«Portanto, não deve preocupar o príncipe o facto de, para conservar todos os seus súbditos em união e obediência, ganhar fama de cruel, pois será muito mais compassivo do que os príncipes que, por excesso de clemência, deixam alastrar as desordens, das quais se geram assassínios e rapinas.»

Nicolau Maquiavel, O Príncipe

 

A similitude das almas

Segundo Durkheim, “cada sociedade tem para si um certo ideal de homem, daquilo que ele deve ser, tanto do ponto de vista intelectual, como físico e moral; que esse ideal é, em certa medida, o mesmo para todos os cidadãos.” (Durkheim, 2007, p. 52).

Um dos principais instrumentos de que a sociedade dispõe para produzir este homem ideal, é a Escola. Através dela são disseminados estes modelos morais, físicos e intelectuais, com os quais se busca uma certa homogeneização do corpo social, homogeneização essa sem a qual se perde, segundo Durkheim, a integridade e a consistência necessárias à existência da própria sociedade, enquanto corpo simultaneamente múltiplo e uno, mas necessariamente coeso.

É a Escola, e a educação em particular, que tem como função induzir nas gerações mais jovens uma certa similitude de alma, através de processos de socialização metódica e da distribuição de saberes e aptidões que permitam a cada um cumprir o papel que lhe está destinado, de acordo com a natureza diversa de cada indivíduo e as necessidades específicas do corpo social entendido como um todo. Trata-se de um olhar mecanicista sobre a sociedade, a qual é tida como um organismo cuja subsistência depende do perfeito funcionamento e integração dos seus diferentes órgãos, cada um com a sua função específica, mas em que todos actuam no sentido de manter o equilíbrio do conjunto.

Durkheim considera que a criança deve ser preparada com vista à função que será chamada a preencher (Durkheim, 2011, p. 101), facto que obriga a uma crescente e cada vez mais precoce especialização do processo educativo. Aproximamonos aqui de um determinismo biosocial que captura, praticamente desde a nascença, toda a potência multidimensional do indivíduo, no sentido de a circunscrever a um reduto específico e exíguo de saberes e aptidões que lhe foi reservado, em nome de uma eficácia operativa necessária ao regular funcionamento de um mecanismo complexo, o corpo social, composto por diferentes peças às quais são atribuídas diferentes funções, de acordo com características inatas, préexistentes, e as necessidades funcionais do conjunto. O olhar sociológico de Durkheim sobre a escola parece fundarse numa concepção utilitarista, de uma frieza maquinal que evoca mais um organismo artificial, sem alma, uma fábrica destinada a operar contínua e perpetuamente com o exclusivo propósito de operar contínua e perpetuamente, produzindose a si própria, renovando continuamente as condições necessárias à sua existência. Não obstante, Durkheim não deixa de proceder à salvação simbólica desse mecanismo, ao sustentar que a educação assegura a persistência da diversidade necessária, diversificandose e especializandose ela própria (Durkheim, 2011, p. 104).

Por outro lado, esta diversificação parece ser entendida por Bourdieu mais como uma desigualdade, uma vez que considera ser esta a principal característica visível do modo como
o sistema de ensino encara e acolhe as diferentes camadas sociais, as quais integram o sistema partindo de condições distintas e, como tal, formam expectativas diversas sobre os resultados a obter. E obtêm, de facto, resultados diferentes.

Para Bourdieu, a Escola o sistema de ensino trata todos os indivíduos como se fossem iguais, quando, na verdade, eles não são. Dirigese simultaneamente a indivíduos já dotados de capital cultural e de aptidão para fazer frutificar esse capital, (Bourdieu, 1966 ) e aos outros, dos quais esse capital e essa aptidão estão ausentes, aplicando a uns e outros o mesmo procedimento e acabando por exercer sobre os mais desfavorecidos uma violência simbólica que perpetua a sua condição e promove a reprodução social.

O presente texto acabou por se centrar mais, porém, na perspectiva adoptada por Michel Foucault e nos conceitos de vigilância, adestramento, disciplina e punição, convocando para a reflexão aspectos aparentemente laterais a esses conceitos, mas que se encontram, pelo menos subjectivamente, expressos em paradigmas mitológicos, os quais cumprem ainda um papel não negligenciável na compreensão dos fenómenos psicológicos e sociais. Alguns desses paradigmas têm ganho uma actualidade de algum modo surpreendente, num mundo onde parecem ressurgir com grande ímpeto coercivo alguns fantasmas mitológicos de grande resistência epidemiológica ao tempo e à transformação das culturas.

