O assunto é problemático mas deve ser articulado porque é no mínimo estranho que cristãos conservadores estejam a celebrar, com alegria sinistra e memes de gosto discutível, a operação da Mossad, que fez explodir milhares de pagers e walkie-talkies pertencentes – alegadamente – a terroristas do Hezbollah.
E o termo ‘alegadamente’ é aqui usado porque a verdade é que não pertenciam apenas a terroristas, mas também a simpatizantes da causa palestiniana (um jornalista), a funcionários não militares do movimento (um embaixador), e a civis. E entre os civis foram atingidas, directa ou colateralmente, crianças.
Este vídeo, que o Contra publicou ontem, e que desaconselha a pessoas mais sensíveis, mostra como a explosão dos dispositivos pode ferir ou matar uma criança ou um adulto de forma inadvertida, mas nem por isso menos criminosa:
— Trey Yingst (@TreyYingst) September 17, 2024
E basta pensar que se deram certamente casos em que os alvos do ataque estavam ao volante de automóveis ou motos para percebermos que os danos colaterais da operação podem até ser bem mais graves do que podemos projectar de forma imediatista.
What Israel has just done is, via *any* method, reckless. They blew up countless numbers of people who were driving (meaning cars out of control), shopping (your children are in the stroller standing behind him in the checkout line), et cetera. Indistinguishable from terrorism. https://t.co/th4fYwa0jr
— Edward Snowden (@Snowden) September 17, 2024
A metodologia do ataque, muito característica da maneira de pensar sionista, é, se reflectirmos bem, muito parecida com qualquer acto terrorista. E, neste contexto, devíamos considerar como válida aquela velha e boa máxima de Marco Aurélio:
“A melhor maneira de te vingares de um inimigo é não seres como ele”.
E nem vale a pena procurar no Novo Testamento um versículo adequado, pois não? Todos nós, cristãos, sabemos ou devemos saber que o ‘pagar com a mesma moeda’ cria uma dívida moral. Que o ‘olho por olho’ nos deixa todos cegos. Que ‘dar a outra face’ pode muitas vezes ser até irrealista, mas que a solução para a violência não está em rebentar com a cara de quem nos esbofeteou. Todos nós, cristãos, sabemos ou devemos saber que festejar o massacre de vidas humanas não é uma atitude decente, ponto final, parágrafo.
Outro aspecto que está claramente a passar ao lado das pessoas que celebram o feito da Mossad, que em 48 horas já ceifou mais de vinte vidas e feriu mais de 3.000, é o precedente operacional que abre. Dada a eficácia da operação – que é inegável – o que é que impede, daqui para a frente, outros ou os mesmos serviços secretos de começarem a matar pessoas que considerem indesejáveis através da detonação dos seus equipamentos digitais? Não será fácil atingir Donald Trump ou Elon Musk ou Tucker Carlson ou qualquer dissidente de alto perfil, desta forma? Tanto quanto será depois difícil descobrir quem foi o responsável?
Seja como for, quem é que de facto acredita que este ataque vai potenciar um caminho para a paz ou até uma significativa alteração no teatro das operações, que seja favorável aos objectivos militares de Israel? Pelo contrário: o carácter draconiano da iniciativa vai levantar mais ódios, incentivar uma intensificação do envolvimento iraniano, mobilizar a população libanesa, prolongar e tornar mais feroz ainda o conflito.
E por último, um problema de clarividência que já tem sido referido várias vezes pelo ContraCultura: Há muita gente que se considera ‘populista’ que ainda não percebeu que o sionismo contemporâneo é um parceiro do globalismo. E há muitos cristãos que ainda não leram os evangelhos as vezes suficientes para perceberem que os fariseus são os seus primeiros inimigos. E o que é que é um sionista, se não um fariseu do Século XXI?
Glenn Greenwald defende neste clip o ponto de vista articulado neste breve texto, melhor que o seu redactor pode ou sabe fazer.
Relacionados
13 Jun 26
O Regresso à Realpolitik:
Da Narrativa Moralista ao Pragmatismo Estratégico na Europa Ocidental.
A exaustão dos recursos militares e a cristalização das frentes de batalha impõem à Europa uma capitulação intelectual: o abandono definitivo do moralismo binário em favor de um pragmatismo de sobrevivência. A análise de Francisco Henriques da Silva.
12 Jun 26
Deutschland über alles?
O mundo não está preparado para o rearmamento alemão.
À medida que as prioridades dos EUA se afastam da UE, a NATO enfrenta um futuro moldado pela russofobia, pelas ambições francesas e pelo renascimento militar da Alemanha. Mas a história ensina sobre os perigos da militarização germânica. A análise de Afonso Belisário.
11 Jun 26
O preço da estupidez.
Houve um tempo em que se acreditou, com a candura típica do Iluminismo, que bastava alfabetizar as massas para vaciná-las contra a barbárie. Acontece que o inimigo da civilização nunca foi propriamente o criminoso, mas o tolo. A crónica de Marcos Paulo Candeloro.
11 Jun 26
Não, já não há volta a dar.
Não podes simplesmente entrar numa cápsula de má ficção científica e voltar aos anos 80 porque decides gritar uns slogans, publicar umas opiniões atrevidas nas redes sociais, participar numa manifestação do Tommy Robinson ou votar Chega. É tarde demais para chegar cedo.
10 Jun 26
O globalismo está a inverter o crescimento.
Há uma patologia oculta no coração do globalismo contemporâneo: a inversão da direcção natural do crescimento humano. Toda a civilização floresceu organicamente, mas o que hoje nos é proposto é engenharia, desconstrução e desnaturação. A análise de António Justo.
9 Jun 26
A Hipersexualização de Menores no Expresso: Uma Linha Vermelha Ultrapassada.
O Expresso considerou apropriado publicar, no Dia Mundial da Criança, um podcast com dois menores de 13 e 15 anos a falar abertamente sobre sexualidade, pornografia, consentimento e masturbação. Uma ideia inaceitável que merece o protesto de Maria Helena Costa.






