Nicolau carrega o fuzil com atenção meticulosa. Trovão, que jaz no trilho gelado e resfolega, com a lentidão dos condenados, lamentos antigos, traz o peso de todos os brinquedos da história universal naquela fractura exposta, exuberante, que serve de sangue o gelo sequioso.
O silêncio ártico, teimoso e barulhento e entretido com o ruído do destino, interrompe-se finalmente para que se oiça apenas no mundo o silvo metálico do zagalote, que se acomoda na interminável dialéctica entre o gatilho e o canhão.
Homem e rena fazem colidir o olhar incendiado num quântico momento de eternidade. Não mais correrão juntos as milhas astronáuticas. Não mais farão partilha do conforto das estalagens. Não mais, a velocidade cúmplice. Não mais, a lendária lealdade. Nicolau não sabe chorar e Trovão não quer demorar o adeus: chegou o momento de devolver ao universo os átomos que tomou emprestados, e é tudo.
Homem e rena procuram no céu a estrela que guarda o selo da sua amizade, mas a lua, desmesuradamente insuflada, cega o céu nocturno.
Bang.
Relacionados
15 Jul 26
Haikus do alto da falésia (décima temporada)
A arte do haiku: é a Parker que verseja, é o Beethoven que grita, é a baía que cria. Tudo o que o poeta tem que fazer limita-se ao jornalismo. Salvo seja.
11 Jul 26
Cidadão Sebastião
Sebastião quer comprar um bilhete de comboio para Ponta Delgada, enviar uma carta para Deus e evitar uma multa por transgressão na Hiper-Via Marte Saturno. Boa sorte.
1 Jul 26
Novos haikus de Fornalhas Velhas
A arte do haiku: a Ofélia encontra ovelhas para pastorear, os insectos suicidam-se na piscina, os maus versos também têm préstimo e o apagão mostra-te o rosto de Deus.
9 Jun 26
Haikus do fundo da noite
(Parte II)
A arte do haiku: o erro de Darwin, o despesismo da Marinha e o telescópio transformista, ou porque é que os sinos da minha aldeia batem mais alto do que o Fernando Pessoa imaginou.
4 Jun 26
Às vezes, quando vou levar o lixo.
Às vezes, quando vou levar o lixo ao seu horrífico depósito, Deus decide mostrar-me o seu magnífico propósito.
31 Mai 26
Vazio Faz Eco
Mas o que era sina virou gosto / falar sozinho é rotina / beber sozinho também / virei meu melhor amigo / hoje vou almoçar comigo . A poesia de Walter Biancardine.






