipados.

O que mais interessava a Clausewitz nestas guerras eram as tácticas empregues, nomeadamente a utilização de forças móveis, muitas vezes pouco armadas, para assediar os soldados inimigos, atacar pontos fracos ou recolher informações. Estas tácticas eram frequentemente preferidas por insurgentes incapazes de recrutar grandes exércitos regulares ou de montar grandes ataques. Tal como outros antes dele, Clausewitz reconheceu que os exércitos permanentes também podiam empregar algumas destas tácticas. Hoje em dia, estas tácticas podem ser designadas por “operações especiais”, mas na altura eram conhecidas por guerrilha ou “pequena guerra”. Enquanto esteve colocado na Escola Superior de Guerra em Berlim, em 1810-11, o autor deu uma série de palestras sobre o que designou por “pequena guerra” (Kleinkrieg).

Mas o que ele não contemplou foi a possibilidade de a guerra ser conduzida apenas por insurrectos ou grupos não estatais, com partisans e forças irregulares a empregarem tácticas de “pequena guerra”. Ele não previu que esses grupos pudessem expulsar uma potência ocupante ou derrotar forças regulares, apoiando-se no nacionalismo e/ou na ideologia, simplesmente através da utilização sustentada de métodos de guerra irregulares. Por exemplo, Clausewitz acreditava que o destino da Espanha e de Portugal seria determinado principalmente pelos exércitos da Inglaterra e da França.

Ao mesmo tempo, Clausewitz compreendia a importância de os governos mobilizarem o apoio e a participação popular na guerra. Napoleão tinha feito isto com um sucesso espetacular e Clausewitz, profundamente impressionado, instou a Prússia a seguir o exemplo, após a sua humilhação pelo exército francês em Jena, em 1806. Clausewitz defendeu aquilo a que chamou guerra popular (Volkskrieg) ainda com mais vigor depois de a Prússia ter sido forçada a juntar-se à invasão da Rússia por Napoleão, em 1812. Para Clausewitz, a guerra popular era acima de tudo um meio de fortalecer as forças de combate de uma nação, tanto material como psicologicamente, e não uma forma autónoma de guerra.

 

A guerra pura.

No outro extremo do espectro da dura realidade do combate está a ideia de guerra pura. Para Clausewitz, esta é uma guerra livre de qualquer constrangimento ou limitação. Refere-se sobretudo à absoluter Krieg, que é melhor traduzida como “guerra pura”, seguindo a prática de Kant de identificar a essência não adulterada de um conceito ou actividade. Ao admirar os triunfos militares de Napoleão, o autor observa que “com os nossos próprios olhos vimos a guerra atingir este estado de perfeição absoluta”.

Em termos estritos, porém, a ideia de “guerra pura” significa despojar a guerra de todas as suas contigências do mundo real e do seu contexto económico, social e político. Trata-se da guerra em abstracto, sem a sua dinâmica normal, como a interacção estratégica, a logística e a fricção. É, portanto, “um acto totalmente isolado, que ocorre subitamente e não é produzido por acontecimentos anteriores no mundo político”. É simplesmente uma colisão – “um choque de forças que actuam livremente e que não obedecem a nenhuma lei senão a sua própria”.

Clausewitz salienta que tal cenário é uma “fantasia lógica” e que nunca pode ocorrer no mundo real. Para compreender a guerra real é necessário passar do conceito para a realidade, onde “tudo parece bastante diferente” e muito mais complexo.

 

A guerra real.

Primeiro, temos de substituir entidades abstractas por seres humanos e organizações reais com todas as suas emoções, limitações, variedade e imprevisibilidade. A guerra não é uma colisão entre objectos inanimados, mas “sempre a colisão de duas forças vivas”.

Em segundo lugar, na guerra real, a interacção entre combatentes ocorre durante um período de tempo determinado. Aos níveis tático, estratégico e nacional, cada lado responde às acções do outro, avaliando as suas opções à luz de possíveis reacções. Os beligerantes baseiam-se em informações e juízos, mas estes variam muito em termos de qualidade e fiabilidade. Além disso, os objectivos dos Estados beligerantes serão influenciados pelo desenrolar da guerra. A guerra real é um complexo de interacções, com múltiplas camadas e frequentemente imprevisível.

Em terceiro lugar, a complexidade da guerra real é evidente naquilo a que Clausewitz chama uma “trindade notável” [wunderliche dreifaltigkeit] de paixão, razão e acaso que está subjacente à guerra (e, poder-se-ia acrescentar, a toda a actividade humana). A paixão da guerra é a “violência primordial, o ódio e a inimizade” que motivam as pessoas a lutar. A razão da guerra é o cálculo dos meios para atingir os fins e a avaliação dos custos e benefícios.

