A tragédia que caiu sobre o Rio Grande do Sul, o estado do Brasil que na semana passada foi atingido por cheias devastadoras, ganhou, como tudo o que acontece hoje em dia na esfera ocidental, uma dimensão política e um vector, mais um, de polarização da sociedade brasileira.

Serve também como evidência de como é frágil a civilização humana, quando confrontada com as forças da natureza.

148 mortos, 125 desaparecidos, 756 feridos e meio milhão de pessoas desalojadas (números oficiais). Cerca de dois milhões de pessoas foram afectadas. Centenas de milhar ficaram sem água, energia elétrica ou comunicações. Perderam-se milhares de cabeças de gado. A actividade agrícola e industrial ficará em grande parte paralisada por meses, senão anos. Houve barragens que entraram em colapso. Os prejuízos são incalculáveis. Grassa o caos e o desespero em larga escala. Seria de esperar que a administração local, o governo estadual, o poder federal e a sociedade civil se congregassem num esforço comum para cuidados imediatos de emergência e ajuda às vítimas, mas também para reconstruir o que foi destruído.

Seria de esperar, sim, se vivêssemos num mundo são. Vivemos porém tempos doentios.

E o que está a acontecer no Brasil é precisamente o inverso do que seria expectável. Discórdia entre as autoridades estaduais e federais, instrumentalização política da tragédia, imposição de narrativas oficiais através da propaganda corporativa, da censura e da mitigação dos verdadeiros números de mortos e desalojados, rumores e teorias da conspiração abundantes, disfunção burocrática e lentidão na resposta governamental, que está a deixar as populações desamparadas perante a catástrofe.

Dezenas de milhares de pessoas estão agora em migração à procura de água potável, no Rio Grande do Sul. Na terceira década do Século XXI. No país mais rico da América do Sul.

 

 

A prioridade do regime Lula não foi a de assistir as vítimas. Foi a de controlar politicamente os acontecimentos, impor uma narrativa, instaurar o governo federal como única entidade licenciada para responder à tragédia, incapacitar mecanismos paralelos de assistência, silenciar as vozes dissidentes, impedir até que a sociedade civil pudesse prestar ajuda às vítimas, mesmo quando se tratava apenas de doar dinheiro àqueles que de apoio financeiro necessitam, ou simplesmente congelando essas contribuições sem que a sua aplicação futura possa ser escrutinada.

Casos absurdos de autoritarismo e instrumentalização política têm sido frequentes, registando-se até situações absurdas em que voluntários foram ameaçados de prisão e confisco de milhares de medicamentos. Outros voluntários relataram condições precárias, incluindo má alimentação e falta de medicamentos para doenças crónicas.

 

 

A estratégia, tipicamente globalista, foi a de colocar o estado no centro da luta mítica contra as ‘alterações climáticas’, mais do que assistir as vítimas das cheias. E afirmar dogmaticamente, sem qualquer evidência científica, que o fenómeno decorreu das alterações climáticas é tão credível neste momento como defender que as chuvas torrenciais que assolaram a região foram provocadas por projectos HAARP.

 

O Contra, que valoriza muitas das teorias da conspiração, antigas e contemporâneas, como um método sólido e consistente de apurar a verdade dos factos, não está em posição de creditar, por pesquisa insuficiente ou ausência de evidências, a tese HAARP (mas ficará atento a esta possibilidade). E rejeita o dogma climático.

 

 

Esta não é a primeira vez que o Rio grande do Sul é afectado por cheias. Pelo contrário: são comuns. O clima subtropical e a topografia do território contribuem para essa cíclica ocorrência. 70% do estado eleva-se a menos de 300 metros do nível do mar e a depressão central, que representa uma boa parte do território e onde vivem mais pessoas, a menos de 100. Esta área é, basicamente, um grande vale cercado pelo planalto basáltico a noroeste e o serradio a nordeste. O clima do planeta não é uma constante. É uma variável. Nas últimas semanas choveu aquilo que, em média, costuma chover em 4 meses, nesta região. Esta discrepância não é anómala, considerando a natural inconstância dos fenómenos climáticos.

