
Não me lembro, sinceramente, de um panorama global tão negro, desde que tenho consciência política.
Por causa da guerra na Ucrânia, estamos neste momento a milímetros de um confronto nuclear entre a NATO e a Rússia. Considerando as nomeações para a diplomacia e a segurança de Donald Trump, as promessas de paz que fez na campanha estarão longe de serem concretizadas e, pelo contrário, não é de todo disparatado projectar que os EUA vão intensificar o apoio à Ucrânia, enquanto a Rússia irá também aumentar o esforço de guerra naquele país martirizado.
Os líderes europeus anunciam a guerra como se de um passeio no parque numa chuvosa tarde de Inverno se tratasse, sugerindo até ataques preventivos, sendo chocante a sua leviandade, considerando a probabilidade do apocalipse que traduziria qualquer confronto directo com a Rússia e a fragilidade das defesas europeias face à segunda potência nuclear mundial.
Na Georgia, vive-se uma ambiente de golpe de estado, com uma luta entre nacionalistas pró-Rússia, apoiados pelo Kremlin, e globalistas pró-ocidentais, suportados pela CIA, que ali está a repetir o livro de normas utilizado na Ucrânia.
No Médio Oriente, Israel combate o Hamas em Gaza e o Hezbolah no Líbano e o Irão por simpatia, enquanto procede ao genocídio da população palestiniana. A Síria está agora nas mãos de um grupo de fanáticos jihadistas, num contexto surrealista em que os Estados Unidos apoiaram a guerrilha rebelde de um movimento jihadista chamado… Al-Qaeda. E o Irão, mais cedo do que tarde, será alvo do complexo militar e industrial norte-americano, sendo mais que nítido que a próxima administração Trump tudo vai fazer para encontrar uma justificação que conduza à guerra com o país dos ayatolas.
A guerra por procuração que o Ocidente declarou à Rússia é agora multidimensional e supra-continental, e considerando que são militares americanos e ingleses que operam os ATCAMS e os StormShadows que estão a ser disparados para o interior do território russo, esse conflito por procuração tem facetas de guerra aberta.
Na Europa, o governo francês acaba de colapsar, sem que uma solução em tempo real pareça possível, sendo que os próximos meses vão ser de caos político, social e económico no país do galo. Que podem impactar seriamente toda a União Europeia.
O governo alemão caiu, para todos os efeitos, no mês passado, e vamos ter eleições já em Janeiro, com os populistas do AfD bem lançados para surgirem como o segundo partido mais votado. O estabelecimento germânico tudo fará para impedir os populistas de acederem ao poder, claro, mas esperam-se convulsões políticas decorrentes desse esforço.
Na Áustria, as negociações para que se encontre uma coligação governamental que exclua o partido populista, que ganhou as eleições legislativas, não estão a correr lá muito bem e as tensões sociais que decorrem do processo de usurpação dos resultados eleitorais são também nítidas.
Na Roménia, a possível eleição de um presidente populista levou o tribunal constitucional do país a anular as eleições.
Em Espanha, a contestação ao executivo de Sánchez é cada vez mais intensa e não é certo que o governo sobreviva durante muito mais tempo.
No Reino Unido, a tirania de Starmer vai tender a agudizar-se e são também expectáveis perturbações mais ou menos profundas do tecido sócio-político britânico.
Na Coreia do Sul, vive-se neste momento uma crise constitucional, com um presidente divorciado do parlamento e, tudo indica, prestes a ser preso.
No nordeste do Pacífico, há quem se pergunte como é que Beijing ainda não aproveitou o contexto caótico deste cenário global para anexar Taiwan. A paciência chinesa é proverbial. Mas todos sabemos que é uma questão de tempo até que a cobiçada ilha seja definitivamente tomada.
E voltando aos Estados Unidos: a futura administração Trump vai ter, claramente, duas facções. A populista, interpretada por figuras como J.D. Vance, Tulsi Gabbard, Kash Patel, Elon Musk e RFK jr., e uma ala neoconservadora, próxima dos poderes estabelecidos em Washington e em Wall Street, protagonizada por homens como Marco Rubio, Mike Waltz, Sebastian Gorka e Scott Bessent.
Da disputa entre estas facções resultará a linha de orientação política, económica e geo-estratégica dos EUA para os próximos 4 anos. Se a facção globalista e expansionista sair por cima deste intestino confronto, vamos ter mais guerras, vamos ter mais tentativas de mudança de regime em países que o aparelho imperialista americano considere estratégicos para as suas ambições de domínio global, vamos ter mais choques económicos, vamos ter mais instabilidade social. E mesmo nos EUA, será previsível a agitação política, especialmente proveniente das bases do Partido Republicano, que elegeram Donald Trump precisamente para contrariar esse tipo de comportamento das elites globalistas.
Seja como for, a paisagem planetária está carregada de electricidade. E a mãe de todas as tempestades pode explodir a qualquer momento.
Paulo Hasse Paixão
Publisher . contraCultura
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