O impossível é uma fronteira, ou uma viagem?
Se deixar a alfândega e entrar na carruagem,
Deus fica zangado?
Passo os dias a sonhar acordado
com o diabo de uma passagem.
A física dos homens é de precisa matemática
e até a quântica há-de ter a sua gramática.
Mas o cosmos – está provado –
– não é exacto mestrado:
é uma valsa acrobática.
E se o acelerador perder o medo à embraiagem
e disparar para além dos limites da paisagem,
o que é que acontece?
Não é a velocidade que favorece
a corrosão na fuselagem.
Sábios de todo o mundo e druidas de sacristia
amontoaram vãs descobertas em grande histeria.
Não me digam que faz sentido
o mundo conhecido
ou a gravidez de Virgem Maria.
Num universo dividido entre o infinito e o zero,
reina a lógica de Aristóteles ou a poética de Homero?
Prostrados na Lua do sul
pelo paralelepípedo azul,
os astronautas são deuses, ou são o clero?
O impossível é uma fronteira, ou uma viagem?
E o pássaro sem trem de aterragem
que voa da Terra aérea
para a negra matéria:
é uma cruz, ou uma fotomontagem?
O impossível é uma ilíada, ou uma odisseia?
É a fusão nuclear que se desencadeia
e este é o alinhamento
da rampa de lançamento
que é necessária à epopeia.
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