Por fim, o acaso e a incerteza assolam todo o empreendimento. Esta trindade profana varia não só de guerra para guerra, mas também no curso de cada guerra.

 

A função da guerra.

Clausewitz também procura definir a guerra pela sua função nos assuntos humanos: “o que é que ela faz?” em vez de “o que é que ela é?”. A sua resposta tem dois elementos que se fundem na palavra alemã Politik. Esta palavra refere-se tanto aos objectivos e ambições dos Estados individuais, como ao funcionamento da interacção humana em grande escala.

 

 

A guerra como instrumento de política.

Esta é a descrição mais conhecida de Clausewitz sobre a função da guerra, apesar de pensadores anteriores também terem especulado neste sentido: “A guerra ocorre quando os Estados procuram objectivos que colidem com os objectivos de outros Estados e optam por persegui-los através de meios violentos.” A decisão de utilizar a força deve ser mútua. Como Clausewitz observa ironicamente, as guerras começam efectivamente quando o defensor decide lutar, em vez de se render simplesmente ao agressor. Ambos assumem a guerra como um meio para atingir fins diferentes.

A principal ideia de Clausewitz é que a política – que tem origem numa combinação de paixão e razão – não deixa de existir quando a guerra começa, mas sim durante todo o curso das hostilidades. Explica não só os motivos da guerra e os objectivos fixados, mas também o grau de esforço dos beligerantes. Na sua expressão mais simples: “a guerra não é mais do que uma continuação da política por outros meios”. É, portanto, “apenas um ramo da actividade política em nenhum sentido autónomo”.

Algumas guerras têm objectivos ambiciosos, suscitam grandes esforços e causam grandes destruições; outras procuram apenas vantagens marginais e mostram pouco “espírito hostil”. Uma guerra pode começar como uma tipologia mas passar para o outra. Pode ocorrer uma escalada nas hostilidades, uma vez que a guerra contém uma tendência inerente para cada lado aumentar o seu esforço a fim de ultrapassar o outro, o que leva a uma subida aos “extremos”. Alternativamente, as ambições podem diminuir e os custos podem aumentar, de modo a que a guerra se torne “nada mais do que neutralidade armada”.

A posição de Clausewitz aqui não é que a guerra seja necessariamente um instrumento de política, mas sim que deve ser tratada como um instrumento de política. Ele reconhece que esta não é uma tarefa fácil. Um governo pode estabelecer objectivos sensatos ou insensatos – isto são questões de política. Mas quaisquer que sejam os seus objectivos, deve procurar constantemente compreender o que a guerra pode e não pode alcançar e os custos e riscos envolvidos.

 

A guerra como parte da sociedade humana.

Uma segunda função da guerra encontra-se na afirmação de Clausewitz de que a guerra é “parte da existência social do homem”. É inerente ao sistema de Estados que surgiu por volta de 1500 e que se cristalizou no tratado de Vestefália. Uma vez que a guerra não pode ser erradicada dos assuntos humanos, um Estado deve estar preparado para lutar a fim de defender os seus interesses, a sua honra e até a sua sobrevivência. As alianças e o equilíbrio de poder (em grande parte militar) entre os Estados são também factores críticos para a segurança, tópicos a que Clausewitz dedica uma atenção considerável. Ele adverte, por exemplo, que nunca se pode confiar plenamente nos aliados, uma vez que eles acabarão por perseguir os seus próprios interesses.

Neste contexto, Clausewitz vê a função da guerra como a de resolver disputas: a guerra é assim um “choque entre grandes interesses, que é resolvido pelo derramamento de sangue” (sich blutig löst). Como é que isto se faz? O método mais simples é desarmar o inimigo para para o impedir de impor a sua vontade. Mais complexo é o uso e a ameaça da força, de modo a que o adversário opte, mais cedo ou mais tarde, pela aquiescência em vez da resistência.

No entanto, se a guerra tem a promessa de resolver conflitos, raramente produz resultados permanentes – como Clausewitz reconhece. Mesmo uma vitória decisiva pode acabar por ser um triunfo passageiro, enquanto a derrota pode revelar-se “um mal transitório” para os derrotados. A “catástrofe” da Prússia em Jena, em 1806, está claramente na mente do autor. Qualquer Estado que se preze procurará formas de restaurar a sua honra e independência. A guerra não pode garantir soluções, apenas que as coisas serão diferentes.

 

A Guerra Moderna e o Estado Moderno.