Neste contexto, não é indiferente a estratégia e o conjunto de directrizes que os grandes organismos internacionais, de expressão global, como a Organização das Nações Unidas ou o Fórum Económico Mundial estabeleceram como decisivos para a implementação da chamada Educação 4.0 e da Quarta Revolução Industrial1, fenómenos estimulados pelo avanço tecnológico e cujo objectivo central, segundo esses próprios organismos, é a fusão entre os mundos físico, digital e biológico.

É possível que estejamos em presença de uma reconfiguração profunda dos dispositivos de vigilância e disciplina, suscitada pelas transformações que a ciência e a tecnologia estão a operar no corpo social e no próprio conhecimento, transformações essas que não deixarão de influenciar a arte das distribuições, o controlo da actividade e o próprio conceito de adestramento dos corpos que caracterizam, segundo Foucault, o Estado herdado da época clássica.

Ao professor, seja pela estratégia pedagógica que adopte ou adapte, seja pelo currículo oculto através do qual busque corrigir desequilíbrios que identifique no processo de ensino e aprendizagem emergente do quadro normativo, cabe estar o mais atento possível às nuances culturais que se vão introduzindo no processo civilizacional, com mais ou menos transparência, mitigando o mais possível a inquietude e as incertezas de um tempo dominado pelo imprevisto, ou pela previsibilidade escatológica da decadência.

 

 

A Destruição de Leviatã . Gustave Doré . 1865

 

De Procusto ao Leviatã

Procusto (ou Procrustes), «aquele que estica», é um bandido da mitologia grega que possuía uma estalagem na estrada que ligava Elêusis a Atenas. Ele seduzia os viajantes que percorriam essa estrada em direcção à mais importante cidade da Grécia Antiga, enclausurandoos na sua estalagem. No interior, Procusto tinha duas camas de ferro: uma grande e outra pequena. Deitava os homens grandes na cama pequena, cortandolhes os pés para que nela coubessem e deitava os pequenos na cama grande, usando utensílios de ferreiro para os esticar, até que ocupassem todo o comprimento do catre. Todos acabavam por morrer sob a tortura cruel de Procusto, cujo mito simboliza a banalização, a redução da alma a uma medida convencional, a subjugação de qualquer ideal ao mais violento conformismo, por via de uma tirana ética e intelectual levada a cabo por indivíduos, organizações ou regimes intrinsecamente intolerantes para com a dissidência e qualquer acção ou juízo não conformes ao paradigma ou ideologia à Verdade, no fundo estabelecidos e certificados por quem detém o poder de estabelecer e certificar.

Na estória relatada pelo mito, Procusto acabou por ser atacado e morto pelo herói Teseu, que viria a infligir ao terrível e sanguinário bandido o mesmo castigo que este aplicava a quem tinha a má sorte de com ele se cruzar:

«A quinta e arriscada tarefa de Teseu foi a luta com o sanguinário Damastes ou Polipemon, apelidado Procusto, isto é, «aquele que estica». O criminoso assassino usava uma técnica singular com as suas vítimas: deitavaas num dos dois leitos de ferro que possuía, cortando os pés dos que ultrapassavam a cama pequena ou distendia violentamente as pernas dos que não preenchiam o comprimento do leito maior. O herói ático deulhe combate e matouo, preparandose para a sexta vitória contra o herói eleusino Cércion, filho de Posídon ou de Hefesto e de uma filha de Anfiction. O gigante de Elêusis obrigava os transeuntes a lutarem com ele e, dotado de força gigantesca, venciaos sempre e matávaos. Teseu enfrentouo.: levantouo no ar e, lançandoo violentamente no solo, esmagouo. Cércion é apenas mais um primo liquidado por Teseu, mas Procusto merece um ligeiro comentário: reduzindo as suas vítimas às dimensões que desejava, o «monstro de Elêusis» simboliza «a banalização, a redução da alma a uma certa medida convencional». Tratase, no fundo, como asseveram com propriedade, Chevalier e Gheerbrant, da perversão do ideal em conformismo. Procusto configura a tirania ética e intelectual exercida por pessoas que não toleram e nem aceitam as acções e os julgamentos alheios, a não ser para concordar. Temos, assim, nessa personagem sanguinária, a imagem do poder absoluto, quer se trate de um homem, de um partido ou de um regime político».2

O mito de Procusto não deixa de representar simbolicamente o exercício, através do suplício e da punição, de um poder ortopédico e disciplinador característico das instituições de sequestro no caso mitológico representadas na Estalagem de Procusto que têm a seu cargo conduzir os processos de adestramento e submissão dos corpos, processos esses que se constituem como fundamentais desígnios do poder disciplinar, sob comando do qual se coloca o corpo que se manipula, se modela, se treina, que obedece, responde (Foucault, 1987).

