
“O Cobarde morre mil mortes, o bravo por uma vez apenas.”
Caio Júlio César
“A morte sorri a todos. Tudo o que podemos fazer é sorrir-lhe de volta.”
Marco Aurélio
A nossa sociedade vive excessivamente aterrorizada com a morte. Há apenas um século atrás, costumávamos reconhecer e aceitar naturalmente que um dia vamos morrer e que os nossos entes queridos também, e que a morte é a primeira lei da vida, o derradeiro equalizador, mas actualmente esta consciência não só rareia como na verdade parece ter sido invertida. As pessoas, de tão alienadas que estão da realidade, parecem querer viver para sempre e evitam pensar na morte como o jogador inveterado mal reflecte no peso das suas dívidas.
Mais que uma ideia assustadora, a morte é hoje um anátema.
Talvez um dos ensinamentos estóicos mais esquecido e menos praticado no tempo presente é o Memento mori. Traduzido do latim para o português, será qualquer coisa como “lembra-te que vais morrer”. Não precisamos de recuar muito no tempo para que este proverbial lembrete diário estivesse presente na consciência colectiva dos povos, no Ocidente, e em todas as classes sociais.
Actualmente, a sábia expressão não é reconhecida a nenhum nível, dada a tendência crescente na nossa cultura para ignorar a presença potencial da morte, fenómeno que tem levado muitos a cair na ilusão de que podemos manter-nos jovens para sempre e nunca morrer, quando na realidade, como o estoicismo descreve, a morte é inevitável, uma simples consequência da condição humana e um imperativo inescapável do mundo natural. Muitas vezes interpretamos mal a contemplação da morte como um pensamento pessimista, lúgubre ou sinistro mas, como veremos, essa maneira de pensar é apenasmente disfuncional.
Abraçar a morte permite-nos viver com propósito, significado e de forma virtuosa. Recusá-la condena-nos a uma aposta perdida contra o tempo, a viver na orientação de objectivos que não são nossos, sem propósito e na procura de satisfação imediata que não traz consolação nem verdade.
Para compreender plenamente o conceito de Memento mori, há que procurar a sua génese.
O filósofo Demócrito treinou-se a si próprio procurando a solidão e frequentando túmulos. O Fédon de Platão, onde é narrada a morte de Sócrates, introduz a ideia de que a prática correcta da filosofia é “nada mais do que aprender a morrer”. Os estóicos da antiguidade clássica eram particularmente proeminentes no uso desta filosofia, e as cartas de Séneca estão cheias de meditações sobre a morte. Epicteto dizia aos seus alunos que, quando beijassem um filho, um irmão ou um amigo, deveriam lembrar-se de que eram mortais, refreando o seu prazer, tal como fazem “aqueles que ficam atrás dos homens nos seus triunfos e os lembram de que são mortais”. Marco Aurélio obrigava-se a “considerar quão efémeras e insignificantes são todas as coisas mortais”.
Várias passagens do Antigo Testamento apelam à lembrança da morte. No Salmo 90, Moisés reza para que Deus ensine o seu povo “a contar os nossos dias, para que tenhamos um coração sábio” (Salmo 90:12). No Eclesiastes, o pregador insiste que “é melhor ir à casa de luto do que ir à casa de banquete, pois este é o fim de toda a humanidade, e os vivos o levarão no coração” (Eclo 7,2). Em Isaías, a duração da vida dos seres humanos é comparada à curta duração da erva: “A erva murcha, a flor murcha quando o sopro do Senhor sopra sobre ela; os povos são erva.”
A expressão idiomática propriamente dita teve origem na Roma antiga, uma sociedade que tinha desenvolvido uma sensibilidade especial em relação à vida e à morte e que contava entre os seus líderes muitos e notáveis estoicos, como Marco Aurélio, Seneca e Cato. Os generais que regressavam a Roma depois de vitórias militares eram recebidos em triunfo. Nessas celebrações faustosas do poderio militar romano e de culto heroico dos seus líderes, estava no entanto presente o bom senso de lembrar estes ‘imortais’ generais que morreriam como toda a gente. Assim, enquanto era aplaudido pela multidão exultante, o general, vestido com uma toga vermelha ou púrpura, com o rosto pintado de vermelho para simbolizar a sua semelhança com o deus Júpiter e transportado numa quadriga dourada, era constantemente lembrado por um escravo que viajava consigo: Memento mori. Memento mori. Memento mori.
