“Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês fecham o Reino dos céus diante dos homens! Vocês mesmos não entram, nem deixam entrar aqueles que gostariam de fazê-lo.”
Mateus, 23:13
Noutros tempos, que uma eternidade agora separa, estaria aqui a escrever coisas furibundas sobre o Hamas e os palestinianos que se sacrificam uns aos outros enquanto tentam por todas as maneiras matar judeus e os iranianos que sacrificam os palestinianos enquanto tentam por todas as maneiras matar judeus.
Noutros tempos, longínquos como o momento da criação, próximos como um dia bem passado entre amigos que perdi ontem, estaria aqui a defender com acérrima prosápia a legitimidade de Israel para se defender do Hamas e dos palestinianos e dos iranianos e do diabo que os carregue.
Mas hoje, depois dessa eternidade de três ou quatro anos, já não vejo assim as coisas. Já não vejo Israel como a “lança em África”, muito porque essa “lança”, a da civilização ocidental, se transformou entretanto numa arma nefasta, aleatória ao ponto de ser lançada contra o próprio ocidente, cega de valores, totalitária na origem do arremesso, exterminadora de inocentes no seu destino indiferenciado, como uma gigantesca bomba de fragmentação, que rebenta com casamentos e baptizados, aniversários e reveillons, deixando vivos apenas os terroristas, que entretanto são bem vindos em França e na Suécia e em Itália e no Canadá e têm salvo conduto na fronteira norte do México.
Hoje, depois da imensidão de dias que passaram desde que acordei para a realidade, já não entendo os judeus com a bonomia com que os percebi enquanto dormia pela História a dentro.
Hoje, sei que Netanyahu persegue cristãos com a voracidade de Xi Jinping. Hoje sei que o estado de Israel criou duas classes de cidadãos com draconianos mandatos de vacinação. Hoje sei que a terra prometida tem uma embaixada feliz, em Davos. Hoje sei que os judeus em Nova Iorque, como em Los Angeles, como em Antuérpia, trabalham em nome de valores que abomino. Hoje sei que a liberdade de expressão e de religião não são ideais partilhados em Tel Aviv. Hoje sei quem são os amigos que o estado judaico preza:
Today, the entire world saw horrifying videos from Israel. Terrorists humiliate women and men, detain even the elderly, and show no mercy.
In the face of such a terrorist strike, everyone who values life must stand in solidarity.
We in Ukraine have a special feeling about… pic.twitter.com/AnBgVO2X0J
— Volodymyr Zelenskyy / Володимир Зеленський (@ZelenskyyUa) October 7, 2023
Hoje, fico absolutamente chocado quando pessoas que, pela sua qualidade intelectual e pela sua coragem política, admiro, ou já admirei, se entusiasmam com chacinas e recomendam genocídios:
Give ‘em hell@netanyahu
Enough is enough
— Dr Jordan B Peterson (@jordanbpeterson) October 7, 2023
Espero que a resposta israelita seja o mais “desproporcional” possível.
— alberto gonçalves (@albertogonc) October 7, 2023
A lógica do “olho por olho” até que todos ceguem já não me serve. Já não me resolve a consciência.
Continuo, claro, a ter as convicções que sempre tive sobre o Hamas ou os sacerdotes oligarcas de Teerão, cambada de chacinadores niilistas, filhos bastardos de Abraão, que, muito sinceramente (e até contra a o mandato de Cristo), encaro, como sempre encarei, com um misto de repulsa e de desdém.
Condeno, sem reticências e com a mesma intensidade de outrora, os horrores indizíveis do terrorismo islâmico, a sua profunda cobardia, a sua sistemática crueldade.
Afligem-me até às vísceras as imagens que nos estão a chegar de mulheres israelitas raptadas pelos bárbaros, expostas na sua fragilidade dilacerante aos piores instintos da turba.
Continuo, obviamente, a considerar que países como o Irão ou o Paquistão são infelicidades da geo-política, monumentais ameaças à paz, à razão e à civilização.
Já não considero porém que Israel seja inocente ou especialmente virtuoso, ou que os seus líderes sejam diferentes dos ayatollas. Não são.
Já não consigo enxergar que diferenças existem entre fariseus e islamitas, sionistas e jihadistas, rabis e mullahs. Não há nenhumas. São todos ortodoxos do inferno. São todos filhos de um Deus menor.
Hoje considero Israel como um estado inimigo. Não inimigo de um país em especial, de um modelo civilizacional em particular ou de uma ideologia específica (as ideologias faleceram).
Israel é meu inimigo. Tão inimigo como o Hamas, ou quase, quase. Mas, convenhamos, mais poderoso.
Israel é meu inimigo por muitas razões, a primeira das quais deriva deste simples facto biblíco (como é que eu demorei tanto tempo a perceber isto?):
Sou cristão.
Paulo Hasse Paixão
Publisher ContraCultura
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