Os viajantes sequestrados por Procusto e sujeitos ao martírio ortopédico, eram homens que se dirigiam precisamente ao centro desse poder, a pólis, palco por excelência do exercício cívico e político, lugar de onde emanam as leis pelas quais se rege a multidão de súbditos, leis que constituíam a estrutura normativa que regulava as relações sociais. Mas a pólis é também uma metáfora do centro, da origem política de códigos e rituais que instituem uma determinada mecânica do poder, como lhe chamou Foucault, mecânica essa que absorve o corpo para o esquadrinhar, desarticular e recompor (Foucault, 1975).

O mito de Procusto atesta, em primeiro lugar, a inadequação do corpo natural, íntegro e intocado, do corpo selvagem, à função política que deve desempenhar ao serviço do poder que o captura, facto pelo qual se faz necessária a sua sujeição ao ritual do suplício ortopédico, que visa glorificar, não estritamente o sofrimento, mas o poder conformador dos modelos institucionais coercivos aos quais cabe igualmente garantir a racionalização utilitária do homem disciplinado. À glorificação do Homemmáquina, referida por Foucault em Vigiar e Punir, corresponde também, de alguma maneira, a ideia de HomemArtificial à qual Thomas Hobbes (2002) fez corresponder a natureza e o corpo do Estado Civil.

A cama de Procusto é o molde que determina não somente a nova forma do corpo disciplinado, mas também a afirmação de uma verdade superior ao corpo bárbaro, incivilizado, o qual submete não apenas em busca de uma nova configuração anatómica, no sentido político, mas para afirmar o domínio do Estado sobre a sua configuração natural, cuja destruição é simultaneamente um acto gerador da verdade e da legitimidade do poder que disciplina.

A morte do viajante capturado não é, desse modo, própria ou estritamente uma morte física, mas antes a morte do direito natural do indivíduo, ou seja, a morte da sua Alma. Assim pode entenderse Foucault quando escreve que «O HomemMáquina de La Mettrie é ao mesmo tempo uma redução materialista da alma e uma teoria geral do adestramento, no centro dos quais reina a noção de docilidade que une ao corpo analisável o corpo manipulável. É dócil o corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado».3

Tratase, antes do mais, de uma manifestação de força que visa demonstrar, tornar exposto e evidente, um direito de propriedade sobre o corpo, se quisermos adoptar o quadro simbólico de Foucault, e a validade, estabelecida in illo tempore, do direito de expropriação que sobre ele goza o Estado, enquanto síntese última do poder e do seu exercício pela violência (i)legítima, sobre todo o território e todas as dimensões biológica, social, política ou espiritual do indivíduo.

A fábula de Procusto é, contudo, indissociável de uma outra que a precede e que de certo modo representa, ainda no plano mitológico plano esse que não deixa de ser uma forma de arqueologia sociológica a violência e a voracidade do poder, onde racionalidade e irracionalidade se interligam como duas forças complementares uma apolínea e outra dionisíaca , de cuja sincronia emerge uma força sobrehumana, suprema, invencível pelo homem comum. Tratase do conhecido Palácio de Cnossos (o palácio do machado de dois gumes), construído pelo arquitecto Dédalo, por ordem do rei Minos, que tinha a forma de um inextricável labirinto, no centro do qual habitava o Minotauro, um monstro com cabeça de homem e corpo de touro.

