“É verdade que nunca encontrei um homem que de todo em todo se parecesse comigo. Mas isso é só porque as minhas falhas são enormes.”
Enzo Ferrari.

 

Este poderia ser mais um filme sobre corridas de automóveis. E como Hollywood nunca soube e nunca saberá filmar corridas de automóveis, podia ser mais um filme para enfiar na gaveta da banalidade. Felizmente, Michael Mann, que gosta de fazer rodar o celuloide à sua maneira, pegou num segmento crítico da vida de Enzo Ferrari, o mítico fundador da não menos lendária scuderia do cavalinho rampante para construir um objecto operático completamente diferente do que seria expectável.

O filme, protagonizado por Adam Driver como o fundador da empresa, apresenta alguns dos elementos omnipresentes na cinematografia de Mann: a progressão pausada da narrativa, a intensidade emocional dos personagens, muitas vezes encapsulada num silêncio perturbador, o conflito eterno entre valores morais opostos e conflituantes – a acção e a reflexão, o crime e o castigo, o risco e a glória.

 

 

Mann tem consciência da realidade histórica do automobilismo e da personalidade complexa do homem que quer biografar. Numa época em que as corridas de automóveis, realizadas em circuitos improvisados e infernais, eram uma indústria de matar pessoas, incluindo espectadores, o patrão da Scuderia não se inclinava a conceder perante compromissos de segurança. Implacável com os pilotos, perdeu quatro dos seus cinco ases mais talentosos entre 1955 e 1958. Para todos os efeitos, Enzo considerava que os pilotos não eram obrigados a sentar-se ao volante das máquinas diabólicas que lhes colocava nas mãos, mas uma vez que aceitassem a missão, teriam que permanecer com o pé na tábua mais tempo do que os seus adversários.

O herói de “Ferrari” é assim, em certo sentido, um anti-herói: o filme poderá começar com uma breve recordação a preto e branco de Enzo como piloto, a sorrir de exultação ao volante. O facto, porém, é que Ferrari retirou-se da competição em 1931 e, durante o resto da história, é essencialmente um gestor, discutindo com o seu contabilista, intimidando os jornalistas e repreendendo o seu bando de audazes se a sua vontade de vencer não parecer suficientemente brutal. O desporto automóvel na época de “Ferrari” não era uma questão de fazer ou morrer mas, como Enzo compreendia bem demais, de fazer e morrer. Ainda assim, não era ele que morria.

Pensando bem, há qualquer coisa do assassino profissional Vincent de “Collateral” no Enzo deste “Ferrari”.

Mais a mais, o momento em que se desenrola a acção não é propriamente uma apogeu na vida do imortal engenheiro. O filme apanha Enzo num momento de fragilidade e tensão. O seu filho Dino, que ele adorava, morreu de distrofia muscular em 1956. Embora Enzo e Laura visitem diariamente o cemitério onde Dino está sepultado, vão separadamente; o seu casamento está de tal forma destruído que não partilham sequer o luto. Enzo tem outro filho, Piero, fruto secreto da sua relação com Lina, mas adia o reconhecimento público do rapaz que, apesar de ser o seu herdeiro, só será Ferrari em 1978. Também nos negócios, a situação é desesperada. “Os carros de produção pagam as corridas”, diz Enzo, mas a Ferrari construiu e vendeu menos de cem desses carros no ano anterior; esse número tem de quadruplicar. Só com resultados espectaculares nas corridas – e a participação no capital social de uma corporação gigante da indústria automóvel do tempo, como a FIAT ou a Ford, é que a marca pode evitar a falência. O ideal, para vender mais carros de produção e conseguir um negócio favorável com os tubarões, seria a vitória na Mille Miglia, talvez a mais perigosa corrida de automóveis alguma vez realizada.

Esta é, basicamente, a plataforma novelesca sob a qual se desenrola a acção. E à medida que o filme progride, a tensão entre os vários vectores do enredo vai crescendo e, com ela, a figura gigantesca de Enzo, que Adam Driver, em teoria um actor desadequado a este papel, acaba por resolver com reservado brilhantismo. Mesmo um marido infiel, um empresário falido, um patrão draconiano, um competidor feroz de discutível ética, pode ser grande na vida, tão grande que mal cabe na tela.

O trágico desenlace tem fundamentos históricos e respeita-os. A Mille Miglia que o filme retrata – corrida em 1957 – foi a última. Alfonso de Portago perdeu o controlo do Ferrari 335 S a 30 milhas do fim, na aldeia de Guidizzolo. O acidente, fatal para o piloto e o co-piloto Edmund Nelson, ceifou também a vida de 11 espectadores, entre os quais cinco crianças. Enzo e a sua marca foram imediatamente responsabilizados pelo acidente, nas parangonas dos jornais e no consequente tribunal da opinião pública, para serem depois ilibados por um relatório de peritos.

 


 

Mas os mortos estavam lá, à beira da estrada, obliterados pelo metal pesado que foi moldado pelo engenho e a determinação obsessiva de um homem, como fantasmas de uma contabilidade sinistra. Terá sido esse o preço a pagar, pela continuidade da marca – a convivência com esses fantasmas. Porque o Ferrari 315 S de Piero Taruffi venceu a prova. E a Ferrari sobreviveu. E Enzo continuou a perseguir a sua ambição cega, o seu fado de ganhar corridas.

Como em “Public Enemies”, conseguimos perdoar ao sereno John Dillinger de Johny Depp o seu instinto bárbaro de criminoso profissional, também aqui concedemos ao mestre italiano a remissão dos seus pecados. Porque “Ferrari” é uma fita com poder que nunca mais acaba. Redime o herói dos seus erros, redime a mulher traída, enlutada e revoltada (uma muito competente Penélepe Cruz), redime o estereotipo da amante, que afinal é a mais virtuosa das mulheres, redime pilotos menos temerários que morrem por bravura e as raposas do volante, cujo cálculo maturado permite o prémio máximo. Redime enfim o espectador, a quem é oferecido, para além do banquete estético da cinematografia de Michael Mann e das carroçarias-obras-primas da marca italiana, um argumento em favor do engenho, da resiliência e da capacidade de transcendência do género humano.