O entendimento de Clausewitz sobre a guerra foi desenvolvido no contexto do Estado moderno que surgiu na Europa por volta de 1500. Havia muitos factores em jogo: uma maior ordem interna, uma administração mais eficiente que facilitava a cobrança de impostos e o recrutamento de cidadãos, o crescimento do comércio internacional e os avanços tecnológicos, tanto civis como militares. O Iluminismo também encorajou uma maior fé na razão como guia para os assuntos humanos.

Os Estados europeus deixaram de se sentir ameaçados pelos bárbaros fora dos seus portões, embora continuassem a recear a guerra entre si. Mas estes Estados em vias de modernização expectavam que a guerra, se não pudesse ser evitada, pudesse ser mais civilizada. Os exércitos europeus estavam lentamente a tornar-se mais disciplinados, mais instruídos e mais profissionais no exercício da violência. Foram também desenvolvidos esforços, nem sempre bem sucedidos, para poupar a vida civil aos combates, em parte por razões humanitárias, em parte para evitar perturbações económicas e em parte para reflectir os códigos de honra militares. A expansão dos contactos diplomáticos significava que os Estados sabiam mais sobre o mundo exterior e podiam avaliar melhor os seus verdadeiros interesses. O recurso à guerra prometia ser mais racional e a condução das hostilidades mais controlável.

Estas mudanças estão em sintonia com a opinião de Clausewitz de que a guerra reflecte as “condições sociais” dentro dos Estados e as relações entre eles. Assim, a guerra conduzida por Estados civilizados difere da guerra travada por povos “não civilizados”. Os guerreiros primitivos, acreditava Clausewitz, não conheciam a limitação ou a contenção. Eles matavam prisioneiros e destruíam cidades sem qualquer outra razão que não fosse a vingança ou a crueldade arbitrária. Sem um objectivo político e sem um controlo racional, as suas “guerras” são movidas por puro ódio. Em contrapartida, as guerras entre “nações civilizadas” são “muito menos cruéis e destrutivas do que as guerras entre selvagens”. A razão simples é que “os povos selvagens são governados pela paixão, os povos civilizados pela mente”.

Acontecimentos futuros que o autor não podia prever revelaram esta tese errada, no entanto, Clausewitz está longe de dizer que a guerra moderna não é bárbara e sanguinária. “Mesmo os povos mais civilizados”, reconhece ele, ‘podem ser inflamados por um ódio apaixonado uns pelos outros’. Ele tem pouco tempo para as leis da guerra: o seu efeito na condução da guerra é “impercetível” e “quase não vale a pena mencionar”. O humanitarismo na guerra é pura loucura: convida um inimigo “com uma espada afiada a cortar-nos os braços”. Se há algum constrangimento na guerra é através da razão que pode ser encontrada no elemento político. Igualmente importante é o conceito de honra militar que exige, entre outras coisas, o tratamento justo dos prisioneiros e a preservação dos não-combatentes. Embora Clausewitz pouco diga explicitamente sobre este tema, ele está subjacente a grande parte do seu pensamento sobre a sua profissão.

 

A mudança na face da guerra.

Como é que o entendimento de Clausewitz sobre a guerra se tem mantido no mundo contemporâneo? É relevante para os muitos conflitos internos que ocorreram desde 1945? Ter-se-á adaptado à era atómica, em que o recurso a armas nucleares pode resultar na aniquilação mútua? Será que, em última análise, está errada ao promover a ideia de que a guerra pode ser um instrumento de política e não uma expressão da cultura ou da natureza humana?

 

Guerra anti-moderna.

É claro que os combates entre grupos que não são Estados já existiam muito antes da era moderna, continuaram a existir e continuarão sem dúvida a existir no futuro. A ferocidade da vontade e a improvisação permitem frequentemente que esses guerreiros triunfem com pouco planeamento ou controlo, como é o caso dos Houthis no Iémen. Os líderes dos grupos armados podem ser pouco mais do que bandidos ou senhores da guerra com grandes ambições pessoais.

A capacidade dos actores não estatais para pegarem em armas aumentou enormemente nas últimas décadas. As armas são mais acessíveis, mais variadas e mais destrutivas. Os ataques violentos podem ser levados a cabo com relativa facilidade dentro dos Estados ou através das fronteiras internacionais. A força pode ser utilizada contra qualquer alvo e por qualquer causa. Este tipo de combate apresenta caraterísticas que são a antítese do que Clausewitz considerava ser a guerra moderna e pode ser rotulado de “anti-moderno” (em vez de pré-moderno ou pós-moderno).

