No fim da semana passada, o Vice-Presidente americano JD Vance publicou no X dois textos sobre a posição da actual administração dos EUA em relação à Guerra na Ucrânia, a propósito de dois tweets publicados na mesma plataforma por Niall Fergusson, um globalista empedernido, da área conservadora britânica.

Dada a sua pertinência no contexto da política internacional contemporânea, traduzimos esses textos.

Em relação ao primeiro post de Niall Fergusson, Vance escreveu:

 

Isso é lixo moralista, que infelizmente é a moeda retórica dos globalistas porque eles não têm mais nada para dizer.

Durante três anos, o Presidente Trump e eu apresentámos dois argumentos simples: primeiro, a guerra não teria começado se o Presidente Trump estivesse em funções; segundo, que nem a Europa, nem a administração Biden, nem os ucranianos tinham qualquer caminho para a vitória. Isto era verdade há três anos, era verdade há dois anos, era verdade no ano passado e é verdade hoje.

E durante três anos, as preocupações das pessoas que tinham obviamente razão foram ignoradas. Qual é o verdadeiro plano de Niall para a Ucrânia? Outro pacote de ajuda? Estará ele ciente da realidade no terreno, da vantagem numérica dos russos, dos esgotados stocks dos europeus ou da sua base industrial ainda mais esgotada?

Em vez disso, cita um livro sobre George W. Bush, um período histórico diferente e um conflito diferente. Esta é outra moeda de troca destas pessoas: a referência irrelevante à história.

O Presidente Trump está a lidar com a realidade, o que significa lidar com factos. E aqui estão alguns factos:

Número um, embora a segurança dos nossos aliados da Europa Ocidental tenha beneficiado grandemente da generosidade dos Estados Unidos, estes prosseguem políticas internas (em matéria de migração e censura) que ofendem as sensibilidades da maioria dos americanos e políticas de defesa que pressupõem uma dependência excessiva e contínua.

Em segundo lugar, os russos têm uma enorme vantagem numérica em termos de efectivos e armas na Ucrânia, e essa vantagem persistirá independentemente de novos pacotes de ajuda ocidentais. Mais uma vez, a ajuda está a fluir *actualmente*.

Número três, os Estados Unidos mantêm uma influência substancial sobre ambas as partes no conflito.

Em quarto lugar, para acabar com o conflito é necessário falar com as pessoas envolvidas no seu início e na sua manutenção.

Número cinco, o conflito colocou – e continua a colocar – pressão sobre os instrumentos da política americana, desde os stocks militares às sanções (e muito mais). Acreditamos que a continuação do conflito é má para a Rússia, má para a Ucrânia e má para a Europa. Mas, acima de tudo, é má para os Estados Unidos.

Tendo em conta os factos acima referidos, temos de procurar a paz e temos de a procurar agora. O Presidente Trump candidatou-se com base nisto, ganhou com base nisto e tem razão. É um disparate preguiçoso e a-histórico atacar como “apaziguamento” qualquer reconhecimento de que o interesse da América deve ter em conta as realidades do conflito.

Esse interesse – e não moralismos ou iliteracia histórica – guiará a política do Presidente Trump nas próximas semanas.

E graças a Deus por isso.

 

 

Em reposta, Niall Fergusson publicou outro post, ao qual Vance respondeu também.

 

Neste tópico, vou responder a algumas das coisas que vi por aí. Comecemos por Niall:

1) Em termos gerais, sim, tem estado mais certo do que errado em muitos dos pormenores do conflito. É por isso que estou surpreendido por o ouvir chamar à postura da administração “apaziguamento”. Estamos a negociar para acabar com o conflito. Só é “apaziguamento” se pensarmos que os ucranianos têm um caminho credível para a vitória. Não têm, por isso não é.

2) Tanto quanto sei, as acusações de “apaziguamento” baseiam-se em alguns argumentos (nem todos de Niall, para ser claro). O primeiro é uma crítica ao facto de estarmos sequer a falar com os russos. Bem, o Presidente acredita que, para conduzir a diplomacia, é preciso falar com as pessoas. Antigamente, chamava-se a isto estadismo. Em segundo lugar, a ideia – baseada muitas vezes em notícias falsas dos media – de que “demos aos russos tudo o que eles queriam”. Terceiro, que se aprovássemos outro pacote de ajuda, a Ucrânia iria até Moscovo, ressuscitaria Navalny e instalaria um líder democrático e livre na Rússia (exagero, mas só um pouco). Todos estes argumentos são comprovadamente falsos.

Muitas pessoas que perceberam tudo mal sobre a Rússia dizem que sabem o que a Rússia quer. Muitas pessoas que sabem que os meios de comunicação social transmitem lixo e falsidades tomam como verdade absoluta relatórios de fontes anónimas sobre uma negociação complexa.

Mas a questão mais importante, como penso que Niall sabe, é que a maioria dos que gritam “apaziguamento” são pessoas que não estão a lidar com a realidade no terreno.

3) Sobre os pormenores da negociação, não confirmo publicamente os detalhes por razões óbvias, mas muito do que vi divulgado varia entre o totalmente falso e a falta de informação crítica. O Presidente estabeleceu objectivos para a negociação, e eu sou parcial, mas penso que ele é muito bom nisto. Mas não vamos telegrafar a nossa postura negocial para que as pessoas se sintam melhor. O Presidente está a tentar obter uma paz duradoura, não a massajar os egos ou as ansiedades das pessoas que agitam bandeiras da Ucrânia.

A ideia de que o Presidente dos Estados Unidos tem de iniciar a negociação dizendo “talvez deixemos a Ucrânia entrar na NATO” desafia todo o bom senso. Mais uma vez, não é apaziguamento reconhecer as realidades no terreno – realidades que o Presidente Trump tem apontado há anos em alguns casos.

4) Muitas das críticas subjectivas não passam de um agarrar de pérolas que, em última análise, não têm importância. Tenho todo o gosto em defender as críticas do Presidente Trump à liderança ucraniana (não que isso importe, porque ele é o Presidente, mas concordo com ele). A discordância é bem vinda. Mas estas críticas do Presidente não têm a ver com a guerra ou com a sua negociação para a acabar.