O Homem alpendre
ficou por minutos sozinho
em frente à laranjeira onde havia
duas ou três laranjas em sobressalto.
Soltou do bolso
a pedra redonda da praia.
Elevou-a no ar frio,
exterior ao muito íntimo mundo da algibeira,
e soltou-a, com um pequeno impulso,
ao nível dos olhos.
A pedra, redonda e muito mineral
dentro do sossego de pedra,
misturou-se por instantes infinitesimais
com as laranjas suas primas
e o Homem alpendre quase jurou
que as ouviu falarem-se.
Matarem no Aleph que sobrou
a saudade impossível.
De quem se não via há muito.
Alburneo
___________
Mais poemas de Alburneo no ContraCultura.
Relacionados
11 Mar 26
Louvor e Celebração d’Ofélia
Caminhas comigo pelos interstícios da noite com solene e fraterna alegria. E somos os dois, cadela e homem, apenas um bicho no fim da caminhada.
5 Mar 26
Mau tempo na baía.
A Arte do Haiku: o relâmpago ensina a humildade, o trovão assusta os versos e o tédio gera passatempos, enquanto S. Pedro ameaça a baía com fotões e decibéis.
25 Fev 26
Caligrafia
A mão manda mais na lírica do que se pode imaginar e os poemas do Pessoa não precisam de filosofia porque têm, na sua tipografia, a directiva cursiva de Deus.
6 Fev 26
Godofredo, o Imparável.
Godofredo Pepsi não tem mãos a medir. Enquanto combina orgias, prepara pandemias e levanta laboratórios, serve intestinos de bebés aos ministros, oferece conselhos a princesas e vende umas bazucas por fora. É um stress maluco.
4 Fev 26
Elogio da incompetência.
Sei perfeitamente que sou um mau poeta. Mas Deus não dorme: para que Homero brilhe, alguém tem que cumprir com a escuridão. E que seria do Manifesto Anti-Dantas, se não fosse a má poesia do Dantas?
27 Jan 26
Haikus de Fornalhas Velhas
A arte do haiku: de repente, a estrada acaba - Fornalhas Velhas. Onde a vilania do mundo encontra um fim e quase consegues ouvir a Terra a rodar sobre o seu eixo.