Este monstro, em cuja natureza confluíam a racionalidade humana e a bestialidade animal, era alimentado periodicamente com sete rapazes e sete raparigas trazidos de Atenas e que lhe eram entregues em tributo e sacrifício. Aqueles que conseguissem escapar à voracidade do Minotauro, encontrariam a morte inevitável de outro modo, no interior do labirinto de corredores, salas e câmaras do Palácio desenhado por Dédalo, sem que pudessem jamais achar a saída da teia infinita urdida para seu perpétuo sequestro, desespero e desorientação. Foi Teseu o único que, com força e inteligência sobrehumanas, e com a ajuda preciosa de Ariadne e o fio condutor que esta lhe ofereceu como guia, não apenas matou o Minotauro, suplantando pela heroicidade e pela transcendência humana a brutalidade do monstro, como achou a saída do labirinto, conquistando a luz e a liberdade. Embora a vitória sobre o Minotauro represente uma vitória do homem sobre si próprio, o monstro supliciador e o labirinto que ciosamente guarda no seu palácio não deixam de ser também símbolos de um poder absoluto, disciplinador e cruel, cuja função é manter sob permanente ameaça de punição e morte o homem comum, de cujo corpo se alimenta com voracidade e cuja alma reclama igualmente para seu sustento, aprisionando ambos num emaranhado de ilusões e vãs esperanças de libertação.

Em semelhante plano simbólico, com origem na mitologia fenícia, o Leviatã era um monstro do caos primitivo; a imaginação popular tinha sempre medo que ele acordasse, atraído por alguma maldição eficaz contra a ordem existente. (…) Nos tratados de filosofia política, o Leviatã simboliza o Estado que se adjudica uma soberania absoluta, rival de Deus, e um direito absoluto de vida e de morte sobre todas as criaturas que ele submete. Monstro sem freios e sem piedade; tirania arbitrária, cruel, totalitária, e que pretende dominar os corpos e as consciências. Em Thomas Hobbes, esta concepção absolutista do Estado deriva duma filosofia materialista, que pretende proteger indivíduos e colectividades, mas ao preço de toda a liberdade e de uma obediência passiva ao poder.4

Embora inscrito numa genealogia mitológica distinta do Minotauro, o Leviatã partilha com ele características centrais de uma narrativa que coloca o indivíduo perante a ameaça de um poder absoluto de origem transcendente, cuja força em muito ultrapassa as suas limitações humanas e que se manifesta e organiza de modo a submeter, supliciar e extinguir qualquer oposição a uma determinada ordem ou desafio à sua soberania, cuja legitimidade foi estabelecida in illo tempore.

Essa bestialidade punitiva e vigilante que caracteriza figuras como o Minotauro, Procusto ou o Leviatã, que Hobbes designava como o Homem Artificial, subsumível à ideia de Estado Civil, apresenta uma certa coerência de sentido, uma constância de significados ao longo da história das instituições, da organização e do exercício do poder de uns indivíduos sobre os outros, sendo que a evolução da tecnologia e dos dispositivos usados nesse exercício não altera substancialmente o seu propósito, nem o seu valor psicológico, sociológico ou simbólico. Tratase, na verdade, da evolução formal, de mera sintaxe, de uma narrativa imaginária que descreve as relações de poder entre o indivíduo e a sociedade corporizada no Estado, verdadeiro Homem Artificial, relações essas que desde sempre se fundaram na submissão, no adestramento, na vigilância e na punição da desordem e da dissidência.

Interessa compreender, ainda, se essa submissão resulta de um gesto consciente e voluntário do indivíduo, que no uso da sua liberdade de escolha e decisão opta por contratualizar a cedência a uma entidade mitológica, exterior a si próprio, todo o conjunto dos seus direitos naturais, mormente aquele que de modo mais completo o define como indivíduo a Liberdade , ou se, pelo contrário, ele é coagido pela força e pelo medo a submeterse, abdicando, em face do terror e da ameaça de extinção, do conjunto de valores fundamentais constituintes do seu poder de autodeterminação, poder esse intransferível e indeclinável.

Mas como escreveu Thomas Hobbes,

Cedo e transfiro o meu direito de me governar a mim mesmo a este homem, ou a esta assembleia de homens, com a condição de transferires para ele o teu direito, autorizando de uma maneira semelhante todas as suas acções. Feito isto, à multidão assim unida numa só pessoa chamase Estado, em latim civitas. É esta a geração daquele grande Leviatã, ou antes (para falar em termos mais reverentes) daquele Deus Mortal, ao qual devemos, abaixo do Deus Imortal, a nossa paz e defesa. Pois graças a esta autoridade que lhe é dada por cada indivíduo no Estado, élhe conferido o uso de tamanho poder e força que o terror assim inspirado o torna capaz de conformar as vontades de todos eles, no sentido da paz no seu próprio país, e da ajuda mútua contra os inimigos estrangeiros. É nele que consiste a essência do Estado, a qual pode ser assim definida. Uma pessoa de cujos actos uma grande multidão, mediante pacto recíproco de uns com os outros, foi instituída por cada um como autora, de modo a ela poder usar a força e os recursos de todos, da maneira que considerar conveniente, para assegurar a paz e a defesa comum. Àquele que é portador dessa pessoa chamase soberano, e dele se diz que possui poder soberano. Todos os restantes são súbditos.5

