“O amor é o dia.”
Armando Silva Carvalho, o decano da poesia portuguesa, falecido em 2017, tem um épico e consagrado trajecto lírico. Não é por acaso. O homem escrevia como um grego. E sentia como um romano.
Em “De Amore” (Assírio & Alvim, 2015), a sua poesia quase prosa sem deixar de ser suprema vem repleta de ressonâncias clássicas, é quase aforística sem querer, é poderosa especialmente nos substantivos, que ganham um peso monumental. Mesmo quando a balança se desequilibra com os chumbos da vida:
“Que peso tem agora a dor nessa balança
cujo fiel nem tu consegues
acertar?”
O decaimento clássico conduz a um inevitável, mas delicioso kitsch, que soa ao século um antes de Cristo. Como Horácio, Armando Silva Carvalho cativa bem mais pela sábia exuberância do que pela economia. O autor não tem medo das palavras. E da sua representação na percepção média do leitor.
“Este amor está preso aos pés da terra,
o seu cale é de ferro,
cresce na minha boca, estremece e resiste
nas frágeis construções
da nossa antiga, privada, fiel
arquitectura.”
E é do amor, afinal, que se trata. O amor adolescente, masturbativo, desorientado, assustador; o amor maduro, da mulher amada – e da mulher perdida; o amor melancólico, fúnebre, elegíaco. O amor marítimo, português e saudoso; o amor dos outros e pelos outros, porque “ninguém ama sozinho”. O amor individual, intestino, de ser e estar vivo; o amor das palavras e do drama que encerram; e, por fim, o amor primeiro, cosmogónico, que é, claramente, um exercício gravítico entre corpos, porque “matéria atrai matéria”.
Naquele que é, talvez, o mais belo momento de todo o livro, o poema “Fósseis do Amor da Escrita”, vinga essa eroticidade fatalista e carnal que é telúrica e rochosa, numa espécie de desenho sexual do cabo das tormentas:
“Pensemos na melhor explicação do mundo
do prazer.
O sabedor erótico
serpenteia as imagens nessa senda densa
de efusões de guerra enlanguescida
e de nervosas redes
na memória.
E vê-las passar no poema,
nos estratos das rochas junto ao Cabo,
nessa carta de pedra, que o tempo escreve ao mar
com a mão do vento, extensa, milenária.
(…)Sentindo o fornicar, mentalizando
o ardor,
ó palavras do ócio a laborar no vácuo,
acabai por ora
a tímida vertigem da invocação,
arrefecei as pedras no rigor do nada, tolhidas,
colhidas, recolhidas em sólido
sangue, vivo.”
A literatura relaciona-se assim com a geofísica do amor, e de uma forma tão poderosa que conseguimos, dir-se-ia, sentir o vento das palavras.
E a propósito de ventanias descobrimos, entretanto, um curioso retrato lírico de Saramago e Penélope, aves míticas propulsionadas a jacto pelos céus do mundo, encontrando abrigo seguro e descanso breve no improvável cenário vulcânico de Lanzarote e fechando, juntos, uma história de amor que será, por si só, literária.
Mas, à narrativa passional, é implícita a inevitabilidade da morte. Metade deste livro, as “42 Canções Entre 2 Portas”, é um exercício de luto pela irmã do autor, Genoveva. O propósito elegíaco é de tal forma pungente e inspirado, que transcende a dor exclusiva do poeta, para agregar firmemente o sofrimento de quem fica vivo, perante a saída de cena de alguém que se ama.
“Eu sou a grande viúva
que o tempo acomodou aos dias
do desejo.
Levo o amado,
e o amado é o mundo.”
Armando Silva Carvalho lança-nos para dentro do seu universo com corajosa e sincera volúpia, mas também nos eleva para um cosmos de sensações que conhecemos e de versos que nos são familiares sem que alguma vez os tivéssemos lido. Há, para o leitor de “De Amore“, a gratificante promessa de um território imaterial que é intimamente partilhado com o poeta.
Soturno e melancólico, grave e operático, “De Amore” é um daqueles livros que não têm idade e que, por isso, podem durar para sempre. Afinal, a morte não tem leis iguais para toda a gente. A não ser quando se está vivo. No último poema das “42 Canções”, Armando Silva Carvalho confessa:
“Sou um europeu de luto”.
Não somos todos?
—————————————————
Crónica publicada no Deus Me Livro em 2015 . Actualizada em 2022.
Relacionados
14 Nov 25
“Romance”, de Hélder Macedo: poesia para redimir amantes.
Poetas clandestinos da Literatura Portuguesa: “Romance” é um poema complexo, cifrado pela erudição e pela ambição lírica de Hélder Macedo. Uma cantiga de amigo de longa duração, que parece ter sido escrita pela salvação de um amor perdido.
11 Out 25
“Inferno” ou August Strindberg versus Dante Alighieri.
Biblioteca do Contra: “Inferno” será, muito provavelmente, um dos livros mais estranhos - e arrepiantes - alguma vez escritos; literatura de viagem pelos abismos da alma humana.
21 Set 25
Os Deuses e a Origem do Mundo: sete mitos criaccionistas, comparados.
Cosmogonias do Contra: uma breve mas incontornável antologia de António de Freitas, que reúne e compara os textos iniciáticos dos mais influentes aparelhos mitológicos na história das religiões.
18 Jun 25
A Rosa Rubra de Burns, reinventada para português.
Uma variação mais focada no ritmo do que na literalidade, pecado pelo qual encarecidamente rogamos que nos perdoem os escoceses, e que Robert Burns permaneça tranquilo, no seu túmulo de poeta imortal.
31 Mai 25
3 biografias de Fernando Pessoa, parte 3: João Pedro George e o Super-Camões.
A virtude do biógrafo está em perceber a virtude do biografado. E João Pedro George tem, pelo menos, o mérito de respeitar o homem cuja vida e obra tenta retratar. Considerando exercícios análogos dedicados ao imortal poeta, isto não é dizer pouco.
18 Mai 25
3 biografias de Fernando Pessoa, parte 2: Richard Zenith e a biografia de uma pessoa que o Pessoa não foi.
Zenith conta a história de uma pessoa. Mas não de Fernando Pessoa. É a biografia de um poeta que vive na imaginação do biógrafo, de acordo com contextos morais e políticos contemporâneos, apesar da acção decorrer num passado que o autor é incapaz de compreender.






