Um relatório divulgado na segunda-feira, 12 de Fevereiro, no contexto do início da Conferência de Segurança de Munique, revela que a Rússia já não é vista como a maior ameaça à segurança pelas pessoas que vivem nas maiores economias do mundo, enquanto questões como a a migração, o terrorismo, as alterações climáticas e os ataques cibernéticos estão no topo da lista de ameaças percebidas.
Embora a ameaça representada pela Rússia – que invadiu a Ucrânia há quase dois anos – tenha sido citada como a principal preocupação em inquéritos realizados nos dois anos anteriores, caiu para o quarto lugar no último Índice de Segurança de Munique. O índice avalia as respostas dadas por pessoas dos chamados países do G7 – Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos – bem como Brasil, China, Índia e África do Sul.
O relatório explana as prioridades dos cidadãos em matéria de segurança desta forma:
“Enquanto isso, as percepções de riscos não tradicionais permanecem elevadas. As pessoas em todo o mundo continuam a estar mais preocupadas com as ameaças ambientais, enquanto as percepções de risco da migração em massa como resultado da guerra ou das alterações climáticas, do terrorismo islâmico radical e do crime organizado aumentaram. Embora a Rússia ainda fosse o principal risco para cinco países do G7 no ano passado, apenas os cidadãos do Reino Unido e do Japão ainda o consideram assim. Os cidadãos alemães encaram agora a Rússia apenas como a sétima maior preocupação e os italianos como a 12ª.”
As percepções na Europa mudaram de facto. Enquanto a França, a Alemanha, a Itália – e outros países da Europa Ocidental – enfrentam uma onda contínua de imigração em massa e as ameaças terroristas ligadas ao fenómeno, os dois temas são agora a principal preocupação dos cidadãos franceses e alemães, e apenas as alterações climáticas e os fenómenos climatéricos extremos superam a migração na Itália.
O terrorismo islâmico radical subiu seis posições para se tornar a ameaça mais preocupante para os franceses. As revelações coincidem com outro relatório que afirma que a insegurança sempre presente em França, incluindo o terrorismo e os protestos em massa, está a prejudicar gravemente a imagem internacional do país.
Entre os países inquiridos, a Alemanha tem agora o maior nível de preocupação com a migração em massa, o que não é surpreendente, dado que os governos actuais e anteriores não conseguiram conter o número de chegadas provenientes principalmente de países do Norte de África e do Médio Oriente. A má gestão da crise migratória elevou o partido de oposição anti-globalista Alternativa para a Alemanha (AfD) para o segundo lugar nas sondagens de opinião nacionais.
A ameaça do Irão, um país que orquestra ataques a Israel e aos interesses ocidentais em todo o Médio Oriente, também aumentou significativamente no índice de risco entre os países do G7. Curiosamente, para os cidadãos dos EUA e da China, os ataques cibernéticos são agora a principal preocupação, enquanto os dois países se consideram mutuamente o terceiro maior risco de segurança.
Entretanto, quase todos os indicadores relacionados com a guerra na Ucrânia caíram, incluindo a utilização de armas nucleares por um agressor e as interrupções no fornecimento de energia. Este poderia ser um sinal preocupante para a Ucrânia, que não conseguiu fazer qualquer progresso na sua contra-ofensiva contra a Rússia, uma vez que parece haver uma crescente falta de interesse por parte dos Estados Unidos e da Europa em continuar a financiar o esforço de guerra do regime Zelensky.
Um documento separado sobre a situação da segurança global, o Relatório de Segurança de Munique, pinta um quadro muito sombrio do mundo, com a rivalidade geopolítica a aumentar nos quatro cantos do planeta, juntamente com um abrandamento económico global, à medida que muitos se mostram desiludidos com a actual situação internacional. Em vez de procurarem cooperação e entrarem em situações vantajosas para todos, os principais intervenientes políticos estão envolvidos em interacções que apresentam apenas resultados negativos. O relatório destaca três pontos críticos neste jogo do qual todos saem a perder:
– A Rússia e a Europa sofrem as consequências da guerra na Ucrânia;
– Na Ásia Oriental, a cooperação económica reduzida, resultante de uma atitude imperialista da China que tem criado alergias, prejudica tanto Pequim como os seus vizinhos;
– No Médio Oriente, todos estão a perder com a intensificação da violência.
Organizada desde 1963, a Conferência de Segurança de Munique é um dos fóruns mais conhecidos para os decisores de políticas de segurança internacionais. O seu presidente, Christoph Heusgen, disse na segunda-feira que a guerra Israel-Hamas, a invasão da Ucrânia pela Rússia e os conflitos no Corno de África dominarão a conferência de três dias, que contará com a presença do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, o secretário de Estado dos EUA Antony Blinken, a vice-presidente dos EUA Kamala Harris, o chefe da diplomacia chinesa Wang Yi, o chanceler alemão Olaf Scholz, a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, o presidente israelita Isaac Herzog, o primeiro-ministro palestiniano Mohammad Shtayyeh e os chefes do governo do Líbano, Catar e Iraque.
Toda esta gente faz da conferência um lugar muito mal frequentado.
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