Celebra agora as tuas proezas, general, mas lembra-te que a omnipotência é um mito, que a imortalidade é uma ilusão, que a tua superioridade, o teu poder, é deste reino, onde tudo é perecível. É um escravo que te diz: Memento mori. Faz-te humilde, campeão. Cai na realidade, sonhador. Não percas o pé, Ícaro: Memento mori.

De facto, perante a morte, somos todos iguais e a vida que vivemos não muda a certeza de que vamos morrer. Qualquer um de todos os seres humanos que já se equilibraram à superfície periclitante deste planeta, mesmo o general vitorioso que ascendeu ao topo do mundo por chacinar os selvagens de meia Gália, agora está morto e esquecido, e por isso convém não olvidar a morte, mas aceitá-la como uma das contrapartidas exigidas pela Natureza, como a juventude e a velhice ou o prazer e a dor. É até justo especular que, não fora o facto de morrermos, também não teríamos nascido. E assim sendo, qualquer pessoa minimamente sensata deve esperar a morte não com indiferença, não com impaciência, não com raiva, não com medo, mas simplesmente encarando-a como uma daquelas coisas que inevitavelmente nos acontecem.
A morte manteve assídua presença na cultura de outros povos, noutros períodos da História, noutras localidade do planeta. Os egípcios antigos convidavam cadáveres para os banquetes, que eram erguidos por um homem que recomendava: come, bebe e casa-te, porque amanhã serás assim. Durante o Renascimento, a dança da morte tornou-se um tema comum; nos tempos da Guerra dos Cem Anos, da Grande Fome e da Peste Negra, a esperança média de vida era muito, muito baixa, rondando os 35 anos, o que levou naturalmente à ideia sem dúvida traumatizante, mas também, em certo sentido, libertadora, que a morte podia ocorrer a qualquer altura, dizimando tanto os velhos como os jovens, os ricos e os pobres da mesma maneira. Frequentemente retratada em pinturas e encenada em rituais, a dança da morte rapidamente se tornou famosa em toda a Europa, ilustrando o elo que reúne os vivos e os mortos independentemente do estatuto social. Assim, também no século XVII os frades repetiam frequentemente a frase Memento Mori, enquanto desenterravam sepulturas diariamente para se lembrarem da morte e da sua omnipresente possibilidade.
Também os budistas tibetanos têm um ritual que gira à volta de quatro conceitos fundamentais: todas as coisas feitas de outras coisas são impermanentes, o corpo humano é uma coisa feita de outras coisas, a morte do corpo é certa, e a hora da morte é incerta. Os seja, a morte está para além do nosso controlo, conclusão que regressa ao pensamento estoico.

Montaigne, um dos mais importantes filósofos do Renascimento francês, fortemente influenciado pelo estoicismo, disse um dia:
“Privemos a morte da estranheza, frequentemo-la, habituemo-nos a ela. Não tenhamos nada mais que a morte a cada instante. Praticar a morte é praticar a liberdade.”
O homem que aprendeu a morrer, desaprendeu a ser escravo. Neste ponto compreende-se até que ponto a prática do Memento mori se torna benéfica. Não podemos simplesmente esquecer a possibilidade de um fim, e essa recusa determina o que pensamos e o que fazemos, no sentido de nos dar autonomia e lucidez para sermos fiéis a nós próprios e à realidade que embrulha a existência.
Muito para além do espúrio e perigoso argumento que a consciência da mortalidade nos permite viver desenfreadamente, como se não houvesse amanhã, as boas razões para encarar a morte de frente multiplicam-se à medida que reflectimos sobre ela. A convivência com uma ideia de término ajuda-nos a descobrir e valorizar os aspectos mais importantes da nossa vida, mas também os detalhes que são frequentemente olvidados. Na imanência da morte podemos sublimar o prazer, mas devemos sobretudo manifestar gratidão. Nada é rotineiro ou normal ou vulgar quando consideramos o milagre da vida, a sua fragilidade, e o seu prazo. Perante a perspectiva do falecimento, é mais fácil deixar de procrastinar e perseguir objectivos que nos trazem verdadeira realização; é mais fácil pedir desculpa a quem ofendemos e é mais fácil perdoar quem nos tem ofendido.
Além disso, lembrar a morte permite-nos sofrer menos quando ela acontece de facto.
Seria bom que as pessoas do tempo que agora corre, e que por medo da morte reagem a uma gripe com tal pânico que se deixam até envenenar por terapias genéticas experimentais, se reencontrassem com o seu destino último e com a sua condição de mortais, aceitando com naturalidade e paz de espírito a inevitabilidade, e a necessidade, de um fim.
Tanto mais que para nós cristãos, o que termina na morte é o corpo, e não a alma. E desse material invólucro não devemos ser tão ciosos.
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