“A pornografia, ao que parece, é uma paródia do amor.”
Martin Amis
Martin Amis (1949-2023) percebeu bem o devastador impacto cultural da pornografia, muito antes de maior parte de nós se aperceber disso.
O romancista morreu na sua casa da Florida a 19 de Maio de 2023. Sucumbiu a um cancro do esófago 12 anos depois de o seu melhor amigo Christopher Hitchens, um compatriota britânico expatriado, ter morrido da mesma doença num hospital do Texas. Tinha 73 anos. Depois de meio século de escrita que marcou uma época, Amis deixa para trás um livro de memórias, duas colecções de contos, 15 romances e sete obras ensaísticas. Amis, Hitchens e o seu grupo literário ganharam fama com o início da revolução sexual, e as suas vidas e obras estavam inextricavelmente ligadas às convulsões sociais que transformaram o Ocidente.
Deu-se uma simetria mórbida nas vidas de Amis e Hitchens – o cancro, provavelmente causado pelo estilo de vida que partilhavam, no fim, e a quase dissolução, no início. Hitchens escreveu:
“No início da adolescência a minha mãe disse-me que um feto antecessor e um feto sucessor tinham sido removidos cirurgicamente, fazendo de mim um irmão mais velho em vez de um esquecido”.

O pai de Martin, Kingsley Amis, o lendário romancista cómico, procurou um abortista quando a sua namorada de 19 anos, Hilly, engravidou, mas mudou de ideias. No entanto, quando ela ficou grávida do quarto filho do casal, ele obrigou-a a abortar o irmão mais novo de Martin.
Os romances de Amis são agrestes e viscerais. Era um estilista genial, mas, tal como acontece com Phillip Roth e John Updike, a natureza gráfica, pornográfica e decadente de muitas passagens torna-os, pelo menos a espaços, de leitura perturbadora. Amis disse ao The New York Times Book Review em 1985:
“O que tentei fazer foi criar um estilo elevado para descrever coisas baixas: todo o mundo da fast food, espectáculos sexuais, revistas de nudismo. Sou muitas vezes acusado de me concentrar no lado pungente e rebarbativo da vida nos meus livros, mas sinto que sou bastante sentimental em relação a isso.”
É esse talvez o problema da literatura de Martin Amis: à parte a habilidade técnica, a sua escrita é frequentemente onanista.
O que não quer dizer que Amis não estivesse disposto a abordar o lado negro da revolução sexual, um assunto que examinou com cosntância nos seus ensaios. Em 2012, por exemplo, disse profeticamente a Jacob Weisberg, da Slate
“A pornografia vai mudar a natureza humana”.
Foi um dos primeiros liberais (do sexo masculino) a identificar o impacto cultural que a pornografia online, omnipresente, teria nas gerações vindouras.
Depois de uma visita a um cenário pornográfico, Amis confessou o seu horror perante o que encontrou, observando:
“O impacto da indústria pornográfica é incalculável e vai mudar a natureza da sexualidade daqui para a frente. Suspeito que qualquer criança com idade suficiente para andar terá acesso a ela dentro de poucos meses. Penso que é um grande atentado à inocência e sei, por conversas pessoais com os meus filhos, que a pornografia determina o estilo de toda a operação. E como essa forma é misógina, não acredito que seja uma coisa boa. A pornografia está a aumentar o fosso entre o sexo e o amor. A pornografia tem de se opor ao significado do sexo. Estremeço só de pensar no que as minhas filhas certamente viram.”
Amis acertou no impacto cultural colectivo da pornografia quando a maioria ainda a defendia – e as suas opiniões são agora cada vez mais consensuais entre os investigadores deste tópico. As tiradas de Amis sobre a influência da indústria na psicologia social e nas emoções humanas são quase inesgotáveis:
“A pornografia dirige-se aos opostos do amor, que são o ódio e a morte.”