Nem toda essa violência tem escala e alcance suficientes para justificar o termo “guerra”. Onde é que se deve traçar a linha? Para Clausewitz, como vimos, a guerra requer o choque de “grandes interesses”. O que aconteceu desde 1945 é que a ideia de “grandes interesses” foi alargada. Antes da Segunda Guerra Mundial, a opinião geral era que “guerra” significava um conflito entre dois Estados ou, pelo menos, entidades que se assemelhavam a Estados – como na Guerra Civil Americana. No entanto, após 1945, aumentaram as pressões no sentido de aplicar o termo “guerra” a um leque mais vasto de conflitos, o que se tornou mais evidente no que respeita às leis da guerra.

Em 1977, os Protocolos Adicionais às Convenções de Genebra alargaram a sua cobertura às hostilidades dirigidas contra o domínio colonial, a ocupação estrangeira e regimes vistos como inconvenientes ou ameaçadores (como na África do Sul de administração branca no fim do Século XX ou a Rússia e a Síria, actualmente). A exigência de exércitos uniformizados foi alterada para grupos armados organizados e sob comando responsável; o âmbito das hostilidades foi alargado a situações em que os beligerantes exerciam controlo sobre o território de forma a poderem levar a cabo “operações militares sustentadas e concertadas”; e os “combatentes” não precisam de usar uniformes, mas devem transportar armas abertamente enquanto se preparam para uma acção militar e durante a mesma. Significativamente, o termo “conflito armado” substituiu “guerra” com a sua conotação orientada para o Estado.

Clausewitz não estava interessado em definições legalistas de guerra e talvez aprovasse a adopção de medidas mais ou menos objectivas para determinar se a “guerra” existia. É bem possível que Clausewitz reconhecesse como guerra certas lutas armadas em que existe um objectivo político claro, como o derrube de um governo opressivo ou a garantia de independência de uma potência imperial; em que existe um certo controlo central sobre a utilização da violência; e em que os combatentes podem usar uma espécie de uniforme e assemelhar-se de alguma forma a um exército moderno. Até este ponto, a “guerra” de Clausewitz mantém a sua relevância.

O ponto em que Clausewitz traçaria a linha é onde a actual lei dos conflitos armados se detém. Os combates não podem ser reconhecidos como guerra quando os combatentes recorrem a tácticas e escolhem alvos que são essencialmente civis e não militares; quando os seus ataques são de pequena escala e não fazem parte de uma campanha mais vasta; quando não têm controlo central; e quando não há perspectivas de sucesso. Nestes casos, é provável que os governos os tratem como criminosos e não como inimigos com os quais se pode conseguir uma resolução do conflito, seja pela força, pela negociação ou por uma combinação de ambos.

Voltando ao exemplo dos Houthis, é por isso que Donald Trump bombardeou o Iémen sem declarar guerra ao país da Península Arábica.

 

Guerra hiper-moderna.

Em 1945, as exigências da guerra moderna e os avanços científicos e tecnológicos levaram à criação de armas de destruição massiva capazes de aniquilar cidades inteiras num instante. Pouco depois, foram desenvolvidos mísseis que podiam lançar armas nucleares em qualquer parte do globo numa questão de horas ou mesmo de minutos. A guerra moderna parecia ter ultrapassado os seus limites naturais – era agora “hiper-moderna”. Muito provavelmente, numa guerra nuclear não haverá sequer combate entre soldados, nem campanhas, nem direcção política de um esforço nacional sustentado. Assemelhar-se-ia à “guerra pura” imaginária de Clausewitz: “um acto isolado”, que assumiria a forma de “um único golpe curto” com armas já existentes, e que se revelaria “decisivo” com um resultado final claro.

Os estrategas da segunda metade do século XX mostraram-se divididos quanto à relevância da visão de Clausewitz sobre a guerra. Alguns argumentavam que a guerra nuclear nunca poderia servir como um instrumento de política, uma vez que era provável que escapasse ao controlo dos governos e que o custo de uma troca nuclear seria desproporcionado em relação a qualquer objectivo razoável. Além disso, mesmo uma ameaça tácita de ataque nuclear poderia levar o inimigo a entrar em pânico e a atacar primeiro. Outros, no entanto, afirmavam que as advertências de Clausewitz sobre a guerra como instrumento de política eram agora ainda mais importantes: não dar o primeiro passo sem considerar o último, os meios devem ser adaptados aos fins, as guerras têm uma tendência natural para a escalada e o controlo político deve ser mantido em todas as circunstâncias.

Deste debate emergiu o consenso de que o papel da estratégia nuclear não era o de fazer a guerra, mas sim o de evitá-la – convencendo qualquer adversário de que não ganharia nada e talvez perdesse tudo se iniciasse a utilização de armas nucleares. O termo “Guerra Fria” passou a definir uma situação em que as ameaças – explícitas e implícitas – eram geridas entre as potências nucleares. As causas mais prováveis de uma guerra nuclear eram acidentes ou mal-entendidos e não decisões deliberadas.

