Lembro-me dos tempos paleolíticos em que era criança e construía longas rectas com os escassos segmentos de uma pista eléctrica, só para atirar violentamente os carros contra a parede da varanda. Lembro-me de misturar o comboio eléctrico da Lego com a pista de automóveis, os soldadinhos da Timpo, os bonecos da Airfix, os castelos da Knex e o feltro do Subutteo. Lembro-me de não ter consciência de escala e preocupações de realismo. Lembro-me de me divertir à grande e a sós, no meu quarto de filho único, construindo e destruindo mais sonhos que apenas os meus (sim, destruindo também os sonhos dos outros). Todos contra todos, os meus brinquedos banhavam-se em gloriosa cosmogonia para meu deleite. Só para meu exclusivo prazer de deus ímpio, alegre e despreocupado, entornavam-se exércitos em rios de sangue, defrontavam-se grandes clubes do futebol europeu em chacinas de verde, amigavam-se mouros e peles vermelhas, cruzados e cowboys lutavam lado a lado contra o Afrika Corps, enquanto do quartel dos bombeiros da LegoVille saía uma brigada para apagar o incêndio que teria deflagrado algures, na sala de jantar.
Lembro-me de queimar – ligeiramente – um dedo no motor de um carrinho da pista eléctrica. Lembro-me de pensar que os motores de carrinhos de pista que aquecem ao ponto de me queimar – ligeiramente – o dedo, são a coisa mais prodigiosa da criação toda.

Lembro-me de mim adolescente petulante que lia Aldous Huxley entre duas corridas do campeonato de Fórmula 1 em carrinhos da Lego. Lembro-me de mim muito aflito quando a namorada entrava pelo quarto a dentro (nesses tempos, a minha casa oferecia a privacidade de um café central) e me encontrava empurrando carrinhos de um lado para o outro, repetidamente, concentradamente, até decidir, na última volta, quem venceria: Alain Prost ou Alan Jones. Lembro-me das ameaças do género: ou brincas ou namoras. Lembro-me de, a mais das vezes, preferir o ActionMan ou as profecias do Huxley. Lembro-me de desenhar, muito à pressa, o logotipo dos MotorHead na parede (as paredes do meu quarto eram aguarelas da puberdade), mesmo a tempo de terminar a batalha de Inglaterra com os kits da Revell, muito mal montados. Lembro-me desses stukas, desses spitfires e desses Messerschmitt como se fosse hoje que mergulhassem em ataque terminal pelos céus do escritório. Lembro-me de sair mais cedo das matinés dançantes no Rock Rendez-Vous e no Acapulco para ir brincar às escondidas com os Matchbox e os Corgytoys. Lembro-me de pensar com triste lucidez que já não tinha idade para inventar patifarias dignas de Butch Cassidy, para simular o palco sonoro dos disparos de Lone Ranger ou do relinchar de Silver, o seu nobre cavalo branco. Lembro-me de olhar para a minha pista (um modesto oito, mas com contador de voltas e tudo) e como quem arruma os brinquedos para nunca mais brincar, concluir com desesperada clarividência que já não tinha infância para construir, todas as tardes, um admirável mundo novo.

Devo confessar que, com 57 anos, sou uma criança. Sou uma criança porque ainda paro nas lojas de brinquedos e ainda faço aquele ar de puto guloso (a que a minha mãe não resistia) perante o banquete lúdico na paisagem. Sou uma criança porque ainda não sei de melhor programa que o magnífico privilégio de poder brincar com uma pista Scalextric a sério. E, por obra e graça dos deuses (e com a iniciática colaboração de um amigo) tenho uma. Tenho uma pista de carrinhos, senhores! Uma slot enorme com mais de 40 automóveis lindíssimos das classes WRC, WTCC, DTM GT3, LMP1 e F1. Com boxes e mecânicos e fotógrafos e directores de corrida e espectadores. Com partida Les Mans, cronómetro aos centésimos, punhos pro, base de relva simulada, escapatórias por todo o lado, pontes várias e cruzamentos perigosíssimos!


Psicólogos de todo o mundo rapidamente me enviariam para a Clínica dos Chalados Mor, quarto 33, gente sensata de todos os quadrantes genéticos dir-me-á: mas estás burro ou falta-te a bolha da razão? Estarão certos uns e outros. Persistirei porém no delírio de reduzir à escala, de fingir corridas, de fazer de conta que viajo a trezentos à hora pelos circuitos da imaginação, de brincar com a realidade e a electricidade e a borracha. Pé na tábua que é veloz o plástico!
E isto não é um hobby. É um estilo de vida.















Paulo Hasse Paixão
Publisher . Contracultura
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