No universo moral da esquerda ocidental — esse manicômio climatizado onde o bom é ruim e o mal é vítima — há uma regra não escrita: quando a realidade não favorece o argumento, ataque o mensageiro. E se o mensageiro for Donald Trump, tanto melhor. Afinal, entre defender a economia americana e manter a compostura ideológica do New York Times, a segunda opção sempre vence. A última polêmica? As propostas de taxação sobre produtos chineses. “Absurdo!”, gritam os economistas progressistas entre uma conferência e outra patrocinada por bancos centrais. “Populismo tarifário”, resmungam os sacerdotes do livre-comércio irrestrito. Claro. Porque só um populista ousaria fazer o que estadistas não têm coragem: chamar a China pelo nome.
É curioso ver a histeria provocada pela simples ideia de impor tarifas à China — um país que, entre outras delicadezas, mantém campos de reeducação, manipula sua moeda como um mágico de circo bêbado e trata patentes como sugestões facultativas. Mas quando Trump propõe retaliar esse arranjo desequilibrado, os defensores da “ordem liberal internacional” entram em combustão espontânea, como se taxar a importação de painéis solares fosse equivalente a declarar guerra ao Tao.
A pergunta que não se quer fazer — porque a resposta é embaraçosa — é simples: por que a China pode tudo?
Por que Pequim pode subsidiar estatal até o limite da decência, violar as regras da OMC com a naturalidade de quem já sabe que nada acontecerá, roubar tecnologia ocidental como quem baixa um filme pirata e, ainda assim, ser tratada como um parceiro “estratégico”? Quando Trump decide reagir a isso — não com tanques, mas com tarifas — ele é o tirano. Já Xi Jinping, que literalmente não permite oposição e manda tanques para calar protestos, é “um player importante no cenário global”.
É a velha hipocrisia ilustrada: enquanto o Ocidente se autoflagela com regulamentos ambientais, sociais e de governança (as célebres “ESGs”), a China despeja chumbo nos rios, silencia minorias e ganha mercado. Tudo com o aval de CEOs iluminados que, entre uma palestra sobre diversidade e outra sobre sustentabilidade, fabricam seus gadgets em fábricas que fariam um vitoriano corar.
Trump, com sua crueza característica, ao menos teve a honestidade de mostrar o jogo. Não é uma questão de “protecionismo”, mas de bom senso. Quando um país burla as regras de comércio, sabota a concorrência honesta e ainda assim é premiado com acesso irrestrito a mercados livres, a única coisa que se protege é a estupidez.
Mas a elite transnacional prefere acusar Trump de “isolar os EUA” — como se manter empregos industriais, preservar propriedade intelectual e exigir reciprocidade fosse sinônimo de xenofobia. No fundo, o pavor não é que as tarifas não funcionem. O medo é que funcionem *demais* — e revelem o quanto a política externa americana tem sido, por décadas, terceirizada a interesses que nada têm de americanos.
É claro que tarifas não são a solução mágica para tudo — nem Trump disse isso. Mas é revelador que qualquer tentativa de confrontar o modelo predatório chinês cause tanto escândalo entre os zelotes do globalismo. Talvez porque, no fundo, esses puristas do livre-comércio jamais venderam produtos… apenas venderam países.
Enquanto isso, a China continua sua marcha. Um império sem alma, mas com plano. E enquanto o Ocidente debate os pronomes corretos para seus robôs, Pequim já os produziu em massa, com tecnologia alheia e sem precisar de aprovação ética de nenhuma assembleia da ONU.
O verdadeiro crime de Trump, portanto, não foi querer taxar a China. Foi lembrar à América que ainda vale alguma coisa. E isso, para muitos, é imperdoável.
MARCOS PAULO CANDELORO
__________
Marcos Paulo Candeloro é graduado em História (USP – Brasil), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR – Brasil). Aluno do professor Olavo de Carvalho desde 2011. É professor, jornalista e analista político. Escreve em português do Brasil.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
Relacionados
5 Out 26
A mecânica do medo, a máquina de controlo.
Na Europa, não há dinheiro, nem navios, nem munições, nem tropas, nem gasóleo, mas ainda assim há que insistir na possibilidade da guerra, de forma a implementar estruturas totalitárias de controlo sobre as massas. E nisso estão todos de acordo, de Le Pen a von der Leyen.
5 Out 26
Migrantes: um problema humanitário ou político?
Parte I
Para além do drama humano, que é real e pungente, o problema da imigração para os países ocidentais deve ser equacionado racionalmente, à luz de circunstâncias geopolíticas. Um ensaio que procede a esse exercício, de João José Brandão Ferreira.
2 Out 26
O dia em que a esperança morreu.
13 de Julho de 2024, Butler, Pensilvânia. Este é o momento em que Donald Trump vira o bico ao prego, segundo o instinto de Tucker Carlson. E os sinais que se seguiram eram claros, mas não os soubemos reconhecer. Temos contas a prestar por isso.
2 Out 26
Novos tempos: Defender a vida, proteger a solidariedade.
A solidariedade precisa de recursos bem administrados e de verdade. Defender a vida exige que cada pessoa seja protegida e que ninguém transforme a vulnerabilidade alheia numa oportunidade de benefício próprio. Uma crónica de Sérgio Carvalho.
1 Out 26
Partido Republicano enfrenta uma clara derrota eleitoral em Novembro. Mas o desastre é auto-inflingido.
A maioria dos indicadores sugere que os republicanos enfrentarão uma reacção brutal do povo norte-americano em Novembro, com a provável perda do controlo de ambas as câmaras do Congresso para os democratas. A traição ao eleitorado ainda se paga cara, nos EUA.
1 Out 26
A Rússia votou e Putin sai reforçado.
Num momento em que a guerra na Ucrânia continua a consumir recursos, vidas e capital político, as eleições parlamentares russas oferecem um dado político que não pode ser ignorado: Vladimir Putin e o sistema de poder que o sustenta saíram reforçados. A análise de António Justo.