Algumas destas ideias poderiam ter sido perfeitamente compreendidas por Clausewitz. Mas ele teria certamente achado estranhas as estratégias nacionais que visavam sobretudo dissuadir a guerra, em vez de se prepararem efectivamente para a combater. A ideia de que a estratégia poderia deliberadamente abandonar a racionalidade com ameaças que “deixam algo ao acaso” (na formulação de Thomas Schelling) também teria sido preocupante. Além disso, os debates sobre a estratégia nuclear careceriam de exemplos históricos que pudessem servir de orientação. Tal como a ideia de guerra pura, a estratégia nuclear poderia parecer desligada do mundo real, “uma espécie de guerra por álgebra”.

 

Instrumento de política?

Clausewitz é também criticado por aqueles que afirmam que ele não tem em conta os factores fundamentais da guerra. É verdade que ele aborda a guerra do lado da procura, como algo que os Estados necessitam para os seus objectivos. E que diz pouco sobre o lado da oferta da guerra, sobre a razão pela qual os grupos, incluindo os Estados, podem ver a guerra como valiosa em si mesma e não apenas como um meio para atingir um fim. Embora Clausewitz reconheça que o ódio pode existir entre os povos, os críticos argumentam que a guerra tem origem em factores mais profundos que minam a noção da guerra como um simples instrumento racional de política.

Por exemplo, a actual posição dos líderes globalistas europeus, que parecem ter a intenção de travar uma guerra com a Rússia que sabem não poder ganhar, foge completamente à racionalidade e funcionalidade da guerra segundo o pensamento do general prussiano, que nunca entenderia que chefes de estado poderiam objectivar a derrota militar como fonte de obtenção e manutenção do poder político.

Uma das linhas de ataque ao pensamento de Clausewitz é que a sua ideia de guerra ignora a cultura e, por isso, “não engloba totalmente as causas da guerra”. John Keegan, por exemplo, afirma sem rodeios que “a guerra não é uma continuação da política por outros meios” porque “atinge os lugares mais secretos do coração humano, lugares onde o ego dissolve o objectivo racional”. As comunidades incorporam esta verdade subjacente e lutam, não por razões “políticas”, mas instintivamente pelo bem da tribo ou da sociedade, pela religião ou ideologia, ou simplesmente como um modo de vida. Pode ser imposto à guerra um colete de forças de meios e fins, mas isso não capta a sua verdadeira natureza. Nesta interpretação, as sociedades valorizam a guerra por si própria – uma visão que Clausewitz nunca poderia aceitar.

Uma crítica relacionada é que Clausewitz negligencia a psicologia individual da guerra. O combate, sugere Martin van Creveld, “pode ser uma fonte de alegria, talvez mesmo a maior de todas as alegrias”. O risco simultâneo de morte e a perspectiva de glória fazem dela “uma das actividades humanas mais excitantes e mais estimulantes”. A guerra testa a virilidade dos jovens e separa os corajosos dos indignos. O dever, a obediência e o auto-sacrifício tornam-se valores sagrados e são reforçados por cerimónias, ritos, uniformes, bandeiras e medalhas. Há sempre uma oferta de pessoas prontas, ou mesmo desejosas, de lutar, quer num exército moderno e disciplinado, quer num bando anti-moderno.

A história de Sir Adrian Carton de Wiart, um herói de guerra britânico que lutou em três grandes conflitos ao longo de cinco décadas, sobrevivendo a incontáveis desventuras e que não escondia a sua fome de combate, que o Contra já documentou, ilustra bem este argumento.

 

Conclusão.

Não existe uma definição “correcta” de guerra – apenas definições que são mais ou menos úteis para um determinado objectivo. Clausewitz está interessado na guerra do seu tempo porque esta reflectia as enormes mudanças que estavam a ocorrer na política e na sociedade. A sua principal preocupação é que a guerra deve servir como um instrumento de política para os Estados com governos eficazes e forças armadas regulares – e ser utilizada para proteger a sua independência e a sua honra. É também uma actividade que pode ser, em certa medida, “civilizada” pela razão e pela sua separação da vida civil.

Seja como for, o trabalho de taxonomia do teórico germânico não tem paralelo, já que se Da Guerra tem em A Arte da Guerra de Sun Tsu, um concorrente para a obra sobre ciências militares mais influente de sempre, ninguém como Clausewitz se dedicou a definição e limitação do âmbito da guerra.