Michel Foucault considera que a política etimologicamente, a ciência dos negócios do Estado foi originalmente concebida como instrumento de continuação da guerra ou, pelo menos, sob inspiração do modelo militar, como meio adequado à prevenção da desordem e do distúrbio civil. A política escreve Foucault como técnica da paz e da ordem internas, procurou pôr em funcionamento o dispositivo do exército perfeito, da massa disciplinada, da tropa dócil e útil, do regimento no acampamento e nos campos, na manobra e no exercício. Nos grandes estados do século XVIII, o exército garante a paz civil sem dúvida porque é uma força real, uma espada sempre ameaçadora, mas também porque é uma técnica e um saber que podem projectar o seu esquema sobre o corpo social.6

Assim se estabelece que a vocação opressiva e disciplinadora do poder assenta numa rigorosa geometria de procedimentos, tecnologias e dispositivos, perfeitamente sincronizados no simbolismo e na mecânica da sua actuação, a qual, em grande medida, assenta no carácter dissuasor da sua força, a qual tem como propósito manter a ausência de guerra na sociedade civil, através de um minucioso controlo dos corpos e das forças individuais que a compõem. Esse carácter dissuasor da força caracterizase quer pelo seu uso manifesto, através da punição exemplar do desvio ou da desordem punição essa alicerçada num discurso normativo de legitimação da violência , quer pela sua intencional, e paradoxal, omissão manifesta, ou seja, pela permanente insinuação da sua potência ameaçadora, imóvel mas vigilante, como uma Espada de Dâmocles que continuamente pende não apenas sobre os que levam a cabo qualquer acto que ameace subverter a Ordem, mas que sequer conjecture, pense ou exprima essa pulsão inconsciente.

 

 

Larva de Hymenoepimecis sp. na aranha Plesiometa argyra

 

Biopolítica e persuasão

Esta disciplina, segundo Foucault, faz parte do conjunto de recursos colocados ao serviço do Soberano e destinados ao bom adestramento dos corpos. É um tipo de poder simultaneamente ordenador e extractor, uma vez que não busca estritamente anular ou reduzir as forças individuais em circulação, sendo que elas representam e constituem a própria energia social, mas adestrálas, submetêlas, combinálas, para posteriormente as utilizar em seu próprio proveito de modo optimamente eficaz. Esta é uma estratégia inspirada em modelos e protocolos de origem militar, mas que pode ser igualmente encontrada na gramática da Biologia, onde um grau semelhante de inteligência estratégica e manipulação parasitária podem ser identificados, nomeadamente, mas não só, no comportamento predador de alguns animais.

Existe um tipo de vespa, a Hymenoepimecis sp., cujo comportamento foi estudado pelo biólogo William Eberhard7 do Smithsonian Tropical Research Institute, na Costa Rica, e que é classificada como sendo um parasita manipulador. O hospedeiro desta vespa é a aranha Plesiometa argyra. Na altura da desova, a Hymenoepimecis sp. pica a Plesiometa argyra quando esta se encontra urdindo a sua teia, injectandolhe uma substância tóxica no corpo que a paralisa por completo. Depois de a Plesiometa argyra se prostrar imóvel pela acção do veneno, a vespa deposita os ovos no seu corpo e aguarda que a aranha recupere a consciência, assim que atenuados alguns dos efeitos do veneno. Sucede que, a partir dessa altura, a aranha passa a carregar no seu corpo as larvas da vespa manipuladora, crias que nas semanas seguintes vão ter como alimento o próprio sangue da aranha. O suplício durará alguns dias, ao longo das quais a aranha continuará a urdir a sua teia enquanto as larvas da vespa se alimentam e crescem no seu interior. Até que algo inaudito acontece. De um momento para o outro, a aranha, induzida quimicamente pelas larvas, muda o seu comportamento e altera radicalmente a forma como urde a teia, assim como sua própria geometria. Abandona o desenho em espiral e passa a construir uma rede com apenas quatro fios, suspensos em forma de cruz. Quando essa cruz fica concluída, a larva come a aranha e com os seus fluidos constrói o casulo onde se dará a sua metamorfose final, ficando suspensa, em segurança, dos quatros fios da teia que ardilosamente levou a aranha a construir. Finalmente voa, prosseguindo o seu ciclo vital.