O que Amis identificou nos seus escritos sobre a indústria pornográfica aplica-se a toda a revolução sexual. Numa era de escolhas sem limites, a violência e a escuridão, outrora restringidas pela moralidade, foram libertadas. As forças do mercado só dão ouvidos aos deuses carnais. Amis admite-o com uma franqueza surpreendente.
“Enquanto experimentava algumas produções radicais no videogravador do meu quarto de hotel, não parava de me preocupar com uma coisa: estava gostar. A pornografia serve o ‘perverso polimorfo’: o caos quase infinito do desejo humano. Se abrigamos a perversidade, mais cedo ou mais tarde a pornografia identificá-la-á.”
Mais uma vez, Amis revelou-se profético. Todos os corações humanos albergam perversidade; a pornografia extrai-a, alimenta-a e provoca metásteses, conseguindo integrar o sadismo no contexto sexual – mesmo entre os estudantes do ensino secundário.
Amis tinha uma visão clara do facto de as mulheres pagarem o preço das “liberdades” que a revolução sexual libertou. A sua irmã mais nova, Sally, foi uma dessas mulheres que precisava desesperadamente de protecção contra os homens mas que, numa era de libertação, ficou exposta e vulnerável à medida que os costumes sociais se desmoronavam à sua volta.
“Morreu aos 46 anos, e não de repente; foi uma das vítimas mais espectaculares da revolução.”
A filha de Sally, concebida após um caso de uma noite, foi dada para adopção. O seu casamento terminou passados poucos meses. Amis não escondeu o que pensava sobre a vida e a história da irmã:
“Ela era patologicamente promíscua. Tinha realmente a idade mental de alguém com 12 ou 13 anos e acho que estava aterrorizada. Acho que o que ela estava a fazer era procurar a protecção dos homens, mas o resultado foi o oposto, ela foi muitas vezes espancada, abusada, e simplesmente esgotou-se. É incrivelmente difícil encontrar um acordo decente entre homens e mulheres e ainda não o encontrámos”.
Até Hitchens acabou por dormir com Sally Amis.

Sally foi o tema do seu romance de 2010, The Pregnant Widow (A Viúva Grávida), que explorou as consequências da revolução sexual. O romancista roubou o título de uma frase do intelectual russo do século XIX Alexander Herzen, que observou que a revolução sexual criou
“Não um herdeiro mas uma viúva grávida… A revolução é uma longa noite de caos e desolação”.
A velha ordem está morta, mas a nova ainda não nasceu. Amis concorda:
“Por outras palavras, a revolução não é uma reviravolta. É um processo de agitação que se prolonga por muito tempo antes de o bebé nascer. Não é a substituição instantânea de uma ordem por outra”.
Amis viveu o tempo suficiente para ver que a revolução sexual só beneficiou alguns – principalmente os homens bonitos, talentosos e ricos. Os outros, como a sua irmã Sally, pagaram o preço. E quando os capitalistas sequestraram as mentes de uma geração com a pornografia, ele previu correctamente que até o gosto sexual seria moldado pelas forças do mercado.
Ainda estamos nesse momento da viúva grávida. A revolução sexual mudou tudo de forma irrevogável – talvez irrecuperável. Muitos, como Martin Amis, reconheceram e reconhecem que certas liberdades que conquistámos podem não ter valido a pena (o magnífico tomo de Louise Perry de 2022, The Case Against the Sexual Revolution, foi escrito, em grande parte, em defesa de raparigas como Sally Amis). Sabemos que a velha ordem desapareceu; sabemos que o que estamos a viver agora é o caos. Amis definiu-se como um escritor que explora esse caos. No entanto, ainda não sabemos o que virá a seguir – ou os escritores contra-revolucionários que poderão surgir para definir a nova era, quando esta chegar.
Mas é urgente que chegue. Porque como afirmou o célebre prosador britânico:
“Queres saber o verdadeiro significado da pornografia? É a dissociação total do amor e do sexo; a retirada do amor da arena sexual.”
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