Enquanto celebrava a sua vitória nas eleições presidenciais argentinas, Javier Milei – um autodenominado anarco-capitalista – insistiu nos seus planos para promover mudanças radicais na economia – incluindo a “dolarização“. Embora o flamejante novo presidente da Argentina tenha expressado abertura para moedas alternativas – especialmente criptomoedas – o seu plano declarado para reformar a política monetária é muito diferente do que muitos libertários poderiam esperar.
Ao longo da campanha eleitoral, Milei enfatizou sua intenção de “dolarizar” a economia Argentina. Isto significa que o país – que enfrenta uma taxa de inflação de quase 150% – abandonaria o uso do peso argentino e, em vez disso, adoptaria o dólar americano como moeda oficial. Embora algumas nações da América Central e do Sul, como o Panamá e o Equador, tenham conseguido “dolarizar” o seu sistema monetário, nenhum país com uma economia do tamanho da Argentina tentou fazer a mudança.
O processo de “dolarização” exigiria que a Argentina substituísse o seu peso por dólares americanos, apesar do país ter actualmente poucas reservas dessa moeda. Para obter a quantidade de dólares americanos necessária à transição económica, Milei teria de vender activos do Estado, privatizando grandes áreas da economia argentina após anos de nacionalizações, durante os governos peronistas. Para além disso, o processo de transição monetária iria, na prática, dissolver o banco central argentino – com o poder de decisão da política monetária a ser entregue à Reserva Federal dos EUA.
A transferência das decisões de política monetária para a Reserva Federal colocaria limites imensos à capacidade do governo argentino de contrair empréstimos e gastar dinheiro – incutindo disciplina fiscal numa nação que não tem restrições de gastos há décadas. Os países da América Central e do Sul que “dolarizaram” as suas economias apresentaram taxas de inflação nitidamente mais baixas. No entanto, a dolarização não garante necessariamente que a Argentina não entre em incumprimento da sua dívida – o Equador, que se dolarizou em 2000, entrou em incumprimento duas vezes desde a adopção do dólar.
Um dos maiores obstáculos que Milei enfrenta neste seu plano de conversão fiduciária é a dívida de 44 biliões de dólares ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Até que a Argentina consiga cumprir as suas obrigações de dívida para com o FMI, este bloqueou, de facto, o país dos mercados globais – e sem acesso ao mercado, mesmo uma venda a preço de saldo dos activos do Estado seria difícil. Para além disso, o banco central argentino detém – na sua essência – reservas negativas de moeda estrangeira, tornando a “dolarização” ainda mais difícil.
Na década de 1990 e até 2001, a Argentina tentou uma “dolarização” parcial da sua economia – o “Plano de Convertibilidade” de 1991 indexou o valor do peso argentino ao dólar americano. Embora este plano tenha sido bem sucedido na contenção da inflação, a Argentina viu-se cada vez mais forçada a recorrer à dívida soberana para manter a paridade com o dólar, uma vez que ficou sem activos públicos para privatizar. A crise económica e política que se seguiu desencadeou uma depressão económica e motins em grande escala nos principais centros populacionais do país. Em última análise, a crise política resultou em quase duas décadas de governo peronista de esquerda.
Mais a mais, escolher nesta altura o dólar americano como moeda de referência é um risco que não considera a actual vulnerabilidade do mercado financeiro sediado em Wall Street, a insustentabilidade da sua dívida soberana, as políticas de emissão ensandecidas da Reserva Federal (que conduziram a um ciclo inflaccionista em todo o mundo) e a perda de influência da moeda dos EUA nos mercados globais, a partir do momento em que, a propósito da guerra na Ucrânia, o regime Biden começou a usar o dólar como instrumento de penalização das nações que não subscrevem a sua agenda neoliberal e a sua estratégia geo-política.
Assim sendo, o plano de Milei pode muito bem ser catastrófico. Ou simplesmente inviável. Mas acima de tudo, não tem nada de libertário, porque ninguém que queira libertar seja que país for escolherá a dependência de uma organização mafiosa e globalista como a Reserva Federal americana, que nem sequer é uma instituição pública (é propriedade da banca privada), e que já há muitos anos tem um objectivo fundamental: proteger as oligarquias financeiras e empobrecer as massas.
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