Este episódio, que retrata a crueldade de alguns mecanismos e estratégias de sobrevivência, assim como relações de força e de poder, sublinha igualmente a sofisticação de algumas dessas estratégias, assentes num conjunto de procedimentos meticulosamente colocados em prática, coerentes entre si, totalmente adequados à consecução dos seus objectivos finais. Tratase, neste caso particular, retirado do mundo natural e da biologia, da utilização de métodos insidiosos, profundamente manipuladores e parasitários, através dos quais um evoluído predador condiciona o comportamento da sua vítima, exercendo sobre ela um poder absoluto que não apenas modifica o seu comportamento, mas o faz de modo que esse comportamento passe a servir o seu próprio interesse.

A brutalidade do exemplo, característica de um mundo dominado pelo princípio da força e pela lei do mais forte, não lhe retira pertinência enquanto paradigma das relações de poder assentes na manipulação, na indução e condicionamento de comportamentos e na sofisticação insidiosa das estratégias colocadas em prática com vista à afirmação de uma soberania e à garantia da sua perenidade.

 

Para lá das palavras

A Cama de Procusto é antes de mais um símbolo. Mas os símbolos são ainda mais eficazes explicadores de realidades interditas à linguagem comum das palavras, aos discursos cuja ordem determina uma redução dos significados a um repertório previamente legitimado e do qual vai emergindo a verdade, consoante a necessidade social e política da sua produção.

A Escola é um instrumento fundamental da afirmação dessa verdade. Mas ela é também um espaço de reflexão, de questionamento e de autoquestionamento, que permite ao indivíduo, independentemente da sua condição social e cultural, um desenvolvimento pessoal que de outro modo lhe seria inacessível ou, pelo menos, muito mais difícil.

Ao professor, enquanto agente do poder incumbido de uma tarefa bem determinada no plano da sua legitimação, cabe exercer o seu ofício de acordo com esse princípio basilar, procurando simultaneamente estabelecer com os seus alunos os laços de afectividade necessários a uma profícua relação de ensinoaprendizagem, procurando propiciar as melhores condições possíveis à plena manifestação do seu potencial, quer enquanto seres humanos, quer enquanto cidadãos.

 

BRUNO SANTOS

 

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1 Forum, W. E. (2020). Schools of the Future – Defining New Models of Education for the Fourth Industrial Revolution (Platform for Shaping the Future of the New Economy and Society, Issue. World Economic Forum.
2 Junito de Souza Brandão. (1987). Mitologia Grega (Vol. III). Editora Vozes.
3 Foucault, M. (1987). Vigiar e Punir (23 ed.). Editora Vozes.
4 Chevalier, J., & Gheerbrant, A. (1982). Dicionário dos Símbolos (A. G. Cristina Rodrigues, Trans.). Teorema.
5 Hobbes, T. (2002). Leviatã. Imprensa Nacional – Casa da Moeda.
6 Foucault, M. (1987). Vigiar e Punir (23 ed.). Editora Vozes.
7 Eberhard, W. G. (2001). Under the influence: webs and building behavior of Plasiometa Argyra (Araneae, Tetraagnathidae) when parrasitized by Hymenoepimecis Argyraphaga (Hymenoptera, Ichneumonidae). The Journal of Arachnology( 29), 354–366.
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Referências bibliográficas
Bourdieu, P. (1966 ). L’école conservatrice. Les inégalités devant l´école et la culture. Revue française de sociologie(7 (3)), 325-347.
Chevalier, J., & Gheerbrant, A. (1982). Dicionário dos Símbolos (A. G. Cristina Rodrigues, Trans.). Teorema.
Durkheim, É. (2007). Educação e Sociologia (N. G. Lopes, Trans.). Edições 70.
Durkheim, É. (2011). Educação e Sociologia, Textos Seleccionados (S. Matousek, Trans.). Editora Vozes.
Eberhard, W. G. (2001). Under the influence: webs and building behavior of Plasiometa Argyra (Araneae, Tetraagnathidae) when parrasitized by Hymenoepimecis Argyraphaga (Hymenoptera, Ichneumonidae). The Journal of Arachnology( 29), 354–366.
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Junito de Souza Brandão. (1987). Mitologia Grega (Vol. III). Editora Vozes.