Esta é uma rubrica muito pessoal, que introduz a banda sonora de uma vida. Não há grandes regras a não ser a de escolher não mais que um disco por banda ou autor e inserir não mais que um videoclipe por álbum, para que a coisa mantenha um tom adequadamente telegráfico. Tento dar um sentido cronológico à recolha, mas poderei falhar nessa escala aqui e ali, no correr dos posts. Não sei quanto tempo vai demorar a chegar ao presente do indicativo, sinceramente. Mas desde que faça isto com prazer, a coisa vale, mesmo que exaustiva, mesmo que incompleta (todas as playlists são incompletas), mesmo que desregrada. A recolha é dedicada apenas ao pop e ao rock. Outros géneros musicais merecerão outras abordagens.
Boa sorte e boa viagem (para mim e para ti gentil audiente).
Paulo Hasse Paixão
Rocket to Russia . Ramones

Esta pérola mudou muita coisa dentro da minha sensibilidade de criança e no fundo do meu cerebelo imberbe. Fiquei a saber que a economia é uma virtude melódica. Que as calças de ganga devem ter buracos para os joelhos respirarem. Que homens muito feios podem ser símbolos sexuais. Que o punk é dançável e que a ironia é uma arma superior à bomba de hidrogénio. Fiquei a saber imensas coisas, através de um disco que na verdade não pretende ensinar nada a ninguém. Rocket To Russia é um monumento à dissidência e só quer ser isso e é isso que faz dele uma obra prima. Sheena is a punk rocker. Sheena is a punk rocker. Sheena is a punk rocker, now.
(Mais sobre este disco no ContraCultura)
As it Happens . Dr. Feelgood

Lee Brilleaux, o vocalista intrépido e fantasma de tasca que também soprava uma gaita como se fosse uma corneta do fim dos tempos, era uma espécie de anti-John Lennon. Wilco Johnson tirava acordes da guitarra como quem monta estruturas de arame farpado e a banda toda e por inteiro não podia ser mais bruta, mais vulgar, mais suburbana e mais difícil de mastigar.
Adoro os Dr. Feelgood. Adoro-os. E, para sublinhar a minha paixão, deixo este tema maravilhoso e abominável ao mesmo tempo, embora os rapazes mereçam mais atenção, mais espaço e mais posteridade. Oh yeah.
Remote Control . The Tubes

Ao longo dos seus 11 prodigiosos temas dá-se uma sublime convergência entre punk electrónico e pop desalinhado, num embrulho futurista de sintetizadores analógicos e raiva de músicos fora-da-lei, que anunciam o apocalipse do rock clássico dos anos 70 e introduzem o caleidoscópio sensorial que vai acontecer na década que se segue. Praticamente ignorados em Portugal e hoje já esquecidos em todo o lado, os Tubes sempre foram pioneiros em tudo. Uma banda à frente no tempo. E este Remote Control, que hoje se ouve tão bem como no ano paleolítico em que foi lançado, é uma coisa eterna. E intensa como o raio.
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