Antes da presente calamidade, a pior enchente registada em Porto Alegre, a capital do estado, ocorreu entre Abril e Maio de 1941. De acordo com documentos da época, a cidade foi assolada por 24 dias consecutivos de chuvas torrenciais. Da população de 272 mil habitantes de Porto Alegre na época, cerca de 26%, o equivalente a aproximadamente 70 mil pessoas, foram desalojadas. Um terço das empresas e fábricas também foram inundadas. O que aconteceu fora da cidade só pode ser imaginado, porque não temos sobre esses acontecimentos passados a informação que temos sobre os acontecimentos de agora, e dizer que estas cheias são recordistas é olvidar esse facto: quantas pessoas morreram ou foram desalojadas em 1941, fora do perímetro urbano da capital estadual? Não sabemos.

Sucede também que uma convergência de circunstâncias metereológicas adversas provocou a tempestade perfeita, sendo que estas podem ser perfeitamente justificadas à luz de fenómenos naturais conhecidos e historicamente recorrentes, sem qualquer recurso à ficção apocalíptica.

Acresce, claro, a incúria do estado: O Rio Grande do Sul era um desastre à espera de acontecer e as “autoridades” estavam há 30 anos a ser avisadas de que uma catástrofe deste género poderia acontecer a qualquer momento. A má gestão das Áreas de Preservação Permanente, das reservas florestais e dos canais hídricos, bem como a agricultura intensiva, contribuíram também para o desastre.

Seja como for, e para além do horror da mortandade e do sofrimento humano, as cheias de rio Grande do Sul são um pavoroso sinal dos tempos. Mesmo nos momentos mais tenebrosos da história humana, ou principalmente durante esses momentos, a espécie sempre revelou uma tendência para a solidariedade, para a entreajuda, dando prioridade à sobrevivência, mobilizando-se na emergência, congregando-se, altruísta e pressurosa, sobre as catástrofes. Parece que até esse instinto social, de carácter primordial, está a sofrer erosão.

E esta tragédia não é de todo a única que carrega sintomas da decadência civilizacional. Assistimos, por exemplo, aquando da catástrofe ambiental de East Palestine, Ohio, nos Estados Unidos, a uma situação muito semelhante, com o regime Biden a ignorar a calamidade apenas porque o desastre ocorreu num território dominado por eleitores de Donald Trump, e porque o acidente com um comboio carregado de químicos extremamente tóxicos, cuja responsabilidade pelo transporte seguro cabia a uma agência federal, não compaginava com a agenda ambiental preferida em Washington, que é a climática.

Durante a dita ‘pandemia’ Covid-19 aconteceu exactamente o mesmo fenómeno: aquela que seria uma questão de saúde pública foi aproveitada pelo poderes instituídos para forçar vectores autoritários sobre as sociedades e efectuar a maior transferência de riqueza das classes médias para as elites da história universal.

Mas eis que chegados a este deprimente estágio histórico, já não somos capazes sequer de nos unirmos para salvar vidas. De colocar a política de lado para ajudar os nossos semelhantes. De salvaguardar o bem estar de populações afectadas por eventos terríficos. E os estados, já não são tanto aparelhos de protecção das populações, como mecanismos de repressão dos seus direitos e liberdades.

A história do Rio Grande do Sul é assim, lamentavelmente, um mau presságio: diz-nos que em caso de cataclismos ainda mais devastadores, a civilização e o quadro de valores éticos e morais que necessariamente transporta, serão inelutavelmente vencidos. Logo ao primeiro minuto do relógio do fim dos tempos.

 

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Este artigo beneficiou da contribuição dos seguintes amigos do Contra:
Silvana Lagoas
Saindo da Bolha
Paulo H. Santos