
Juristas de várias academias neo-liberais americanas têm argumentado que a terceira cláusula da 14ª Emenda, uma medida pós-Guerra Civil que impediu os confederados de ocuparem cargos públicos depois de participarem na insurreição, pode ser usada contra Donald Trump. A tendência chegou ao ponto crítico de circularem rumores de que o Secretário de Estado do New Hampshire, David Scanlan, estava a pensar seriamente em remover o nome do ex-presidente dos boletins de voto referentes às primárias republicanas, neste estado.
Acoplando uma locomotiva sem freios à parte de trás deste comboio desgovernado, um ensaio de 25 de Agosto publicado no Politico compara o caso da desqualificação dos congressistas do sul durante a Guerra Civil com a possível interdição da presidência a Donald Trump, independentemente dos resultados eleitorais.
Como se não bastasse a feroz perseguição judicial que os poderes instituídos estão a desenvolver contra o principal candidato republicano às presidenciais de 2024, num exercício de interferência eleitoral que é recordista na história dos EUA, acresce agora uma rebuscada escolástica que na verdade não tem pés nem cabeça: o populismo americano do século XXI não tem comparação possível com a causa dos estados do sul no século XIX, ninguém pegou agora em armas para dividir a federação, e o artigo que Joshua Zeitz escreve sobre Trump e a 14ª Emenda não tem nada a ver com a 14ª Emenda: É uma história sobre a recusa da Câmara dos Representantes em tomar conhecimento dos congressistas sulistas em 1864, muito antes das emendas da Reconstrução terem sido ractificadas.
Zeitz começa a descrever o contexto da 14ª Emenda assim:
“Eles tinham vencido a Confederação e obrigado os estados do Sul a permanecer na União.”
E continua num estilo pomposo descrevendo a disputa sobre quem teria assento na Câmara em 1864:
“Esses acontecimentos alarmaram e aterrorizaram a maioria dos republicanos, especialmente radicais como o deputado Thaddeus Stevens, da Pensilvânia, o irascível “Ditador da Câmara”, de rosto sombrio. Com o seu olhar penetrante e autoridade implacável, Stevens, que foi presidente da Comissão de Meios e Modos durante a guerra, era também o líder implícito da bancada republicana. Manteve um controlo apertado sobre a Câmara, mesmo quando defendia políticas muito mais radicais do que a sua bancada no seu desejo de castigar o Sul e impor a igualdade política e económica dos negros. Stevens defendia a ideia de que os estados do Sul eram ‘territórios conquistados’, cujos residentes já não eram cidadãos dos EUA e certamente não tinham direito a governar-se a si próprios, quanto mais a participar na governação de toda a nação.”
Então, o que é que devemos fazer em relação a Donald Trump? Bem, é fazer como naquele elevado momento da história dos Estados Unidos em que um ditador de rosto sombrio manteve um controlo apertado com o objectivo de implementar políticas radicalmente punitivas nos territórios conquistados, para dominar pessoas que não tinham o direito de se governar a si próprias. O Midwest americano acaba assim de ser suprimido do mapa político – e eleitoral – da federação.
É esta a discussão com que entretêm o tédio – e o medo – as elites de Washington, nos tempos que correm. A classe dominante americana, essa colmeia hegemónica de académicos, políticos, magnatas e burocratas e comissários da imprensa, estão agora a discutir abertamente como Trump e os eleitores de Trump são um povo conquistado que tem de ser dominado e mantido fora do governo.
Porque Trump é que é um perigoso autoritário, nitidamente.
Comecem a procurar esta premissa não declarada e vão encontrá-la em todo o lado. Não há argumentos legítimos na direita; há apenas um extremismo perigoso (encarnado num magnata que apresentava reality shows e influenciado por Putin, o Terrível) que deve ser firmemente suprimido. Não há aqui nada que se assemelhe a um debate político.
A professora da NYU Ruth Ben-Ghiat, uma ‘especialista’ em autoritarismo, é uma fonte especialmente útil para analisar o radicalismo supressor da divergência que vivemos no Ocidente, neste momento. Ela tem a arrogância suficiente para escarrapachar a vilania autoritária nas redes sociais sem nunca pensar lá muito bem no que está a defender. E o que acha Ben-Ghiat que devemos fazer em relação a Trump? é simples:
“Muitos outros chefes de Estado foram processados, condenados, sentenciados à prisão ou à prisão domiciliária.
Os Estados Unidos devem fazer como outros países que prenderam líderes políticos. Até porque:
“A prisão de Trump é democracia em acção”.
E o que devemos pensar da candidatura presidencial de Vivek Ramaswamy, o candidato às primárias republicanas cujas ideias populistas mais se enquadram no eleitorado populista?
“Conceder-lhe um plataforma é permitir o autoritarismo, porque é concebida para trazer mais ideias extremistas e venenosas para o mainstream e degradar ainda mais a política democrática”.
Permitir que os candidatos republicanos expressem as suas ideias é um ataque extremista à democracia; prendê-los é “democracia em acção”. Double speak, mais uma vez. Como na Alemanha de hoje, ou na República “Democrática” Alemã de ontem, também nos Estados Unidos interditar a dissidência política é um recurso para “salvar” a democracia.
Voltando ao artigo do Politico, o órgão interno da classe dominante americana tem uma ideia sobre como lidar com Trump e os seus apoiantes, e a sua ideia fundamenta-se numa comparação com a forma brutal como a União lidou com a Confederação derrotada.
Espantoso.
Já não é adequado afirmar que a máscara autoritária do regime Biden está a cair. Neste momento, não há máscara nenhuma.
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