O Contra não publicou ainda coisa alguma sobre a NBA porque desde que se começaram a ajoelhar em nome do santo George Floyd este redactor desligou-se completamente das ligas profissionais americanas.

Mas há aqui uma novela que deve ser contada, mesmo que muito sucintamente.

Luka Doncic, que será actualmente talvez o segundo melhor jogador da liga de basquetebol norte-americana, chegou em 2028 à NBA vindo do Real Madrid e recrutado como terceira escolha do draft de 2018 pelos Dallas Mavericks, depois de troca com os Atlanta Hawks. 

Apenas com 19 anos, Luka vinha com as credenciais de campeão europeu e MVP das respectivas finais, mas em 2019 já era o Rookie do Ano e entre 2020 e 2024 fez sempre parte da primeira linha All-NBA First Team e do elenco All-Star,  sendo que o ano passado foi o jogador com mais pontos marcados na competição, no percurso que levou os Mavericks às suas terceiras finais da liga.

Na época 2023-24, tornou-e o primeiro europeu a liderar a liga americana em pontuação e o segundo jogador internacional a conseguir o feito. Doncic é também o jogador que mais triplos-duplos (pontos+assistências+ressaltos) somou na história da equipa do Texas e detém o recorde do franchise de mais pontos marcados numa só temporada.

Não constituindo propriamente um cúmulo de atleticismo, o esloveno é um prodígio de habilidade, pontaria e visão de jogo. É um tipo cool ao ponto de às vezes parecer que está a jogar no court do bairro e não há nada que não saiba fazer dentro do campo. Marca, assiste, defende, joga a pivot como joga a extremo como pode jogar a poste, do alto dos seus 1.98 metros de altura e do fundo dos seus 104 quilos de peso, embora enfiá-lo nessa posição seja desperdiçá-lo porque o rapaz tem talento para dar e vender barato e produz mais quanto mais partido se tirar do seu génio de maestro.

 

 

Acontece que, inesperadamente em Fevereiro deste ano, os Mavericks decidiram trocar este craque maluco com os LA Lakers, por dois jogadores medianos (um deles, Anthony Davis, já foi mais que isso, mas a idade não perdoa), naquela que foi quase unanimemente qualificada como a mais disparatada, desastrosa, inacreditável e abstrusa decisão de gestão da história dos desportos profissionais norte-americanos.

Nunca ninguém compreendeu tal comércio, e muito menos os infelizes fãs da equipa de Dallas, que de repente se viram corridos dos seus sonhos de verem repetido o título único que arrecadaram em 2011 e que o esloveno prometia oferecer-lhes mais cedo do que tarde.

Os responsáveis pela insanidade deixaram escapar rumores de que alienavam Doncic porque estava gordo e não se mostrava disciplinado quanto a dietas e treinos, mas toda a gente percebe que Luka podia ser obeso como Obelix e desobediente como os gauleses da indomável aldeia da Armórica que ninguém lhe ia levar isso a mal, desde que ele continuasse, como tudo indicava (e depois se tem comprovado pelas suas prestações em Los Angeles), a registar os seus números estratosféricos.

A troca, de tão parva, libertou todo o tipo de teorias da conspiração e acusações de batota orquestrada pelo próprios dirigentes da NBA, que historicamente parecem sempre favorecer os Lakers, mas a coisa, como todas as polémicas deste género, foi arrefecendo ao longo de Março e em Abril já nem se falava tanto nisso, até que:

Os Los Angeles Lakers vão jogar a Dallas.

Num jogo carregado de emoção, em que os fãs dos Mavericks celebraram com a mesma alegre solicitude os pontos da sua equipa e os pontos que Luka marcava contra ela, numa manifestação espectacular de desportivismo e nostalgia, o esloveno somou 45 pontos, 8 ressaltos, 6 assistências e 4 roubos de bola, oferecendo-lhes uma exibição de gala, que vai ficar para a história dos corações destroçados.

Pena que a NBA seja um esgoto infecto de neo-liberais, porque de vez em quando produz umas rábulas giras.