A famosa frase “Yo soy yo y mis circunstáncias“, que por diversas vezes já a citei em meus escritos, foi escrita por José Ortega y Gasset em sua obra Meditaciones del Quijote (1914). No contexto da frase completa, ele diz: “Yo soy yo y mis circunstáncias, y si no la salvo a ellas, no me salvo yo.”
Essa ideia expressa a visão existencialista e perspectivista de Ortega y Gasset, segundo a qual o ser humano não pode ser compreendido isoladamente, mas sim em relação ao meio em que vive. A “circunstância” inclui tudo aquilo que nos rodeia: a cultura, a sociedade, a história e as condições materiais da vida.
Ele desenvolve essa noção em suas obras posteriores, especialmente em La Rebelión de las Masas (1930), onde enfatiza que o homem deve assumir a responsabilidade de dar sentido à sua própria existência dentro das condições que lhe são dadas.
A afirmação que dá o título a este artigo – e que muito me apraz – não nega a identidade do indivíduo, mas sublinha que ele não existe no vácuo; sua existência está entrelaçada com a história, a cultura e as instituições herdadas. Creio ser essa visão um útil reforço à ideia de que o ser humano não é uma tabula rasa, que pode ser moldada arbitrariamente (lamento, behavioristas), mas sim um elo dentro de uma continuidade histórica.
A meu ver, a noção de “circunstância” destaca a relevância das instituições, da moralidade tradicional e dos costumes como elementos fundamentais para a formação completa do indivíduo. O homem não se define apenas por sua vontade, mas também pelo contexto civilizacional que lhe dá raízes e orientação – e por favor, não me lembrem o país onde nasci, pois estou indisposto a rebater minhas próprias contradições.
A segunda parte desta estimada frase — “y si no la salvo a ella, no me salvo yo” — implica um dever moral: o sujeito tem a responsabilidade de preservar e cultivar a sua circunstância. Ou seja, não basta apenas viver passivamente dentro de um tempo e espaço; é preciso reconhecer e defender os valores que sustentam a ordem social. Esse princípio é essencial para nossa combalida visão conservadora, ao rejeitar a ideia de uma ruptura revolucionária e enfatizar a necessidade de conservar e aperfeiçoar o legado da civilização.
Em oposição ao pensamento comuno-globalista, que muitas vezes propõe uma ruptura com o passado para construir um “novo homem” ou uma “nova sociedade” – frankfurtiano – um verdadeiro conservador entende que o homem é um produto da sua herança cultural, e que ignorar isso leva à desagregação e à destruição daquilo que mantém a coesão social.
Ortega y Gasset, embora não seja um pensador explicitamente conservador, fornece uma visão que pode ser lida como um chamado à responsabilidade pessoal diante do seu próprio tempo e cultura, e por isso tenho-lhe predileção e estima.
O conservador, ao interpretar essa máxima, vê nela a necessidade de manter viva a tradição, compreender o passado e agir no presente, para garantir a continuidade da civilização.
É isso ou aceitar aquilo a que nos reduzimos hoje.
WALTER BIANCARDINE
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Walter Biancardine foi aluno de Olavo de Carvalho, é analista político, jornalista (Diário Cabofriense, Rede Lagos TV, Rádio Ondas Fm) e blogger; foi funcionário da OEA – Organização dos Estados Americanos.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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